— Você viu o que o Italo fez ontem na Nova Zelândia?
— Vi. Três aéreos na mesma onda. Três.
— Cara, isso não é surfe. Isso é outra coisa.
Era domingo, 24 de maio, e Italo Ferreira acabava de transformar Manu Bay num palco particular. O campeão olímpico venceu a quarta etapa do Circuito Mundial da WSL com placar somado de 17.50 a 15.80 sobre o australiano Morgan Cibilic, carregando para o bolso não apenas o título da etapa, mas a liderança do ranking mundial — território que o potiguar de Baía Formosa conhece bem e que, neste domingo, voltou a ser seu.
O que a nota 9.33 de Italo revelou sobre seu surfe atual
A bateria final começou com Cibilic ditando o ritmo. O australiano abriu 8.90 — número que, em qualquer outra final, seria suficiente para segurar a pressão. Mas Italo respondeu com uma sequência de aéreos que os juízes da WSL pontuaram em 9.33, uma nota que não apenas encerrou a discussão como a proibiu de existir. Três aéreos encadeados na mesma onda: cada manobra um capítulo, cada aterrissagem uma vírgula, o conjunto inteiro uma frase que o oceano Pacífico não esquece tão cedo.
Cibilic, ciente da desvantagem, adotou uma postura mais seletiva — esperava uma onda que rendesse acima de 9 pontos para recuperar a liderança do ranking. A onda não veio. Italo, por sua vez, seguiu buscando o mar com a mesma fome de quem sabe que o placar ainda não está fechado, mesmo quando está. O placar final de 17.50 a 15.80 é elegante na frieza dos números, mas esconde a violência criativa com que o brasileiro construiu cada décimo desse total.
"Quando vi essa etapa entrando no circuito, pensei: 'Essa pode ser a minha'. Tenho surfado muito e me dedicado bastante. Estou há dois meses na estrada, longe do meu filho e da minha esposa, então coloquei toda minha energia nesse evento", disse Italo logo após a vitória.
O caminho até a final não foi linha reta em Raglan
Antes de chegar à final, Italo precisou superar Yago Dora numa semifinal que a própria natureza tentou interromper — literalmente. A bateria foi suspensa após um fotógrafo da WSL ser atacado por um animal marinho, episódio que gerou protocolo de emergência e levou os surfistas para fora d'água. Quando o mar foi liberado novamente, o potiguar mostrou que a pausa não o esfriou: venceu por 15.10 a 13.33. Nas quartas, quem havia dado o tom da rodada foi o próprio Yago, que tirou a primeira nota 10 da temporada — um detalhe que, segundo apuração do SportNavo, reforça o nível técnico absurdo que o Brasil está apresentando neste circuito.
Como diria o ditado, quem não tem cão caça com gato — mas Italo tem o cão, o gato e o instinto de quem sabe exatamente qual onda pegar. Sua preparação com o técnico Leandro Dora tem sido o fio condutor de uma temporada em que cada bateria parece mais afinada que a anterior.
"É muito bom voltar ao topo, mas é um longo ano, uma longa jornada. Estou aprendendo novas formas de colocar meu jogo com o Leandro e espero seguir vencendo baterias e competições", completou o campeão olímpico.
A Brazilian Storm que engole o ranking da WSL em 2026
A vitória de Italo não é um fenômeno isolado — é a ponta mais visível de uma tempestade verde e amarela que assola o circuito mundial. Com o título de Manu Bay, o brasileiro assume a liderança do ranking. Atrás dele, Miguel Pupo ocupa a segunda colocação, Gabriel Medina está no terceiro lugar e Yago Dora fecha o top 4. Quatro brasileiros nas quatro primeiras posições: a Brazilian Storm não é metáfora, é classificação.
Pupo, surfista que construiu sua carreira com consistência cirúrgica, aparece agora num posto que confirma a profundidade do time brasileiro. Medina, terceiro colocado, segue como ameaça permanente — um surfista cujo backhand cruzado corta o ar com precisão milimétrica e que, em qualquer etapa, pode transformar uma bateria comum num match point de título. Yago, mesmo eliminado na semifinal por Italo, sai de Raglan com a nota 10 da temporada e a certeza de que seu surfe está no nível certo para brigar até o fim.
O circuito da WSL ainda tem etapas pela frente, e a liderança de Italo será testada em cada uma delas. A próxima parada do tour masculino coloca os melhores surfistas do mundo novamente frente a frente — e, se a temporada seguir o ritmo que Manu Bay estabeleceu, o Brasil terá ao menos quatro candidatos sérios ao título mundial de 2026.
— Você viu o que o Italo fez ontem na Nova Zelândia?
— Vi. Três aéreos na mesma onda. Três.
— Cara, isso não é surfe. Isso é liderança.










