Diz-se que um time de Pezzolano precisa dominar a bola para vencer. Na tarde deste domingo (3), no Beira-Rio, o Internacional mostrou que não — e o motivo importa mais do que o placar de 2 a 0 sobre o Fluminense.
A cena
O Beira-Rio guardou uma atmosfera tensa até o apito final. O Inter precisava dos três pontos para sair da zona de rebaixamento do Brasileirão, e o adversário não era qualquer um: o Fluminense chegou a Porto Alegre com a vice-liderança ao alcance.
Não chegou. Os dois gols colorados — o primeiro ainda no primeiro tempo, o segundo logo no início da etapa complementar — foram suficientes para liquidar uma equipe tricolor que, nas palavras do próprio técnico Luís Zubeldía, mostrou-se "vulnerável". O Fluminense criou chances, mas não converteu. O Inter criou menos e converteu o que teve. Com 17 pontos em 14 rodadas, o Colorado ocupa agora a 12ª colocação.
"As situações concretas que temos não viram gol e as que teve o Internacional, a primeira no primeiro tempo e a primeira no segundo, concretizaram. Ante a isso, é difícil reverter", admitiu Zubeldía após o apito final.
O contexto que explica
A transformação do Inter em equipe reativa não é acidental — é uma escolha consciente de Pezzolano diante das circunstâncias do clube em 2026. O próprio treinador uruguaio foi explícito ao descrever a identidade que vem construindo semana a semana.
"Time combativo. 11 atacam, 11 defendem. Taticamente, muito aplicado. Tivemos, principalmente, a paciência que não tínhamos antes sem a bola. Não vamos criar 30 ocasiões de gols por jogo. Vamos seguir entregando coisas melhores. O Internacional está acima do gosto do treinador", filosofou Pezzolano.
A frase final dessa declaração carrega um peso específico: ao dizer que "o Internacional está acima do gosto do treinador", Pezzolano reconhece que o futebol da equipe é funcional, não estético. O técnico preferiria, presumivelmente, propor mais com a bola. O plantel disponível — e um clube que, nas palavras dele, "passa por obras" e terá que "recorrer à base" — impõe outra lógica.
A análise do SportNavo ao longo das últimas rodadas identificou exatamente esse padrão: o Inter reduziu sua exposição defensiva ao abrir mão da posse, posicionando linhas mais compactas e apostando na transição rápida. Contra o Fluminense, essa estratégia funcionou com precisão cirúrgica, explorando os espaços deixados pela linha alta tricolor — fragilidade que o próprio Zubeldía reconheceu ao citar que o rival "atacou bem o espaço".
Zubeldía tentou ajustes táticos durante o jogo, incluindo uma troca de sistema que recolocou o venezuelano Savarino em campo na segunda etapa. A mudança, porém, chegou tarde demais. O Fluminense, que vinha bem no Brasileirão antes desta rodada, acumulou o segundo revés seguido e viu escapar a chance de alcançar a segunda posição.
As implicações imediatas
Sair do Z4 na 14ª rodada não resolve o Brasileirão do Inter, mas muda a psicologia do grupo em um momento delicado.

Pezzolano foi claro ao contextualizar o momento do clube: "2026 é ano de reconstrução. Vai ser difícil. O clube passa por obras. Teremos que recorrer à base. Mas vamos passar por isso e, depois, pensar em coisas maiores". O discurso é de sobrevivência qualificada — vencer sem comprometer o processo.
Do outro lado, o Fluminense carrega o peso de um calendário implacável. Sem tempo para lamentações, a equipe de Zubeldía viaja à Argentina nesta quarta-feira (6) para enfrentar o Independiente Rivadavia pela Copa Libertadores. No sábado seguinte, o Tricolor volta ao Maracanã para um confronto direto no Brasileirão contra o Vitória — partida que pode aprofundar ou amenizar a crise de resultados.
Para o Inter, o próximo capítulo se escreve no Couto Pereira, em Curitiba, no sábado (9), diante do Coritiba. Uma sequência de resultados positivos nesse período pode consolidar o Colorado no meio da tabela e transformar a identidade reativa descrita por Pezzolano em algo além de estratégia emergencial — em método.
Diz-se que um time de Pezzolano precisa dominar a bola para vencer. Na tarde deste domingo, o Internacional mostrou que não — e o motivo permanece.









