Não, Hulk não foi contratado pelo Fluminense para ser o centroavante que vai resolver o problema de gols do clube. Reduzir a contratação a essa expectativa é ignorar o que o atacante de 39 anos representa taticamente — e o que Luís Zubeldía claramente enxergou nele antes de fechar o negócio. A pergunta certa não é quantos gols Hulk vai marcar. A pergunta é: o que um jogador com esse perfil físico e técnico entrega a um time que precisa de peso, presença e referência no último terço?
O que levou o Fluminense a apostar num veterano de 39 anos
O contexto financeiro do clube explica parte da decisão. O presidente Mattheus Montenegro deixou claro, em entrevista ao canal de Felipe Melo no YouTube, que o Fluminense opera num equilíbrio delicado entre competitividade e controle de dívida.
"Sem uma injeção nova de capital o Fluminense vai ter muita dificuldade de ao mesmo tempo ser competitivo e pagar a dívida. Todo mundo hoje gasta muito dinheiro no futebol. Então se você reduz a folha isso gera um risco muito grande. Eu posso ser rebaixado, e aí acabou o planejamento", disse Montenegro. Dentro desse cenário, contratar Hulk — um ativo de marketing com capacidade real de lotar o Maracanã — é uma decisão que serve ao futebol e ao caixa simultaneamente. O histórico do estádio como mandante sustenta essa lógica: neste século, o Fluminense disputou 34 jogos com mais de 50 mil torcedores contra clubes de fora do Rio e perdeu apenas um, com aproveitamento superior a 80%.
Mas reduzir Hulk a um instrumento de bilheteria também seria um erro de análise. O atacante chegou ao clube após passagem pelo Atlético-MG, onde foi protagonista de um dos ciclos mais vitoriosos da história do clube mineiro. Aos 39 anos, a velocidade de explosão diminuiu — isso é fisiologia, não opinião. O que permanece é a potência física para segurar a bola de costas, a qualidade técnica para girar em espaços reduzidos e, sobretudo, a capacidade de atrair marcações duplas e criar espaço para os jogadores ao redor.
O que Zubeldía já sinalizou sobre o encaixe tático
Hulk revelou, em sua apresentação oficial, que já teve conversas com o técnico argentino — ainda que sem entrar em detalhes de esquema, já que não pode atuar antes de julho, após a Copa do Mundo.
"Já tive oportunidade de conversar com o professor, mas não falando da questão de jogo diretamente até porque não posso jogar no momento. Vou conseguir me entrosar com companheiros, entender a melhor maneira que posso ajudar meu time dentro de campo", afirmou o atacante. A frase é reveladora: Zubeldía não está esperando um Hulk de 2012. Está mapeando como usar um jogador experiente dentro de um sistema que já tem identidade.
O técnico argentino trabalha com uma estrutura que exige referência no ataque para fixar a linha defensiva adversária e abrir espaço para os meias e pontas. Germán Cano cumpriu esse papel com eficiência nos anos anteriores, mas a queda de rendimento do argentino em 2025 abriu uma lacuna real. Hulk, mesmo com mobilidade reduzida em relação ao auge, tem o perfil físico para ser essa âncora ofensiva — e a inteligência posicional para não depender da velocidade que já não possui na mesma medida. O SportNavo mapeou que, na última temporada do Atlético-MG, Hulk participou diretamente de 19 gols entre marcas e assistências no Brasileirão, o que demonstra que sua contribuição vai além da finalização pura.
O que Hulk entrega que o elenco atual não tem
- Presença física na área para disputas aéreas e bolas de segunda, algo que o perfil mais técnico de John Kennedy não oferece da mesma forma.
- Capacidade de segurar a bola sob pressão e girar para colegas em movimento — essencial no 4-3-3 de Zubeldía.
- Experiência em jogos de mata-mata continental, com passagens por Libertadores e Champions League ao longo da carreira.
- Liderança dentro do vestiário, algo que o próprio Hulk sinalizou ao destacar a facilidade de adaptação com ex-companheiros no elenco tricolor.
A partir de julho, o que muda no panorama do Fluminense
Hulk só estreia após a Copa do Mundo, o que significa que o Fluminense terá de atravessar a fase mais crítica da Libertadores 2026 sem ele. Esse detalhe é relevante: quando o atacante entrar em campo, o clube provavelmente já estará nas oitavas ou quartas da competição — ou eliminado. No Brasileirão, a chegada dele coincidirá com o momento em que o campeonato começa a ganhar consistência, geralmente a partir da décima rodada. Zubeldía terá julho e agosto para integrar Hulk ao sistema sem a pressão imediata de um mata-mata, o que é uma vantagem real de planejamento.

O próprio atacante demonstrou consciência sobre o processo ao dizer que chegará "1000% fisicamente" e que confia no entrosamento técnico do grupo. Essa postura — de quem entende seu papel sem precisar ser protagonista absoluto — é exatamente o que diferencia um veterano útil de um nome contratado por nostalgia. É o mesmo cenário que o São Paulo viveu em 2023 ao repatriar Lucas Moura, apostando num jogador de 30 anos com perfil diferente do auge — só que agora a aposta é num atleta quase uma década mais velho, com um papel tático ainda mais específico e uma janela de estreia que exige paciência antes de qualquer julgamento.










