"Zagueiro bom é o que você só nota quando ele erra." A frase circula nos bastidores do futebol brasileiro há décadas, atribuída a olheiros de base que justificam por que jovens defensores demoram mais para ganhar visibilidade do que atacantes de mesma geração.

Hiago Alves — nome completo Hiago Accinelli da Roza — é o tipo de jogador que essa lógica descreve com precisão cirúrgica. Nascido em 2 de setembro de 2005, o zagueiro catarinense completou 20 anos em setembro passado e acumula 6 partidas na Brasileirão Série A 2026 com o Criciúma, vestindo a camisa 31. Nenhum gol, nenhuma assistência — e, por isso mesmo, nenhuma manchete. Ainda.

Sob a lente do treinador

Para a comissão técnica do Criciúma, a questão não é se Hiago Alves tem qualidade, mas em qual ritmo ele absorve as demandas táticas da Série A. Com 20 anos e seis aparições no time principal, ele está na curva de aprendizado esperada para um defensor central formado na base.

Zagueiros, por natureza da posição, exigem maturidade posicional antes de consistência estatística. A métrica que interessa ao treinador não aparece na súmula — leitura de jogo, posicionamento em bloco defensivo, comunicação com o lateral. São variáveis qualitativas que só se consolidam com volume de minutos.

O fato de ele ter sido acionado em 6 jogos nesta temporada indica que a comissão técnica o enxerga como opção real, não apenas como recurso de emergência. Para um jovem de 20 anos disputando a primeira divisão, isso já é um dado operacional relevante.

Sob a lente do torcedor

Quem acompanha o Criciúma no Heriberto Hülse sabe que o clube catarinense tem histórico de revelar defensores que migram para praças maiores após uma ou duas temporadas de maturação. Hiago Alves entra nessa narrativa como o mais jovem da linha defensiva disponível no elenco 2026.

Para o torcedor, o nome 31 na camisa ainda não carrega peso afetivo acumulado. Mas é exatamente nessa janela — antes da consolidação, antes da valorização — que a torcida começa a construir a relação com um jogador. Seis jogos são suficientes para perceber estilo, mas insuficientes para emitir veredito.

O ponto de atenção para quem assiste ao vivo: um zagueiro de 20 anos que estreia na Série A sem esconder a bola, que não recua para o simples quando pode progredir, já demonstra algo que o futebol brasileiro desperdiça com frequência nos defensores jovens — coragem técnica.

Sob a lente da planilha de dados

Os números disponíveis desta temporada são objetivos: 6 jogos, 0 gols, 0 assistências. Para um zagueiro de 20 anos na Série A, a ausência de gols sofridos por erro direto seria o dado mais relevante — mas esse recorte não está disponível publicamente nos registros consultados.

O que a planilha permite inferir, com honestidade, é a cadência de participação. Seis jogos em uma temporada que ainda está em curso representa uma média de aparições compatível com o perfil de jogador em rodízio — nem titular absoluto, nem descartado. É a faixa em que clubes testam jovens sem expô-los a sequências longas que possam comprometer o desenvolvimento.

Para fins de comparação intercategoria: Hiago Alves, com 20 anos e 6 jogos na Série A 2026, já supera em participações no time principal a maioria dos zagueiros da sua geração (nascidos em 2005) atualmente registrados em clubes da primeira divisão brasileira — posição que historicamente demora mais do que o ataque para chegar ao profissional. Segundo dados do futebol brasileiro, a média de estreia de zagueiros na Série A para jogadores dessa faixa etária costuma ocorrer após os 21 anos.

Sem histórico de múltiplas temporadas disponível para consolidação, a análise quantitativa se encerra aqui — e qualquer somatório além deste recorte seria fabricação, não jornalismo.

Sob a lente do mercado

O Transfermarkt ainda não atribuiu valor de mercado público a Hiago Alves — o que, paradoxalmente, é informação. Jogadores sem precificação na plataforma europeia mais consultada por scouts são alvos de monitoramento silencioso, não de proposta imediata. A janela de oportunidade para o clube detentor dos direitos econômicos é exatamente essa: valorizar o ativo antes que o mercado o descubra.

O Criciúma, clube de orçamento enxuto na Série A, tem interesse estrutural em formar e valorizar defensores jovens. Hiago Alves, com contrato ativo e camisa 31 no elenco principal, representa um ativo de baixo custo de manutenção e potencial de valorização não linear — o tipo de posição em que uma sequência de 10 a 15 jogos consistentes pode triplicar o valor de mercado estimado em 12 meses.

Cenários realistas para os próximos 12 meses:

  • Cenário base: Hiago fecha 2026 com 12 a 18 partidas, consolida espaço no elenco e entra no radar de clubes de médio porte da Série A para 2027.
  • Cenário otimista: Uma sequência de jogos como titular — motivada por lesão ou suspensão de defensores à frente na hierarquia — expõe o jogador a olheiros e gera primeiro interesse formal de clubes com maior capacidade de investimento.
  • Cenário conservador: Permanece como opção de rotação em 2026, ganha rodagem em Copa do Brasil ou Sul-Americana se o clube se classificar, e inicia 2027 com posição mais definida no planejamento técnico.

Conforme registrado pelo SportNavo no acompanhamento de jovens defensores da Série A, a janela entre 20 e 22 anos é historicamente a de maior liquidez para zagueiros brasileiros no mercado interno — o momento em que clubes compram potencial antes de pagar por currículo.

Hiago Alves está, agora, no centro exato dessa janela. "Zagueiro bom é o que você só nota quando ele erra" — e o mercado, quando finalmente notar Hiago Alves, provavelmente já terá perdido o melhor momento para comprar.