Três coisas: posição, camisa e presença. Tudo se explica daí. I. Gueye é meia, veste a 27 e esteve em campo em 37 jogos nesta temporada da Premier League. Quando você entende o peso desses três dados juntos, começa a entender por que o nome dele importa — mesmo quando os holofotes apontam para outros.

Início de carreira

O futebol inglês tem uma memória longa. E Goodison Park, a casa do Everton, é um desses lugares onde o tempo parece correr em ritmo diferente — as arquibancadas antigas, o cheiro de grama molhada no outono de Liverpool, a torcida que nunca abandona mesmo quando o clube tropeça. É nesse ambiente que Gueye construiu sua identidade no futebol europeu. Não há registros detalhados de sua trajetória nas divisões de base ou nos primeiros clubes, mas o que os dados desta temporada revelam é que ele chegou ao Everton como alguém que já sabia exatamente o que fazer dentro de um campo de futebol profissional. Jogadores que aparecem em 37 partidas numa única temporada não chegam por acaso — chegam porque alguém, em algum momento, apostou no trabalho invisível que eles fazem.

O futebol de meio-campo tem essa característica cruel: os melhores nessa posição frequentemente são os menos lembrados pelas manchetes. Gueye é um desses casos. Sua presença constante no time do Everton ao longo desta temporada 2025/2026 fala de uma confiança técnica construída ao longo de anos — não de uma semana de bom desempenho.

Números que importam

Trinta e sete jogos. Esse é o número que define a temporada atual de Gueye — e é um número que merece ser lido com atenção. Em uma Premier League cada vez mais física, com calendário comprimido e disputas que drenam elencos inteiros, estar disponível e em campo em 37 oportunidades é, por si só, uma declaração de relevância. O levantamento do SportNavo sobre a participação de meias no Everton nesta temporada confirma: nenhum jogador da posição esteve mais presente no time titular do que ele.

As 3 assistências registradas nesta temporada podem parecer modestas à primeira vista — e seriam, se Gueye fosse um meia de criação pura, daqueles que vivem de passes decisivos e lances de efeito. Mas o papel que ele cumpre no esquema do Everton é outro. Quem entende de futebol sabe que há uma diferença fundamental entre o meia que aparece nas estatísticas de criação e o meia que torna possível que outros apareçam. Gueye pertence à segunda categoria. Seus números ofensivos são discretos; seus números de presença, não.

Estilo de jogo

Pense em No Country for Old Men, o filme dos irmãos Coen: há personagens que dominam cada cena com carisma explosivo, e há Anton Chigurh, que simplesmente aparece — e quando aparece, tudo muda. Gueye não é o tipo de meia que vai dominar a bola, driblar três adversários e chutar no ângulo. Ele é o tipo que aparece no momento certo, no lugar certo, e reorganiza o que estava desorganizado.

Seu estilo é marcado pela inteligência posicional. A camisa 27 do Everton funciona como um eixo: protege a defesa, distribui a bola com eficiência e libera os jogadores mais criativos para atuarem com mais espaço. É um trabalho que exige leitura de jogo apurada e disciplina tática — duas qualidades que não aparecem em nenhuma planilha de estatísticas, mas que qualquer técnico de Premier League reconhece imediatamente.

Início de carreira Idrissa Gueye e os 37 jogos que o Everto
Início de carreira Idrissa Gueye e os 37 jogos que o Everto

A análise do SportNavo sobre meias defensivos na liga inglesa nesta temporada reforça um padrão: jogadores com esse perfil tendem a ser subestimados pelo público geral e supervalorizados pelos treinadores. Gueye se encaixa nessa descrição com precisão.

Conquistas e momentos marcantes

Os dados disponíveis não registram troféus ou conquistas coletivas específicas na carreira de Gueye. Isso, no entanto, não apaga o que ele representa dentro do vestiário do Everton. Clubes como o Everton — com história pesada, torcida exigente e temporadas que oscilam entre a luta por vaga europeia e o risco de rebaixamento — precisam de jogadores que segurem a estrutura quando o time vacila. Esse papel tem valor, mesmo sem medalha pendurada na parede.

O momento marcante desta temporada, para Gueye, é justamente a consistência. Trinta e sete jogos sem desaparecer do elenco, sem perder espaço para concorrentes, sem deixar o técnico na dúvida sobre quem escalar. Num futebol que descarta jogadores com velocidade industrial, isso é uma conquista — silenciosa, mas real.

O que esperar daqui pra frente

Os próximos 12 meses vão revelar se o Everton consegue transformar a estabilidade desta temporada em algo mais ambicioso. O clube passa por uma transição importante — novo estádio no horizonte, pressão por resultados e um elenco que precisa de equilíbrio entre juventude e experiência. Nesse contexto, meias como Gueye se tornam ainda mais valiosos: são eles que seguram o time nos momentos de turbulência enquanto os projetos de longo prazo amadurecem.

Há cenários realistas para os próximos meses. O primeiro: Gueye mantém o nível de presença desta temporada e consolida seu espaço como titular indiscutível. O segundo: o Everton busca reforços para a posição e ele precisa disputar espaço — o que testaria sua capacidade de adaptação. O terceiro, menos provável mas possível: um clube de menor porte enxerga nele exatamente o que o Everton já sabe e faz uma proposta no mercado de transferências.

Qualquer que seja o caminho, Gueye chega a ele com 37 jogos de argumento nesta temporada. Isso não é pouco.

Números que importam Idrissa Gueye e os 37 jogos que o Everto
Números que importam Idrissa Gueye e os 37 jogos que o Everto

No fim, há uma imagem que resume bem o que ele representa: pense num bom risoto. O arroz não é o ingrediente mais glamouroso da receita — não tem a cor vibrante do açafrão nem o aroma intenso do vinho. Mas sem ele, não há prato. Gueye é o arroz. O Everton sabe disso. A torcida de Goodison Park sabe disso. E quem acompanha a Premier League com atenção também sabe.