Um jogador que não pode jogar é o reforço mais importante do Fluminense na semana mais decisiva da temporada. O paradoxo é real — e a forma como o clube resolve essa equação nesta terça-feira (19), diante do Bolívar no Maracanã, dirá muito sobre o estado real do elenco comandado por Luis Zubeldía.
O homem de 39 anos que chegou para não entrar em campo
Hulk foi apresentado oficialmente no último sábado (16), poucas horas antes do apito inicial contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. A cena tinha algo de teatro europeu: o atacante mineiro, veterano de passagens por Porto, Zenit e Atlético-MG, surgiu diante das câmeras com a compostura de quem já viu o suficiente para não se impressionar com pressão. Declarou que conquistar a Libertadores é seu grande sonho no clube — e então revelou, quase de passagem, que as regras da Conmebol o impedem de atuar na competição por já ter defendido outro clube na edição vigente.
"Venho com muita vontade e determinação para valer a pena cada esforço que foi feito. Estamos muito confiantes de que sim, tem tudo para se classificar ganhando os jogos em casa, nesse próximo jogo. Cheguei ao treino transmitindo minha energia para os jogadores. Encontrei um ambiente muito leve. Está todo mundo preparado"
Há algo de paradoxal, mas também de estratégico, nessa dinâmica. Em clubes como o Liverpool de Klopp ou o Atlético de Simeone, a gestão de elenco sempre reconheceu que liderança e presença física no vestiário têm peso mensurável — não apenas nos minutos jogados, mas nos treinos, nas conversas de corredor, no ritmo que um veterano impõe ao grupo. Hulk, nesse sentido, funciona como um metrônomo sem precisar tocar a bola.
Dois pontos e uma matemática cruel na Libertadores
A situação do Fluminense no Grupo da Libertadores é, para usar um termo preciso, delicada. Com apenas dois pontos somados nas primeiras quatro rodadas, o Tricolor precisa vencer o Bolívar por uma diferença de três gols para voltar a depender apenas de si mesmo na briga por uma vaga nas oitavas de final. Dois pontos em quatro jogos equivale ao mesmo rendimento de um time que somasse um empate e três derrotas — ou seja, o aproveitamento atual do Flu na fase de grupos (16,7%) é inferior ao de qualquer clube que tenha avançado de fase na edição da Libertadores em 2025.
O contexto doméstico, contudo, mudou de figura. Conforme apuração do SportNavo, o Fluminense havia passado mais de dois meses sem vencer dois jogos consecutivos — a última sequência positiva havia ocorrido nos dias 12 e 15 de março, contra Remo (2 a 0 fora de casa) e Athletico-PR (3 a 2 em casa). A vitória sobre o Operário na Copa do Brasil, seguida pelo triunfo por 2 a 1 sobre o São Paulo no Maracanã no último sábado, quebrou esse ciclo. John Kennedy e Canobbio marcaram contra o Tricolor paulista, com o lateral Guilherme Arana sendo destacado por analistas como peça decisiva na construção do primeiro gol.
"A gente sentiu esse apoio tão caloroso da torcida", disse Canobbio após o jogo contra o São Paulo, sinalizando que o Maracanã cheio nesta terça pode funcionar como fator adicional.
O que Zubeldía precisa montar para o Bolívar
A missão contra o Bolívar exige algo que vai além do simples pressing alto ou de um bloco defensivo bem posicionado. Vencer por três gols de diferença requer um equilíbrio tático que poucos técnicos conseguem calibrar corretamente: intensidade ofensiva sem expor as linhas de saída ao contra-ataque adversário — o tipo de dilema que Guardiola chama de "controlar o caos". Zubeldía, formado na escola argentina de Marcelo Bielsa, tem no DNA exatamente essa propensão ao jogo vertical e à ocupação de espaços, mas os resultados na Libertadores ainda não refletiram isso com consistência.
A agenda da semana é densa. Depois do duelo desta terça (19h, horário de Brasília) no Maracanã, o Tricolor retoma os treinos na quarta-feira às 15h30 no CTCC, segue com sessões quinta e sexta, viaja para o interior paulista e enfrenta o Mirassol no sábado (19h), em São José do Rio Preto, pelo Campeonato Brasileiro. Não há margem para gestão de carga — o que torna ainda mais relevante a presença de Hulk como liderança cotidiana, mesmo que sua contribuição permaneça invisível nas súmulas.
O presidente Mattheus Montenegro, que assumiu o clube no início de 2026 em sucessão a Mário Bittencourt e tem mandato até o fim de 2028, concedeu entrevista ao ex-jogador Felipe Melo nesta segunda-feira (18) — um sinal de que a diretoria quer comunicação aberta num momento de pressão institucional. O Fluminense enfrenta o Bolívar nesta terça-feira, às 19h, no Maracanã. Uma vitória por margem inferior a três gols mantém o clube praticamente eliminado da Libertadores; um triunfo com a diferença necessária reabre o torneio para o Tricolor nas últimas rodadas da fase de grupos.









