No 76º Congresso Anual da Fifa, realizado em Vancouver, no Canadá, o presidente Gianni Infantino encerrou formalmente as especulações: o Irã jogará seus três partidas da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026 em território norte-americano. O anúncio veio carregado de simbolismo e de risco real — porque Estados Unidos e Irã acumulam mais de quatro décadas de hostilidade diplomática, desde a Revolução Islâmica de 1979 e a crise dos reféns da embaixada americana em Teerã.

A declaração de Infantino e a ausência iraniana em Vancouver

O discurso de Infantino teve tom quase messiânico. Diante de 211 delegações reunidas no congresso — com a notável ausência de representantes iranianos —, o dirigente suíço-italiano pregou união como única resposta possível às tensões políticas.

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"É claro que o Irã jogará nos Estados Unidos. E o motivo é muito simples: precisamos nos unir e nos conectar com as pessoas. A Fifa une o mundo. Devemos sempre nos lembrar de ser positivos", declarou Infantino.

A ausência da delegação iraniana no próprio congresso que confirmou sua participação no torneio diz muito sobre a complexidade do momento. Infantino foi além e convocou o futebol como instrumento de pacificação global:

"Precisamos mostrar que estamos felizes. Já existem problemas suficientes no mundo. Se ninguém tentar nos unir, o que será do nosso mundo? Temos o poder e a magia de estarmos unidos, porque unidos somos invencíveis."

O problema é que discursos inspiradores não blindam jogadores de ameaças concretas, e a história das Copas do Mundo registra situações em que a tensão geopolítica extrapolou os limites dos estádios.

Histórico iraniano em Copas e o peso da pressão externa

O Irã é uma presença regular — mas discreta — nas Copas do Mundo. Sua estreia foi em 1978, na Argentina, quando a seleção persa perdeu para os Países Baixos por 3 a 0 e para o Peru por 4 a 1, encerrando a participação ainda na fase de grupos. O único triunfo naquela edição foi sobre os Estados Unidos, por 1 a 0 — partida que ganhou conotação política imediata, realizada apenas um ano antes da Revolução Islâmica.

Em 1998, na França, o confronto Irã x EUA na fase de grupos tornou-se um dos jogos mais politicamente carregados da história das Copas. O Irã venceu por 2 a 1, com gols de Estili e Mahdavikia, numa partida precedida por gestos de conciliação entre as delegações — mas que acontecia enquanto os dois países não mantinham relações diplomáticas formais, situação que persiste até hoje. Nas últimas três edições do torneio — 2014 (Brasil), 2018 (Rússia) e 2022 (Catar) —, o Irã foi eliminado na fase de grupos nas três ocasiões, somando apenas 1 vitória, 2 empates e 6 derrotas no período.

A análise do SportNavo mostra que, historicamente, quando o Irã joga sob pressão política máxima, o desempenho dentro de campo tende a ser secundário no noticiário global — o que prejudica os próprios atletas, transformados em peças de um tabuleiro diplomático que não escolheram.

Trump, segurança e a tentativa frustrada de jogar no México

O presidente Donald Trump, apesar de declarar que os iranianos são formalmente bem-vindos aos Estados Unidos, afirmou publicamente que não recomendaria a viagem da seleção ao país, citando preocupações com a segurança dos jogadores. A declaração de um chefe de Estado sobre atletas de outra nação é, por si só, uma anomalia diplomática sem precedentes recentes na história das Copas.

A declaração de Infantino e a ausência iraniana em Vancouver Irã nos EUA pela Co
A declaração de Infantino e a ausência iraniana em Vancouver Irã nos EUA pela Co

Diante desse cenário, a federação iraniana chegou a articular a transferência de seus três jogos da fase de grupos para o México — uma das três nações-sede do torneio, ao lado de Canadá e Estados Unidos. A tentativa não prosperou. O sorteio dos grupos colocou o Irã no Grupo G, com os seguintes confrontos definidos: Nova Zelândia (15 de junho, em Inglewood, Califórnia), Bélgica (21 de junho, também em Inglewood) e Egito (27 de junho, em Seattle, no estado de Washington). Todos os três jogos, portanto, em solo americano.

Seattle e Los Angeles — cidade à qual Inglewood pertence metropolitanamente — possuem comunidades iranianas relevantes, o que pode gerar tanto apoio quanto manifestações. A Califórnia abriga a maior diáspora iraniana fora do Oriente Médio, estimada em mais de 500 mil pessoas, concentradas especialmente na região de Los Angeles, apelidada informalmente de "Tehrangeles".

O futebol como diplomacia — limites reais de um discurso bonito

A Fifa invoca com frequência o poder transformador do esporte, e há casos históricos que sustentam parcialmente essa narrativa. A chamada "diplomacia do pingue-pongue" entre EUA e China, em 1971, abriu caminho para o reconhecimento diplomático entre as duas potências. O jogo entre Irã e EUA na Copa de 1998, em Lyon, foi precedido por um gesto inédito: os jogadores americanos presentearam os iranianos com flores brancas antes do apito inicial.

Mas o futebol também já foi palco de tragédias geradas por tensões nacionais. A "Guerra do Futebol" entre El Salvador e Honduras, em 1969, eclodiu após uma série de eliminatórias da Copa do Mundo — três partidas que funcionaram como detonador para um conflito armado que durou 100 horas e deixou cerca de 3 mil mortos. O esporte não foi causa, mas foi o gatilho.

A questão operacional é objetiva: garantir segurança para uma delegação iraniana em território americano em 2026 exigirá um aparato logístico sem precedentes em Copas do Mundo. A Secret Service, o FBI e o Departamento de Estado precisarão coordenar protocolos que vão desde o controle de acesso nos estádios até a rota de deslocamento entre hotéis e centros de treinamento — tudo isso num contexto em que o próprio presidente do país-sede expressou ressalvas públicas sobre a presença dos iranianos.

O Irã estreia no dia 15 de junho contra a Nova Zelândia, no SoFi Stadium, em Inglewood — o mesmo estádio que receberá a final da Copa do Mundo de 2026 no dia 19 de julho. Se chegar até lá, será porque muita coisa precisará funcionar além dos 90 minutos de jogo.