O silêncio que pairou sobre o CT da Barra Funda na manhã de segunda-feira (20) foi quebrado pelo som das pisadas firmes dos membros da torcida organizada Independente. Ali, naquele espaço sagrado do futebol profissional são-paulino, desenrolava-se mais um capítulo de uma relação que se transformou radicalmente nos últimos cinco anos: a dinâmica de poder entre torcida organizada e diretoria do São Paulo.
A conversa com Harry Massis, presidente do clube, e posteriormente com Rafinha, gerente de futebol, não foi apenas mais uma cobrança de torcedores insatisfeitos. Foi a materialização de uma nova realidade no futebol brasileiro, onde as organizadas assumiram papel de interlocutoras políticas, capazes de influenciar decisões estratégicas dos clubes. No caso tricolor, essa evolução ganhou contornos ainda mais específicos: os uniformizados defenderam publicamente que Roger Machado é o "menos culpado" pela crise atual, direcionando suas críticas diretamente a Rui Costa, executivo de futebol que nem sequer participou do encontro para "evitar constrangimentos".
A metamorfose de uma relação conflituosa
Para compreender a magnitude do episódio de segunda-feira, é necessário voltar a 2019, quando Raí assumiu a diretoria de futebol e implementou uma política de distanciamento das organizadas. Naquele período, as cobranças eram feitas através de faixas no estádio e manifestações públicas, mas raramente havia diálogo direto com a cúpula dirigente. O São Paulo vivia então os últimos suspiros da era Juvenal Juvêncio, marcada por instabilidade política e resultados insatisfatórios que culminaram com a ausência em competições continentais por três anos consecutivos.
A chegada de Julio Casares à presidência, em dezembro de 2020, marcou o início de uma nova fase. O advogado, conhecedor das dinâmicas políticas do clube desde os anos 1980, estabeleceu canais de comunicação mais diretos com as torcidas organizadas. Segundo apuração do SportNavo, essa aproximação não foi casual: Casares entendia que o apoio das organizadas seria fundamental para sustentar projetos de médio e longo prazo, especialmente em momentos de crise.
O ponto de inflexão dessa relação ocorreu durante a campanha do Campeonato Paulista de 2021, quando o São Paulo conquistou o título após 16 anos de jejum. Ali, estabeleceu-se um pacto tácito: as organizadas ofereceriam apoio em troca de transparência e participação nas discussões sobre os rumos do futebol. Esse acordo informal funcionou bem durante a gestão de Rogério Ceni e nos primeiros meses de Hernán Crespo, mas começou a ruir com as contratações malfeitas de 2022 e o início da era Rui Costa como executivo.
O surgimento de Rui Costa como alvo preferencial
A nomeação do ex-jogador português como executivo de futebol, em março de 2023, representou uma guinada na estrutura administrativa tricolor. Com passagem vitoriosa pelo Benfica, Rui Costa chegou ao Morumbi com a promessa de profissionalizar ainda mais o departamento de futebol. No entanto, sua gestão coincidiu com uma série de decisões questionáveis: a demissão precoce de Dorival Júnior, as contratações caras e improdutivas de jogadores como James Rodríguez e a instabilidade tática que se perpetuou sob diferentes comandantes.
Os números revelam a dimensão da crise: desde a chegada de Rui Costa, o São Paulo teve aproveitamento de apenas 52,3% no Campeonato Brasileiro, conquistou apenas um título (Supercopa do Brasil de 2024) e viu seu investimento em contratações superar os R$ 150 milhões sem retorno proporcional em resultados. Para as organizadas, especialmente a Independente, esses dados cristalizaram a percepção de que o problema não estava nos técnicos, mas na estrutura de comando do futebol.
A ausência de Rui Costa no encontro de segunda-feira não passou despercebida pelos torcedores presentes. Essa estratégia de "evitar constrangimentos", conforme apurado pela ESPN, demonstra como a pressão das organizadas se tornou um fator real nas decisões administrativas do clube. É uma inversão completa do cenário de cinco anos atrás, quando a diretoria simplesmente ignorava as manifestações das torcidas organizadas.
Roger Machado e a blindagem improvável
A defesa de Roger Machado pelas organizadas representa outro aspecto fascinante dessa nova dinâmica. O técnico gaúcho, que chegou ao São Paulo em agosto com a missão de estabilizar o time após a saída de Luis Zubeldía, encontrou nas organizadas um apoio que seus antecessores não tiveram. Essa proteção não é casual: Machado representa, na visão dos torcedores, o profissional que trabalha com as limitações impostas pela estrutura, não o responsável por criá-las.
Os dados sustentam parcialmente essa percepção: sob o comando de Roger Machado, o São Paulo teve aproveitamento de 61,8% em 11 jogos, superior à média dos técnicos anteriores no período pós-Rui Costa. No entanto, derrotas como a sofrida para o Vasco por 3 a 1, de virada, no último final de semana, alimentam as críticas internas e colocam o treinador numa posição delicada.
A estratégia das organizadas de criar essa blindagem em torno de Roger Machado evidencia uma sofisticação política que não existia anos atrás. Elas compreenderam que focar as críticas no executivo de futebol, figura menos visível publicamente, pode ser mais efetivo do que atacar o técnico, que inevitavelmente será substituído em caso de maus resultados.
O ultimato velado e suas consequências
A promessa dos organizados de "lotar o estádio" e apoiar o elenco, com prazo até a parada para a Copa do Mundo, configura um ultimato velado à diretoria são-paulina. Essa estratégia de estabelecer prazos e condições demonstra como as torcidas organizadas evoluíram de grupos de pressão espontânea para entidades com planejamento político estruturado.
Harry Massis, que assumiu a presidência após a renúncia de Julio Casares, encontra-se numa posição delicada. Segundo fontes próximas à diretoria, o dirigente pretende dar respaldo a Roger Machado, mas reconhece que uma derrota para o Juventude na Copa do Brasil, nesta quarta-feira (22), às 19h15, no Morumbi, pode inviabilizar essa sustentação política.
A sequência de jogos das próximas semanas será definitiva: além do Juventude pela Copa do Brasil, o São Paulo enfrenta o Mirassol no Campeonato Brasileiro e depois tem o clássico contra o Corinthians. Três confrontos que determinarão não apenas a permanência de Roger Machado, mas também a força real dessa nova configuração de poder entre organizadas e diretoria.
O São Paulo de 2024 vive, portanto, sob uma nova realidade política interna, onde as torcidas organizadas assumiram papel de protagonistas nas decisões administrativas. O próximo capítulo dessa história será escrito em campo, mas com a certeza de que os bastidores do futebol tricolor jamais voltarão a ser os mesmos dos tempos pré-2020.









