Todo mundo sabe que Higor Meritão está na Chapecoense disputando o Brasileirão Série A com regularidade impressionante. O que pouca gente parou para entender é o caminho tortuoso — das divisões inferiores paulistas ao futebol nacional — que tornou isso possível aos 31 anos.
Sob a lente do treinador
Treinadores não escalam jogadores por afeto. Escalam por função. E Higor Meritão, meia de 186 cm que carrega a camisa 22 na Chapecoense, aparece em 35 jogos nesta temporada — número que indica presença constante no plano de jogo, não rotatividade de elenco.
O perfil físico chama atenção. Um metro e oitenta e seis centímetros para um meia é dado relevante. Protege bola. Ganha disputa aérea. Ocupa espaço no meio. São atributos que um técnico valoriza em contextos de pressão alta ou de construção mais direta.
Na temporada atual, ele soma 1 gol e 2 assistências em 35 partidas. Os números de finalização e criação não são o argumento central da sua escalação. O argumento é outro: presença, equilíbrio, cobertura. Jogadores assim raramente ficam no banco quando o treinador precisa de consistência.
Sob a lente do torcedor
Existe uma categoria de jogador que a torcida só percebe quando está ausente. Higor Meritão pertence a ela. Não é o camisa 10 que a arquibancada grita o nome. Não é o artilheiro que a galera — ops, que o torcedor — celebra em uníssono.
É o meia que recupera bola. Que cobre o lateral. Que posiciona o time. Discreto como o trânsito da Avenida Paulista numa manhã de domingo — funciona tão bem que ninguém comenta.
A trajetória de Meritão é, ela mesma, uma narrativa de persistência sem holofote. Começou pelos clubes menores do estado de São Paulo, nas divisões inferiores do Campeonato Paulista. Passou pelo Botafogo-PB em 2017. Estreou no futebol nacional em 19 de maio de 2018, pela Ferroviária, num jogo da Série D contra o Cianorte. Nada glamouroso. Tudo concreto.
A Série B veio depois, via empréstimo para o Botafogo-SP. Estreou como substituto no segundo tempo, na abertura da temporada de 2019, contra o Vitória. Pequenos passos. Degrau a degrau. Série D, Série B, e agora Série A com regularidade.

Sob a lente da planilha de dados
Os números desta temporada são claros e não precisam de adorno. 35 jogos, 1 gol, 2 assistências. Para um meia de perfil mais defensivo, a participação direta em gols não é o indicador primário de desempenho — mas ela existe, e isso importa.
O que a planilha também revela, de forma indireta, é a consistência de uso. Trinta e cinco partidas numa liga de 38 rodadas significa disponibilidade quase total. Sem ausências longas. Sem lacunas no calendário. Presença.
Na comparação com pares na posição dentro do Série A, meias com perfil de volume — mais marcação do que criação — tendem a ter participações diretas em gols abaixo de 5 por temporada. O número de Meritão está dentro dessa faixa. Não é outlier positivo nem negativo. É consistente com o papel que ocupa.
Segundo levantamento do SportNavo, jogadores nesse perfil etário — entre 30 e 33 anos, em posição de meia com função mais defensiva — têm vida útil relevante no futebol brasileiro por mais duas ou três temporadas, desde que mantenham o volume de jogo. Meritão, com 31 anos completos em junho de 2026, está no pico dessa janela.

Sob a lente do mercado
Não há dados públicos disponíveis sobre o valor de contrato atual de Higor Meritão, salário ou cláusula de rescisão. O que o mercado avalia, no entanto, é perfil e prateleira.
Um meia de 31 anos, 186 cm, com 35 jogos na Série A numa única temporada não é ativo especulativo. É ativo de utilidade. Clubes de Série B ou da própria Série A com orçamento médio enxergam nesse perfil exatamente o que precisam: confiabilidade sem custo de estrela.
A passagem pelo CRB por empréstimo do UNAM — clube universitário mexicano — indica que Meritão teve ao menos uma janela de internacionalização na carreira, mesmo que modesta. Esse trânsito entre ligas e divisões distintas revela adaptabilidade. Para o mercado, adaptabilidade tem valor.
O contrato atual com a Chapecoense não tem detalhes divulgados. Mas jogadores com esse perfil — regulares, experientes, sem histórico de contusões graves registrado — costumam renovar ou encontrar destino em clubes de padrão semelhante ao final do ciclo.
Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista para Meritão é a continuidade no futebol nacional. A Série A é o teto provável, não o trampolim. A questão é quanto tempo ele consegue manter o volume de 35 jogos por temporada — e se a Chapecoense segue confiando nele como titular funcional ou passa a usá-lo como opção de banco conforme o elenco evolui.
Aos 31 anos, com carreira construída tijolo a tijolo desde as divisões mais baixas do futebol brasileiro, Higor Meritão não é um jogador que aparece nas manchetes. É o tipo que aparece na escalação. E isso, no futebol, é mais raro do que parece.










