Uma seleção pode jogar uma Copa do Mundo para perder e ainda assim avançar de fase. Esse paradoxo, que soaria absurdo na lógica clássica do torneio eliminatório, tornou-se realidade concreta neste sábado (27) para Inglaterra, Gana e Portugal — as três equipes que entraram em campo na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 com a classificação matematicamente assegurada, independentemente do resultado.
A regra que mudou a aritmética da Copa do Mundo 2026
Para entender o que está acontecendo neste sábado, é preciso recuar até a Copa do Mundo de 1986, no México — o único precedente histórico direto. Naquela edição, a Fifa também adotou o critério dos melhores terceiros colocados para preencher vagas no mata-mata, quando o torneio tinha 24 seleções divididas em seis grupos. O mecanismo gerou distorções parecidas: equipes entraram na última rodada sem necessidade de vencer, o que alimentou suspeitas de conluio, culminando no infame jogo entre Alemanha Ocidental e Áustria — o chamado "Pacto de Gijón", embora esse episódio tenha ocorrido em 1982. A Fifa prometeu que o formato ampliado de 2026, com 48 seleções e 12 grupos de quatro times, resolveria o problema. Não resolveu. Apenas o transferiu para outra escala.
No novo modelo desta edição, os dois primeiros colocados de cada grupo avançam automaticamente. Os oito melhores terceiros colocados entre os 12 grupos também se classificam. O critério de desempate segue pontuação, saldo de gols, gols marcados e, se necessário, disciplina e ranking da Fifa. Com quatro pontos acumulados em duas rodadas — resultado de uma vitória e um empate —, Inglaterra, Gana e Portugal já superavam todos os terceiros colocados com três pontos que haviam encerrado sua participação na fase de grupos.

Os quatro pontos que garantiram a vaga antes do apito inicial
A trajetória das três seleções até essa posição confortável tem lógicas distintas. Inglaterra e Gana, que dividem o Grupo L com quatro pontos cada, chegaram ao mesmo resultado por caminhos opostos: os ingleses venceram na estreia e empataram no segundo jogo — justamente o duelo entre as duas seleções. Os ganeses fizeram o mesmo, mas na ordem inversa. O empate entre elas, portanto, foi o ponto de equilíbrio que beneficiou ambas simultaneamente.
Portugal, no Grupo K, construiu sua segurança de forma mais contundente. Após um empate por 1 a 1 com a RD Congo na estreia, a seleção portuguesa goleou o Uzbequistão por 5 a 0 na segunda rodada, acumulando quatro pontos e uma diferença de gols que, segundo dados compilados pelo SportNavo, seria suficiente para superar qualquer terceiro colocado com três pontos mesmo em cenários de derrota na última partida.
Para dimensionar o que separa quatro pontos de três pontos neste formato: a diferença entre estar garantido e estar na corda bamba é, numericamente, equivalente à distância entre Recife e Fortaleza — apenas 800 quilômetros no mapa, mas um abismo intransponível quando o adversário não tem como recuperar o terreno perdido.
O custo político de jogar sem risco
A crítica estrutural ao novo formato não é nova, mas ganhou corpo neste sábado. Quando uma seleção entra em campo sabendo que pode perder e ainda avançar, o incentivo competitivo se deforma. A Inglaterra enfrenta o Panamá — já eliminado, sem pontuação — sem qualquer pressão de resultado. Portugal joga contra a Colômbia, que lidera o Grupo K com seis pontos e também não precisa de vitória para classificar. O jogo entre as duas equipes, que poderia ser o duelo mais eletrizante da rodada, torna-se uma negociação silenciosa de riscos.
"Mesmo com uma derrota, os colombianos passam de fase, no mínimo, na segunda posição", registrou análise publicada pelo Lance!, reforçando que o confronto Colômbia x Portugal é, na prática, um jogo em que nenhum dos dois lados tem obrigação de ganhar.
Essa lógica perversa já aparecia nos cálculos de Senegal, Irã e Coreia do Sul — seleções que encerraram sua participação com três pontos e agora dependem dos resultados deste sábado para saber se avançam ou são eliminadas. São equipes que jogaram suas três partidas com tudo, e podem ser ultrapassadas na tabela por times que optaram pelo gerenciamento de risco na última rodada.
O mata-mata que começa torto
A fase eliminatória da Copa do Mundo de 2026 terá 32 seleções. Entre elas, ao menos três — Inglaterra, Gana e Portugal — chegam com o benefício de terem administrado a última rodada sem exposição ao risco de eliminação. Isso tem consequências táticas e físicas mensuráveis: menor desgaste, possibilidade de poupar titulares, liberdade para testar variações de esquema.
A Croácia, que enfrenta Gana neste sábado com três pontos e obrigação de vencer para avançar, exemplifica o outro lado da equação. Se os croatas perderem, são eliminados. Se vencerem, superam os ganeses na tabela do Grupo L e avançam como segundos colocados — enquanto Gana cai para terceiro, mas ainda classificada. O mesmo grupo, portanto, pode produzir dois classificados de um jogo em que um dos lados não precisava ganhar.
"No caso dos ingleses e ganeses, as equipes venceram na primeira rodada e empataram no segundo jogo, disputado entre eles", conforme apurado pelo Lance!, o que explica a simetria de quatro pontos que colocou as duas seleções em posição idêntica antes da última rodada.
A Fifa defende o novo modelo argumentando que ele amplia a representatividade geográfica do torneio e reduz o número de jogos sem sentido competitivo nas últimas rodadas. Os dados desta fase de grupos, contudo, apontam na direção contrária: o aumento do número de grupos pequenos multiplicou os casos em que terceiros colocados com pontuação baixa podem avançar, e criou uma zona cinzenta em que quatro pontos — obtidos com uma vitória e um empate — são suficientes para garantir vaga antes mesmo da última partida.
Os 16 avos de final da Copa do Mundo de 2026 começam com um dado estrutural incontornável: três das 32 seleções classificadas entraram na fase decisiva sem jamais ter sido obrigadas a vencer quando o resultado já não importava.










