Quando Neymar caminhou pelo gramado do estádio do San Lorenzo, em Buenos Aires, não eram os torcedores do Santos que cantavam o seu nome. Eram os argentinos — torcedores de um clube adversário, de um país historicamente rival, numa noite em que o Santos empatou em 1 a 1 e permaneceu na lanterna do seu grupo na Copa Sul-Americana. O resultado foi pobre. A cena, no entanto, disse mais sobre a dimensão do personagem do que qualquer placar poderia dizer.
A recepção que Neymar nunca havia vivido fora do Brasil
O perfil oficial do San Lorenzo nas redes sociais foi o primeiro a documentar o fenômeno: torcedores argentinos receberam Neymar com um calor raramente reservado a adversários. O próprio jogador admitiu ter sido surpreendido pela atmosfera gerada pelos locais.
"Nunca havia passado por isso fora do Brasil e para mim é um grande prazer, uma honra receber esse carinho", declarou Neymar em vídeo publicado pelo clube argentino.
Um dos episódios mais comentados da noite envolveu uma criança que entrou em campo ao lado do camisa 10. O menino, já visivelmente emocionado antes mesmo de se aproximar do jogador, não conteve as lágrimas ao ficar frente a frente com o ídolo. Neymar percebeu a situação, trocou palavras com o garoto e o acolheu — cena que viralizou rapidamente nas redes sociais. Dentro do vestiário, o meia Ezequiel Herrera, do San Lorenzo, revelou que foi o primeiro do elenco argentino a pedir a camisa do brasileiro, negociando o pedido ainda durante a partida.
"Eu pedi a ela quando o jogo começou, eu estava marcando. Ele me disse que não a tinham pedido, que estava falando comigo. Todos a queriam, mas fui o primeiro. Algo muito lindo e emocionante", disse Herrera.
Há paralelos históricos para esse tipo de reverência transcontinental. Pelé era aguardado com expectativa semelhante em qualquer estádio do mundo, inclusive os de rivais sul-americanos. Ronaldinho Gaúcho, nos anos dourados do Barcelona entre 2004 e 2006, recebia aplausos do próprio Bernabéu — episódio que entrou para o folclore do futebol mundial. Neymar, agora aos 33 anos, provoca reações que remetem a essa linhagem rara.
Lampejos de genialidade e o diagnóstico espanhol
A imprensa espanhola acompanhou o jogo com atenção particular. O diário As, que cobriu Neymar durante seus anos no Barcelona — onde o brasileiro marcou 105 gols em 186 jogos entre 2013 e 2017 — publicou uma crônica detalhada sobre o desempenho do atacante na capital argentina.
"Em campo, Neymar mostrou lampejos de genialidade técnica, como a jogada que resultou no gol de Gabriel. No entanto, faltou-lhe potência nas arrancadas, precisava ser mais consistente no ataque e não conseguiu criar perigo real quando suas pernas começaram a cansar", escreveu o veículo espanhol.
O diagnóstico do As é coerente com o que se observa desde o retorno do jogador ao Santos em 2025: Neymar ainda possui o repertório técnico que o tornou o terceiro maior artilheiro da história da seleção brasileira, com 79 gols em 128 jogos, mas a consistência física ao longo dos 90 minutos ainda é uma variável em construção. A participação no gol de empate — marcado por Gabigol — mostrou que o instinto permanece afiado. A queda de rendimento no segundo tempo revelou que o ritmo de jogo ainda precisa ser conquistado partida a partida.
O que essa noite significa para a corrida pela Copa
A análise do SportNavo mostra que o contexto desta partida vai muito além de um resultado na Sul-Americana. Até o dia 18 de maio, data definida por Carlo Ancelotti para a convocação final da seleção brasileira para a Copa do Mundo, o Santos disputará mais cinco jogos. Desses, apenas dois serão na Vila Belmiro — contra Red Bull Bragantino e Coritiba, ambos pelo Campeonato Brasileiro —, e Neymar tem manifestado preferência por atuar no gramado natural de casa.
O confronto seguinte é contra o Palmeiras, no Allianz Parque, neste sábado. O técnico Cuca evitou confirmar ou descartar a presença do camisa 10 no duelo, em razão da grama sintética do estádio — um empecilho que o jogador historicamente rejeita, mas que pode precisar contornar dado o curto prazo para impressionar o selecionador italiano. A presença ou ausência de Neymar nesse clássico já é, por si só, um capítulo relevante da narrativa de reconquista.
A idolatria dos rivais como termômetro de um retorno
Há uma leitura histórica precisa para o que aconteceu em Buenos Aires. Quando Diego Maradona visitou o Brasil nos anos 1980 com o Napoli ou a seleção argentina, era recebido com admiração velada mesmo por torcedores brasileiros — o reconhecimento da genialidade transcende fronteiras e rivalidades. O fato de torcedores argentinos, povo de orgulho futebolístico notório, cantarem o nome de um brasileiro em pleno estádio de Buenos Aires é um dado que o futebol registra com parcimônia.
O Santos volta a campo no sábado diante do Palmeiras, no Allianz Parque, pelo Campeonato Brasileiro, e a decisão sobre a participação de Neymar no clássico será o próximo capítulo de uma história que ganhou, em Buenos Aires, um dos seus cenários mais improváveis e reveladores.








