Qualquer um que acompanhou a passagem de Jorge Sampaoli pelo Marseille entre 2021 e 2022 sabe que o argentino não produz futebol silencioso. O que pouca gente percebeu, enquanto o OM escalava a tabela da Ligue 1, é que o método por trás daquela turbulência era rigoroso demais para ser acaso. Quando o nome de Sampaoli voltou a circular em Rennes no fim de 2024, a reação imediata foi de quem não lembra que esse homem já transformou elencos inteiros na força do pressing alto — e que o fez em três idiomas diferentes.

A decisão que dividiu opiniões

Assumir o Rennes em novembro de 2024, com o clube em posição delicada na Ligue 1, foi a decisão que mais dividiu a imprensa francesa desde que Sampaoli deixou o Sevilla, em março de 2023, com o clube na zona de rebaixamento da La Liga. A pergunta que circulava nos corredores do Parc des Princes ao Vélodrome era direta: por que um técnico de perfil tão intenso aceitaria um projeto de reconstrução tão frágil, num clube sem a musculatura financeira dos grandes da liga?

A resposta, para quem conhece Sampaoli, é quase óbvia. Ele não procura conforto — procura matéria-prima humana que responda ao gegenpressing.

A nomeação gerou ceticismo imediato entre torcedores e analistas bretões. Sua última experiência europeia, no Sevilla, havia terminado de forma abrupta e sem glória. Antes disso, o Flamengo — entre abril e setembro de 2023 — havia sido outra saída prematura, num clube onde a pressão institucional e a gestão de elenco estrelado raramente cabem no mesmo espaço que a intensidade que Sampaoli exige.

O contexto que levou à decisão

Para entender por que Rennes fez sentido — ao menos no papel — é preciso recuar até o ciclo que Sampaoli construiu no Atlético Mineiro entre 2020 e início de 2021. Foi lá, no Brasil, que ele demonstrou com maior nitidez que seu estilo funciona quando há velocidade no elenco e liberdade para pressionar alto desde a saída de bola adversária. O Galo daquele período jogava com uma intensidade que raramente se vê no futebol sul-americano, e o torcedor do Mineirão reconheceu algo próximo do que Jürgen Klopp havia instalado em Liverpool.

No Santos, em 2019, o contexto foi diferente — elenco mais limitado, pressão institucional distinta —, mas o princípio tático era o mesmo: ocupar o campo adversário com linhas altas e transições rápidas. Sampaoli não adapta sua filosofia ao clube; ele adapta o clube à sua filosofia. Essa é a fonte de suas maiores vitórias e de seus maiores conflitos.

Rennes, no fim de 2024, estava num momento de fragilidade que, paradoxalmente, abria espaço para uma intervenção radical. Um clube sem títulos recentes, com elenco jovem e sem a rigidez hierárquica dos grandes, era exatamente o tipo de laboratório onde Sampaoli historicamente encontra margem para trabalhar.

Como o time reagiu na partida seguinte

As primeiras semanas de Sampaoli no comando do Rennes foram descritas por fontes próximas ao clube como de alta intensidade nos treinamentos — característica que qualquer jogador que já passou por suas mãos reconheceria imediatamente. O pressing alto, o posicionamento ofensivo das linhas defensivas e a exigência de participação ativa dos laterais no build-up são elementos que não se instalam da noite para o dia.

O time levou semanas para assimilar o volume de demandas táticas.

A decisão que dividiu opiniões J. Sampaoli e o caos controlado que o Re
A decisão que dividiu opiniões J. Sampaoli e o caos controlado que o Re

Mas a resposta coletiva, ainda que gradual, seguiu o padrão que Sampaoli já havia produzido no Marseille: os jogadores jovens tendem a absorver o método com mais facilidade do que os veteranos acostumados a sistemas mais conservadores. No OM, foi essa geração que levou o clube à fase de grupos da Champions League em 2021/2022 — um feito que a torcida marselhesa não esquece, independentemente do final conturbado da relação.

Como ele defende a decisão hoje

Sampaoli nunca recuou publicamente de suas escolhas táticas, mesmo quando os resultados não vieram. Essa postura — que alguns leem como arrogância e outros como coerência intelectual — é o traço mais consistente de uma carreira que atravessou Argentina, Brasil, Espanha e França sem jamais produzir um futebol anônimo. Seja no Sevilla de 2016/2017, onde chegou com reputação de revolucionário, seja na seleção argentina que foi à Copa de 2018 com um esquema que dividia opiniões, Sampaoli sempre preferiu a exposição ao apagamento.

Na temporada 2025/2026 da Ligue 1, o Rennes sob seu comando carrega essa mesma tensão: um estilo identificável, exigente e, por definição, vulnerável às oscilações de elenco. Os próximos meses dirão se o clube bretão tem fôlego físico e mental para sustentar o que Sampaoli planta — porque o argentino, aos 65 anos, definitivamente não vai mudar de ideia.

Na tarde de uma terça-feira em Rennes, depois de um treino que se estendeu além do horário previsto, Sampaoli foi o último a sair do campo. O assistente esperava na beira da linha. Ele ainda olhava para o gramado.