Com vistos válidos na mão e destino marcado para Vancouver, a delegação da federação de futebol do Irã chegou ao aeroporto internacional de Toronto na terça-feira, 29 de abril, e foi mandada de volta à Turquia no primeiro voo disponível. O grupo — que incluía o presidente da federação, Mehdi Taj, o secretário-geral Hedayat Mombeni e o vice-secretário Hamed Momeni — deve perder o Congresso da Fifa programado para quinta-feira, evento que reúne representantes das 211 associações-membro da entidade na véspera da Copa do Mundo de 2026.

Quem estava na delegação e o nó diplomático

O nome central do episódio é Mehdi Taj, presidente da federação iraniana que acumula um histórico como ex-integrante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês). A presença de Taj no grupo foi o gatilho para a decisão das autoridades canadenses. O governo do Canadá respondeu ao caso com uma nota oficial objetiva:

"Embora não possamos comentar sobre casos individuais devido à legislação de privacidade, o governo tem sido claro e consistente: oficiais do IRGC são inadmissíveis no Canadá e não têm lugar em nosso país", afirmou o governo canadense em comunicado.

Ottawa classificou o IRGC como organização terrorista em 2023, medida que cria, na prática, uma barreira legal de admissão para qualquer indivíduo com vínculos à guarda. A federação iraniana, por sua vez, divulgou nota pela Agência de Notícias Tasnim — veículo semi-oficial do país — descrevendo a abordagem na imigração como inaceitável.

Quem estava na delegação e o nó diplomático Irã barrado no Canadá perde reunião
Quem estava na delegação e o nó diplomático Irã barrado no Canadá perde reunião
"Eles foram obrigados a retornar à Turquia no primeiro voo disponível devido ao comportamento inaceitável dos funcionários da imigração no aeroporto e ao insulto a um dos órgãos mais honrados das Forças Armadas da nação iraniana", diz o comunicado da federação iraniana.

Copa do Mundo 2026 e o labirinto de vistos

O imbróglio de Toronto não é um acidente isolado: é o sintoma mais visível de um problema estrutural que a Fifa ainda não resolveu para o Mundial de 2026. O torneio será realizado em três países — Canadá, Estados Unidos e México —, e o Irã já se classificou para a competição. Mas garantir a vaga em campo não elimina os obstáculos de deslocamento, vistos e segurança que uma delegação iraniana enfrentará ao longo do torneio.

A análise do SportNavo mostra que o caso iraniano é o mais diplomaticamente complexo na agenda da Fifa desde o início do conflito militar entre Estados Unidos, Israel e Irã, deflagrado em fevereiro. Nesse contexto, o Congresso de Vancouver era uma oportunidade estratégica para a federação iraniana discutir exatamente essas questões logísticas com a entidade máxima do futebol — e o episódio no aeroporto de Toronto pode ter custado justamente esse espaço de negociação.

Historicamente, a Fifa garante em seus contratos-sede que todas as seleções classificadas terão acesso irrestrito ao país anfitrião. O Brasil, por exemplo, enfrentou uma discussão semelhante em 2014 quando a FIFA precisou negociar garantias de entrada para delegações de países com relações diplomáticas tensas com Brasília. No caso de 2026, a complexidade é multiplicada: são três jurisdições soberanas com políticas de imigração distintas.

O que muda para o Irã daqui para frente

Com o Congresso da Fifa marcado para esta quinta-feira em Vancouver — ao qual a delegação iraniana provavelmente não chegará a tempo —, a federação do país perde acesso a reuniões bilaterais e à mesa de discussão sobre protocolos da Copa. A Fifa ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso até o fechamento desta reportagem.

Conforme apuração do SportNavo junto a fontes ligadas ao futebol internacional, a tendência é que a entidade peça garantias formais ao governo canadense sobre o acesso da delegação iraniana durante o Mundial, que começa em junho de 2026. O prazo para resolver essa equação é curto: as seleções classificadas precisam de segurança jurídica sobre vistos e movimentação pelo menos 12 meses antes do torneio, o que significa que as negociações precisam avançar ainda em 2025. O próximo passo prático é uma reunião entre a Fifa e os três países-sede para estabelecer protocolos específicos de acesso — e o caso de Toronto já entrou formalmente nessa pauta.