O São Paulo está sendo treinado por um técnico que a atual diretoria não escolheu — e não pode demitir. Esse é o paradoxo que o áudio vazado do presidente Harry Massis, na manhã desta segunda-feira (11), escancarou para a torcida tricolor depois da derrota para o Corinthians na Neo Química Arena, no domingo (10).

O áudio que ninguém queria ouvir em voz alta

Massis enviou a gravação a Armando Kalil, ex-conselheiro e atual sócio do clube, num momento de irritação após o clássico. O teor é direto: o presidente não vai trocar Roger Machado, que tem contrato até o fim de 2026, porque simplesmente não há caixa para arcar com a multa rescisória. A fala deixou pouco espaço para interpretação.

"Nós não temos condição de contratar, de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Eles não pagaram nada no ano passado. Está sobrando tudo para mim", disse Massis na gravação.

A queixa do dirigente vai além do presente imediato. Massis, que era vice-presidente de Julio Casares desde 2021 e assumiu a cadeira máxima em janeiro de 2026 após a renúncia do antecessor, enumera multas rescisórias que ainda pesam no balanço: Dorival Júnior, Zubeldía e até Anthony Crespo da primeira passagem. Três técnicos. Três contas abertas. Nenhuma gerada pela gestão atual.

O áudio que ninguém queria ouvir em voz alta Harry Massis herdou o São Paulo e n
O áudio que ninguém queria ouvir em voz alta Harry Massis herdou o São Paulo e n
"Estou pagando lá de trás, pagando multa do Dorival Júnior, do Zubeldía, que não tenho nada com isso. Paguei multa do Crespo da primeira passagem, que não tenho nada com isso. Está sobrando tudo para mim. Não tem dinheiro", completou o presidente.

Uma herança que o futebol sul-americano conhece de cor

O que para o dirigente europeu é uma crise de governança administrável com venda de ativos e fair play financeiro regulado pela UEFA, para o presidente de um grande clube brasileiro é uma avalanche de passivos sem data de vencimento clara. O São Paulo não é caso isolado: Vasco, Cruzeiro e Santos já protagonizaram episódios idênticos, em que a troca de gestão transferiu dívidas técnicas para quem não as contraiu. A diferença é que, desta vez, o desabafo vazou antes de qualquer nota oficial.

O levantamento que o SportNavo acompanhou ao longo do Brasileirão 2026 mostra que ao menos cinco dos 20 clubes da Série A carregam multas rescisórias de treinadores anteriores ativas no balanço. No São Paulo, o acúmulo é especialmente grave porque as trocas foram frequentes: quatro técnicos em menos de três anos, cada um com cláusulas milionárias em reais.

Roger Machado e o limite de um técnico sem respaldo

Massis deixou claro que o objetivo imediato é terminar o Brasileirão entre os seis primeiros para garantir vaga na Copa Libertadores — e nada mais. A declaração expõe o tamanho da ambição possível dentro da realidade financeira do clube.

"Se chegarmos em sexto do campeonato, está ótimo para ir para a Libertadores. Vamos ter calma, não é assim", afirmou o presidente.

Roger Machado, nesse contexto, opera sem a autoridade que vem do respaldo institucional pleno. A torcida pressiona, a diretoria reconhece o desconforto, mas o contrato até dezembro de 2026 funciona como âncora. Demitir custa. Manter também tem preço — em credibilidade e resultado.

O calendário que vai cobrar a conta

O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão 2026 no próximo fim de semana, e cada ponto perdido estreita ainda mais a margem de Massis para sustentar o discurso da paciência. Com a torcida já nas redes sociais exigindo mudança após o clássico perdido para o Corinthians, o presidente precisará de resultados para transformar o áudio de constrangimento em estratégia validada pelos números. Sem dinheiro para demitir e sem pontos para calar a crítica, o São Paulo enfrenta a equação mais dura da temporada.