O chão do RAC Arena ainda vibrava quando Carlos Prates olhou para a câmera e disse três palavras que ninguém no UFC conseguiu rebater com dados: "I should be next." Não foi arrogância. Foi aritmética. O brasileiro nocauteou Jack Della Maddalena no terceiro round neste sábado, 2 de maio, somando sete nocautes em oito lutas no UFC — com sete bônus de performance conquistados em sequência. Nenhum lutador ativo na organização tem esse índice de finalização combinado com esse nível de adversários eliminados.
Hoje: o que já é fato
Dois ex-campeões. Dois nocautes. Nenhum outro meio-médio no ranking do UFC fez isso recentemente. Prates destruiu Leon Edwards e, na sequência, desmontou Della Maddalena com uma aula de muay thai que incluiu três knockdowns no terceiro round antes do TKO definitivo. O UFC pagou US$ 100 mil de bônus — cerca de R$ 500 mil na cotação atual — como reconhecimento de uma performance que foi além da vitória.
"Nobody beats two former champs on that really good way. They never do by knockout and then I come there and make it look easy", declarou Prates na coletiva pós-luta em Perth.
Quem argumenta que Prates ainda não provou o suficiente precisa explicar qual sequência de vitórias seria mais convincente. No ranking dos meio-médios, Edwards e Della Maddalena figuram entre os cinco melhores do planeta. Prates passou por ambos sem precisar de decisão dos juízes. A análise do SportNavo sobre o histórico recente da divisão não encontra precedente similar nos últimos quatro anos.
Esta semana: o que se desdobra
O UFC ainda não anunciou o próximo desafiante de Islam Makhachev nos meio-médios. O campeão russo aguarda o vencedor da luta contra Ian Machado Garry — o único homem que derrotou Prates dentro do octógono. O brasileiro já havia revelado em abril ter um "plano" envolvendo Garry: o irlandês venceria Makhachev, e então a revanche aconteceria no Brasil. A variável mudou. Prates agora diz estar disposto a enfrentar diretamente o russo.
"I'm not scared about takedowns. I'm not scared. I'm BJJ black belt", afirmou Prates ao ser questionado sobre a capacidade de Makhachev no grappling.
O argumento mais repetido contra Prates é que Makhachev o dominaria no chão. É um ponto legítimo — o russo tem um dos grapplings mais sofisticados do MMA moderno. Mas há um dado que enfraquece essa narrativa: contra Della Maddalena, quando o australiano tentou derrubá-lo no primeiro round, Prates defendeu com tranquilidade e manteve o controle de pé. A queda que aconteceu no final do round foi nos segundos finais, sem consequência real. Faixa preta em BJJ não é credencial decorativa — é fundamento técnico mensurável.
O contraponto real não é o grappling de Prates. É a diferença de nível entre derrubar um Della Maddalena cansado e resistir ao controle de Makhachev por 25 minutos. Esse é o argumento honesto. E ele merece resposta dentro do octógono, não fora dele.
Próximas 4 semanas: o que vai mudar
O UFC tem um prazo implícito para resolver a fila do cinturão meio-médio. Makhachev não pode ficar inativo indefinidamente, e Prates — com sete bônus consecutivos e duas vitórias sobre ex-campeões em sequência — criou pressão comercial real sobre a organização. Recusar a luta agora seria negar ao público exatamente o confronto de estilos que o esporte pede: o nocauteador mais eficiente da divisão contra o campeão mais completo tecnicamente.
A decisão do UFC nas próximas semanas vai definir se Prates enfrenta Makhachev diretamente ou aguarda o resultado da luta com Garry. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum lutador com sequência comparável de vitórias sobre ex-campeões esperou mais de dois combates para receber uma oportunidade pelo cinturão nos últimos cinco anos na organização. Prates já cumpriu esse requisito.
O desafio não é impossível. É o mais difícil do mundo — e é exatamente por isso que precisa acontecer. Um nocauteador com sete bônus em sequência, faixa preta em BJJ e duas vitórias sobre ex-campeões não encontra obstáculo mais legítimo do que o melhor lutador do planeta na divisão. Recusar esse confronto seria como construir uma catedral e deixar o altar vazio: toda a estrutura foi erguida para um momento específico, e ignorá-lo torna o esforço anterior sem sentido.








