Na terça-feira, 6 de maio, diante de executivos e investidores reunidos na Conferência Global do Milken Institute, em Los Angeles, Gianni Infantino prometeu levar pessoalmente um cachorro-quente e uma Coca-Cola para qualquer pessoa que pague US$ 2 milhões por um ingresso da final da Copa do Mundo. A piada arrancou risos. A plateia era o público certo para apreciá-la. Quem não estava na sala — e nunca estará no MetLife Stadium em 19 de julho — foi o assunto que ficou sem resposta.
O que Infantino disse e o que os números revelam
A declaração do presidente da Fifa não foi apenas uma boutade diplomática. Ela foi a síntese de uma posição institucional: o mercado americano dita as regras, e a Copa do Mundo vai seguir esse ritmo.
"Estamos em um mercado em que o entretenimento é o mais desenvolvido do mundo, portanto, temos que aplicar as taxas de mercado", afirmou Infantino.A frase é reveladora porque elimina qualquer distinção entre a Copa do Mundo — evento de interesse público global, financiado por direitos televisivos negociados com emissoras de dezenas de países — e um show do Taylor Swift ou um jogo dos Lakers.
Os preços oficiais para a final em Nova Jersey variam de US$ 2.030 a US$ 6.370. Na final de 2022, em Doha, os ingressos custavam entre US$ 206 e US$ 1.607. A variação entre as edições é de 898% na categoria mais acessível e de 296% no topo da tabela. Não existe taxa de inflação que justifique essa curva. Infantino tentou contextualizar o dado citando que 25% dos ingressos para a fase de grupos estão disponíveis por menos de US$ 300 — mas omitiu que essa categoria é numericamente residual frente às 500 milhões de solicitações recebidas pela entidade.
O número de 500 milhões de pedidos, aliás, foi evocado pela Fifa como prova de vitalidade do torneio. É, de fato, um indicador extraordinário de demanda. Mas é exatamente o tipo de dado que, em qualquer análise econômica séria, justifica tanto o argumento da Fifa quanto o de seus críticos: quando a demanda é estratosfericamente superior à oferta, a escolha de precificação é uma decisão política, não apenas de mercado.
As vozes que Infantino não ouvia em Los Angeles
Enquanto o presidente da Fifa discursava para investidores, dezenas de parlamentares dos Estados Unidos — o país anfitrião — já haviam enviado apelos formais à entidade pedindo revisão nos preços. A pressão política americana não é irrelevante: o governo federal dos EUA contribuiu diretamente com infraestrutura, segurança e logística para viabilizar o torneio em 16 cidades. Que representantes eleitos da nação anfitriã precisem escrever cartas implorando preços acessíveis é um dado político de primeira ordem.
A resposta da Fifa a essa pressão foi o lançamento de um número limitado de ingressos a US$ 60, nos cantos superiores dos estádios. A iniciativa foi apresentada como concessão social. Na avaliação do SportNavo, trata-se de uma medida simbólica: sem divulgação do volume total disponibilizado nessa faixa, o anúncio funciona mais como gestão de imagem do que como política de acesso.
"Se você vende ingressos a um preço muito baixo, esses ingressos seriam revendidos a um preço muito mais alto", argumentou Infantino, ao justificar por que a Fifa não reduziu os valores oficiais.
O raciocínio tem coerência interna num mercado desregulado. Mas revela a recusa da entidade em construir mecanismos de controle mais sofisticados — como os sistemas de ingresso nominal com verificação de identidade adotados pela Premier League, pela Bundesliga e em grandes eventos europeus. A Fifa administra o maior evento esportivo do planeta e não encontrou solução estrutural para o problema da especulação que ela própria diagnostica.
A Copa como produto e o futebol como direito
A tensão que Infantino personifica em Los Angeles não é nova, mas ganhou em 2026 uma dimensão qualitativa diferente. A Copa do Mundo sempre foi um produto comercial — as receitas de direitos televisivos para o ciclo 2026 superam US$ 4 bilhões, segundo estimativas do setor. O que muda é a velocidade com que o discurso institucional da Fifa abandona qualquer verniz de missão social para adotar abertamente a linguagem do entretenimento premium americano.
Há uma dimensão sociológica nessa transição que merece atenção. O futebol se constituiu historicamente como esporte de massas justamente porque o custo de acesso — seja ao jogo ao vivo, seja às transmissões — era relativamente democrático. A Copa do Mundo, em particular, sempre funcionou como um evento de coesão social transnacional, assistido simultaneamente por bilionários e trabalhadores de baixa renda em dezenas de países. Quando o ingresso da final se torna um produto para quem pode pagar US$ 2 milhões — mesmo que no mercado secundário —, a narrativa de pertencimento global começa a se fraturar.
Infantino reconhece o problema e o resolve retoricamente: os US$ 2 milhões são do mercado secundário, portanto não são responsabilidade da Fifa. A distinção jurídica existe. A distinção política, não. A entidade que arrecada bilhões com os direitos do torneio não pode se eximir da responsabilidade sobre o ecossistema de acesso que sua precificação original cria.
A final está marcada para 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey, com capacidade para 82 mil pessoas. Naquele dia, Infantino estará presente. O cachorro-quente, provavelmente, também.








