A última vez que o Estádio Jornalista Edgar Augusto Proença — o Baenão — viu tanta confusão concentrada em um único minuto de jogo foi em 2018, quando Remo e Paysandu protagonizaram o Re-Pa com dois expulsos antes do intervalo. Na tarde deste domingo (24/05/2026), o roteiro se repetiu com requintes ainda mais dramáticos: em uma sequência de eventos que durou pouco mais de 120 segundos no final do primeiro tempo, o Athletico Paranaense arrancou o empate por 1 a 1 diante do Remo, pela 17ª rodada do Brasileirão Série A, ao mesmo tempo em que o placar humano da partida desmoronava com expulsões, cartões amarelos e a intervenção do VAR redesenhando o jogo.

O time mandante entrou pensando em

O Remo entrou em campo com uma agenda clara: usar a altitude emocional do Baenão para construir um resultado que afastasse qualquer fantasma de rebaixamento. O clube paraense acumula investimento crescente em sua folha salarial desde o retorno à Série A, e uma vitória na 17ª rodada teria valor simbólico e financeiro — os bônus de performance atrelados a posições acima do 12º lugar no contrato de ao menos três jogadores do elenco são ativados a partir da metade da tabela.

O plano funcionou durante 31 minutos de maneira quase perfeita. Aos 14', Jajá recebeu lançamento em profundidade de Marcelinho, ajeitou com o peito e bateu cruzado com o pé direito para abrir o placar. Era o tipo de gol que o Remo treinou durante a semana: transição rápida, aproveitar os espaços deixados pela linha defensiva do Athletico quando avança com seus laterais. Marcelinho, que assinou extensão contratual até dezembro de 2027 com cláusula de multa rescisória fixada em R$ 4,2 milhões, foi o arquiteto da jogada — e pagou caro por isso minutos depois.

Com a vantagem no marcador, o Remo recuou taticamente, apostando em linhas compactas de quatro e quatro para proteger o resultado. Funcionou até o limite do suportável — literalmente até o último segundo do primeiro tempo.

O time visitante entrou pensando em

O Athletico Paranaense viajou a Belém carregando uma pressão que vai além dos pontos na tabela. O clube atleticano atravessa uma das janelas de transferências mais delicadas dos últimos três anos: a diretoria da Arena da Baixada negocia a renovação de quatro contratos que vencem em dezembro de 2026, e o desempenho no campo é o principal argumento — ou contra-argumento — em cada reunião com representantes. Perder em Belém significaria entrar na semana de negociações em posição fragilizada.

O Furacão chegou com proposta ofensiva, mas encontrou dificuldades para criar com consistência. Kevin Viveros foi acionado como referência avançada, mas ficou isolado durante boa parte do primeiro tempo. A chegada de Bruno Zapelli como elemento dinâmico pelo meio foi freada ainda aos 28', quando o VAR analisou uma jogada envolvendo o argentino — o lance não resultou em punição imediata, mas colocou Zapelli no radar da arbitragem. O desfecho desse subplot viria minutos depois.

A equipe atleticana precisava de um gatilho. Ele veio de onde menos se esperava: do caos institucionalizado dos acréscimos.

O ponto de inflexão que deu certo para um e não para o outro

O que aconteceu entre os minutos 44 e 46 desta partida merece ser documentado com precisão cirúrgica.

Aos 45', Jajá recebeu o segundo cartão amarelo — transformado em vermelho — após entrada considerada imprudente. Na mesma paragem de jogo, Bruno Zapelli levou o amarelo por reclamação excessiva, e Marcelinho foi punido com cartão amarelo por conduta antiesportiva. O Remo, que havia construído pacientemente seu 1 a 0, entrou nos acréscimos com dez homens e o vestiário emocional completamente abalado.

Foi exatamente nesse vácuo que Kevin Viveros agiu. Recebendo passe de Claudio pelo lado direito da área, o atacante colombiano cortou para o pé esquerdo e bateu colocado, sem chance para o goleiro. O gol do empate saiu aos 45' — no mesmo minuto das três punições disciplinares. Um minuto que destruiu o trabalho de 44.

O Remo ainda tentou reagir, mas as substituições do Athletico no intervalo — Gilberto Júnior Leite dos Santos no lugar de Julimar, Bruno Zapelli (que entrou em campo após a punição) no lugar de Leozinho, e Yago Pikachu substituindo Matheus Alexandre — deram ao time paranaense um segundo tempo com mais energia e organização. O empate se manteve.

A pergunta que fica é inevitável: o que teria sido desta rodada se Jajá tivesse controlado o temperamento nos acréscimos?

O SportNavo mapeou os dados disciplinares do Remo na temporada 2026 e encontrou um padrão preocupante: o clube acumula a terceira maior média de cartões por jogo entre os times da parte de baixo da tabela, com 3,1 punições por partida nas últimas seis rodadas. Não é coincidência — é uma fragilidade estrutural que custa pontos.

O time mandante entrou pensando em Jajá expulso no fim salva ponto do Athle
O time mandante entrou pensando em Jajá expulso no fim salva ponto do Athle

Do lado do Athletico, o empate tem sabor ambíguo. O ponto arrancado em Belém com dez minutos efetivos de pressão é o tipo de resultado que técnicos chamam de "caráter" em entrevista coletiva, mas que a análise fria classifica como aproveitamento abaixo do esperado para um time que precisa somar para se afastar da zona de turbulência na tabela.

O que sobra para cada um daqui

Para o Remo, a conta é amarga. Dois pontos perdidos em casa, um jogador chave suspenso para a próxima rodada — Jajá cumprirá automaticamente pelo segundo amarelo que virou vermelho — e a exposição de uma fragilidade mental que adversários já anotaram. O clube paraense termina a 17ª rodada com uma posição na tabela que ainda permite trabalhar sem pânico, mas a sequência de resultados precisa mudar.

A gestão financeira do clube também merece atenção: o modelo de contratações do Remo para 2026 apostou em jogadores de alto rendimento individual, com bônus de performance que pressionam o caixa em momentos de oscilação. A cláusula de permanência do treinador, válida até o fim de junho com renovação automática em caso de permanência acima do 10º lugar, entra em zona de tensão se o clube não somar nas próximas duas rodadas.

Para o Athletico, o ponto fora de casa mantém a regularidade mínima necessária para as negociações contratuais que dominam os bastidores da Arena da Baixada. Kevin Viveros, cujo contrato termina em julho de 2026 com opção de renovação unilateral do clube por mais 18 meses, entregou o gol mais importante do jogo — e isso pesa em qualquer mesa de negociação.

As duas equipes voltam a campo na 18ª rodada do Brasileirão. Em 31 de maio de 2026 saberemos se o Remo conseguiu transformar o trauma disciplinar desta tarde em combustível — ou se o padrão de instabilidade emocional vai custar mais do que pontos na tabela.