A última vez que um brasileiro havia conquistado dois ouros numa mesma etapa da Copa do Mundo de canoagem e paracanoagem, Isaquias Queiroz ainda não tinha os cinco anéis olímpicos no currículo. Neste sábado (16), no canal de regatas de Brandemburgo, na Alemanha, ele não apenas repetiu o feito — reescreveu a narrativa da semana anterior com uma precisão que só atletas de elite conseguem executar sob pressão de ranking olímpico.
Isaquias inverte o placar e afunda Ji Bowen no canal alemão
Sete dias antes, em Szeged, na Hungria, o chinês Ji Bowen havia cruzado a linha em primeiro no C1 500m, relegando Isaquias à prata. Em Brandemburgo, a resposta veio em forma de cronômetro: 1min52s55 — exatos 10 centésimos à frente do rival asiático, que desta vez ficou com a prata. A margem pode parecer irrisória, mas no universo da canoagem de velocidade equivale a quase um comprimento de embarcação; é a diferença entre dominar e perseguir.
Copa do Mundo de canoagem com Isaquias no pódio já é rotina — cinco medalhas olímpicas, sendo uma dourada, confirmam isso. O que tornou Brandemburgo especial foi a dobradinha: Gabriel Assunção, baiano de apenas 20 anos, chegou em terceiro com 1min54s60, garantindo que o hino brasileiro soasse no pódio do C1 500m com dois protagonistas de gerações diferentes. Para efeito de comparação, a diferença de tempo entre Isaquias e Gabriel — 2s05 — é menor do que o gap que separou o brasileiro do pódio em sua estreia olímpica, em 2016, no Rio. A evolução do jovem baiano compressa anos de desenvolvimento em meses.
"A temporada de 2026 já conta pontos para o ranking olímpico, e os atletas estão de olho nos Jogos de Los Angeles 2028", destacou a cobertura oficial da competição, sinalizando o peso estratégico de cada batida de remo nesta etapa alemã.
Fernando Rufino e o ouro que chegou com mais de um segundo de folga
Fernando Rufino — o Cowboy de Aço, bicampeão paralímpico que perdeu parte dos movimentos das pernas depois de ser atropelado por um ônibus — completou o dia histórico do Brasil com um ouro na paracanoagem. Nos 200m da classe VL2, o sul-mato-grossense de 40 anos registrou 53s44, vencendo com mais de 1 segundo de vantagem sobre o ucraniano Andrii Kryvchun, prata, e o britânico Edward Clifton, bronze. Quando um atleta vence com essa margem numa prova de apenas 200 metros — distância que os melhores completam em menos de 55 segundos — a superioridade não é tática, é física e técnica ao mesmo tempo.
"Rufino concluiu os 200m de sua prova em 53s44, com mais de 1 segundo de vantagem para o ucraniano", registrou a Agência Brasil, número que no contexto da paracanoagem de elite representa uma janela raramente vista em finais de Copa do Mundo.
O SportNavo acompanha de perto a campanha brasileira nesta temporada justamente porque cada pódio acumula pontos no ranking olímpico — sistema que definirá as vagas para Los Angeles 2028. Com dois ouros e um bronze no C1 500m em apenas duas etapas, o Brasil já aparece como força dominante na modalidade.
O que Brandemburgo significa para Los Angeles 2028
Isaquias completará 34 anos antes dos Jogos de Los Angeles — idade em que poucos canoístas ainda competem no topo mundial. A referência histórica que calibra a expectativa: o húngaro Ákos Verhoczki venceu etapas de Copa do Mundo de C1 com 36 anos, mas nunca havia chegado a Los Angeles com o acúmulo de pontos que Isaquias projeta agora. O baiano, que na sexta-feira (15) havia terminado em oitavo no C1 1000m — prova na qual conquistou quatro de suas cinco medalhas olímpicas —, mostrou que a estratégia de temporada privilegia os 500m como carro-chefe do ciclo olímpico.
Gabriel Assunção, por sua vez, entra no radar como candidato real a vaga olímpica individual — não apenas como parceiro de dupla. Com 20 anos e um bronze numa etapa de Copa do Mundo em que derrotou atletas de seleções consolidadas, o jovem baiano acumula pontos de ranking que podem colocá-lo em Los Angeles como protagonista, não coadjuvante. A próxima etapa da Copa do Mundo de canoagem está confirmada para Montreal, no Canadá, entre os dias 9 e 12 de julho, quando Isaquias e Gabriel voltam à água com a tabela de pontuação olímpica ainda mais apertada.









