O relógio parou em 2014 para as duas seleções que se enfrentam no Estádio Bilino Polje, em Zenica, no dia 31 de março. Doze anos. Três ciclos de eliminatórias. Duas histórias de fracasso que chegam ao mesmo ponto de virada — um único jogo de 90 minutos para decidir quem vai à Copa do Mundo.

De um lado, a Itália de Gennaro Gattuso, tetracampeã mundial que já perdeu vagas para Suécia e Macedônia do Norte em edições anteriores. Do outro, a Bósnia e Herzegovina, que fez sua única aparição num Mundial justamente naquele 2014 no Brasil — e nunca mais voltou.

O que os números dizem sobre a Itália de Gattuso Itália e Bósnia chegam ao Bilin
O que os números dizem sobre a Itália de Gattuso Itália e Bósnia chegam ao Bilin

O que os números dizem sobre a Itália de Gattuso

Desde que assumiu o comando após a demissão de Luciano Spalletti em setembro passado, Gattuso transformou o setor ofensivo da Azzurra. A média superou dois gols por jogo — dado que contrasta brutalmente com o time apático das eliminatórias anteriores.

Mas os dados defensivos preocupam. Duas derrotas por três gols de diferença para a Noruega no Grupo I revelam uma vulnerabilidade estrutural que qualquer analista de dados consegue enxergar nas métricas de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — quanto menor o número, mais agressiva e eficiente é a pressão do time. Times que sofrem três gols em jogos isolados costumam ter PPDA defensivo acima de 11 em fases de transição, indicando blocos baixos que se expõem ao contra-ataque.

  • xG concedido: a Itália apresentou vulnerabilidade nas linhas de passe entre o meio e a defesa — o tipo de espaço que Edin Džeko passa a carreira inteira explorando
  • Progressive passes: Sandro Tonali lidera a equipe nessa métrica, com média de 8,3 passes progressivos por 90 minutos — ele é o motor de construção dos Azzurri
  • Defensive actions: a zaga italiana registrou queda de 14% nas ações defensivas bem-sucedidas nos últimos três jogos, sinal de fadiga ou desorganização posicional

Contra a Irlanda do Norte, na semifinal disputada em Bergamo, o primeiro tempo foi tenso e sem soluções. Os gols de Tonali e Moise Kean só saíram na etapa final, quando o espaço abriu. Gattuso sabe que a Bósnia não vai abrir tanto espaço assim.

"Depois de dificuldades durante um primeiro tempo tenso em Bergamo, a seleção acabou batendo a Irlanda do Norte por 2 a 0" — síntese dos relatos da imprensa italiana sobre a semifinal.

A Bósnia que chegou até aqui com Džeko como símbolo vivo

Džeko empatou a semifinal para a Bósnia. Com mais de 35 anos, o centroavante segue sendo o ponto de referência ofensivo — e isso diz muito sobre a estrutura tática bósnia, que ainda depende de um 9 fixo para organizar o jogo.

O que para o argentino é uma característica de centroavante clássico estilo Batistuta, para o português é o perfil de um "falso 9" fluido estilo Figo — a Bósnia faz questão do primeiro modelo, apoiando Džeko com bolas longas e cruzamentos.

Jogar no Bilino Polje tem peso. A altitude de Zenica e a pressão da torcida local criam um ambiente que métricas de xG (gols esperados) não capturam sozinhas. O xG mede a qualidade das chances criadas a partir da posição e contexto do chute — e times que jogam em casa costumam ter xG 15-20% superior ao registrado fora, simplesmente pela naturalidade com que circulam a bola.

  • xA (expected assists): o meia bósnio Miralem Pjanić — quando em boa forma — gera xA acima de 0,20 por jogo, criando chances de qualidade para Džeko dentro da área
  • Pass network bósnio: concentrado no corredor central, com Džeko como vértice — dificulta a leitura defensiva italiana que tende a cobrir as alas
  • PPDA bósnio: em casa, a equipe pressiona com mais intensidade, reduzindo o PPDA para cerca de 8 — número que sufoca times que dependem de saída de bola limpa como a Itália de Tonali

O peso de uma terceira eliminação seguida para os Azzurri

A Itália perdeu a vaga de 2018 para a Suécia. A de 2022 para a Macedônia do Norte — um resultado que chocou o futebol europeu. Agora, numa terceira repescagem consecutiva, o custo de uma nova eliminação seria, nas palavras da própria imprensa italiana, "quase impensável".

Gattuso carrega no currículo a conquista da Eurocopa adiada de 2021 como jogador, mas agora precisa entregar como técnico o que a geração anterior não conseguiu. O histórico entre as seleções é favorável à Itália — seis dos sete confrontos terminaram com vitória italiana, com a única derrota sendo um amistoso em Sarajevo em 1996, por 2 a 1.

Mas histórico não entra em campo.

A Bósnia que chegou até aqui com Džeko como símbolo vivo Itália e Bósnia chegam
A Bósnia que chegou até aqui com Džeko como símbolo vivo Itália e Bósnia chegam

O que entra é um time italiano que marcou mais de dois gols por jogo na era Gattuso, contra uma Bósnia que joga em casa, tem o Bilino Polje como fortaleza e sabe que uma virada histórica está a 90 minutos de distância. A bola rola em 31 de março, às 15h45 (horário de Brasília), e quem perder encerra mais um ciclo sem Copa do Mundo.