Sexta-feira, 8 de maio de 2026. Na noite em que completava 61 anos, o professor, pesquisador e militante José Hilário Ferreira Sobrinho morreu vítima de infarto em Fortaleza, interrompendo um doutorado em História Social pela Universidade Federal do Ceará que era, também, um projeto político de décadas.
O mito que Hilário passou a vida desmontando
A narrativa que circula sobre o Ceará é conhecida: a de um estado que teria abolido a escravidão antes do restante do Brasil, em 1884, como ato de generosidade e progressismo. Hilário Ferreira dedicou sua produção acadêmica a demonstrar que essa versão é incompleta — e, em grande parte, conveniente para quem quer apagar a presença negra da história cearense.
Sua dissertação de mestrado, defendida em 2005 na UFC, mapeou o tráfico interprovincial de pessoas escravizadas no Ceará entre 1850 e 1881. O argumento central: o estado não aboliu por consciência humanitária, mas porque exportava em massa sua população escravizada para o sul do país, esvaziando o próprio contingente. O livro derivado desse trabalho, Catirina, minha nêga, tão querendo te vendê...: escravidão, tráfico e negócios no Ceará do século XIX, publicado em 2011, é hoje referência obrigatória na historiografia regional.
Hilário também é autor de Abolição no Ceará: um Novo Olhar (2009) e Descobrindo e Construindo Redenção (2011). O conjunto da obra funciona como um sistema de revisão historiográfica — cada livro ataca uma camada do apagamento racial que ele chamava, em entrevistas e aulas, de "competente estratégia do racismo".
O GRUCON e a construção de uma base militante no Ceará
Antes de qualquer publicação acadêmica, havia o ativismo. Em 1982, Hilário fundou o Grupo de União e Consciência Negra (GRUCON), organização pioneira no debate sobre racismo, escravidão e abolição no estado. O grupo funcionou como incubadora de gerações inteiras de militantes, pesquisadores e educadores que hoje sustentam o movimento negro cearense.
Quando pesquisa escravidão, ele recua ao século XIX para iluminar o presente. Quando forma militantes no GRUCON, ele traduz o arquivo histórico em ferramenta política — esse foi o método de Hilário por mais de quatro décadas.
Quando atua no Sindjorce, ministrando cursos como Camutuê – Comunicação Livre de Racismo e Abdias Nascimento – Comunicação e Igualdade Racial, ele leva o letramento racial para dentro das redações, expandindo o alcance da pesquisa para além da universidade.
Graduado em Ciências Sociais pela UFC, mestre em História Social pela mesma instituição e doutorando no momento da morte, Hilário também integrava o Grupo de Pesquisa GT Emancipações e Pós-Abolição (GTEP/CE/Unilab). Sua atuação incluía ainda manifestações culturais — maracatu e afoxé — como extensão do trabalho intelectual.
O que os pares disseram e o que os dados confirmam
O historiador Airton de Farias foi direto nas redes sociais após a confirmação da morte:

"Uma enorme perda pra comunidade de Historiadores e pra sociedade cearense. Hilário era um dos principais Historiadores da escravidão no Ceará e militante histórico do movimento negro no estado."
A antropóloga Izabel Accioly reforçou a dimensão do apagamento que Hilário combatia:

"Hilário dedicou sua vida à luta contra o apagamento da presença negra na história do Ceará."
O Departamento de História e o Programa de Pós-Graduação em História da UFC, em nota oficial, destacaram que a trajetória de Hilário "marcou de forma decisiva os estudos históricos e as reflexões sobre raça, desigualdade e cidadania no Brasil". A nota da Secretaria da Cultura do Ceará confirmou a morte na manhã de sábado, 9 de maio.
No SportNavo, ao analisar trajetórias que moldam gerações — seja no esporte ou na cultura —, o padrão que emerge é sempre o mesmo: o impacto real de um trabalho só se torna visível quando ele para. Com Hilário, a interrupção é abrupta. O doutorado em andamento na UFC ficou incompleto. A pesquisa sobre resistência negra no Ceará perde seu principal sistematizador.
O velório ocorreu na tarde de sábado, 9 de maio, na Funerária do Cemitério Parque da Paz, em Fortaleza, com sepultamento às 16h30. Hilário deixa uma biblioteca de três títulos publicados, um mestrado concluído, um doutorado interrompido e, no GRUCON — fundado há 44 anos —, uma estrutura que ele construiu para sobreviver a qualquer ausência individual.
Na Funerária do Cemitério Parque da Paz, um caixão cercado por militantes, pesquisadores e ex-alunos. Sobre a tampa, nenhuma flor de plástico — apenas o peso de 44 anos de arquivo vivo.









