Confesso: quando Kaoru Mitoma começou a acelerar a recuperação nas últimas semanas, cheguei a acreditar que o Brighton liberaria um milagre médico a tempo da Copa do Mundo. Errei. A convocação anunciada pela Federação Japonesa de Futebol nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, não tem o nome do ponta esquerdo, nem o de Takumi Minamino — os dois atacantes que durante anos foram o coração ofensivo dos Samurai Blue. A lista com 26 nomes foi divulgada oficialmente pelo perfil da seleção japonesa no X, confirmando o que a torcida temia desde dezembro passado.
A extensão das perdas que a convocação japonesa carrega
Mitoma sofreu uma lesão muscular na coxa atuando pelo Brighton ainda em maio de 2026 e, apesar dos esforços para chegar a tempo, foi cortado da lista final. O caso de Minamino é ainda mais cruel: o atacante do Monaco rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em dezembro de 2025, tornando-se desfalque certo meses antes do anúncio. Dois jogadores, dois LCAs, duas ausências que juntas representam algo da ordem de 40 gols nas últimas três edições de Copa do Mundo e Eliminatórias Asiáticas combinadas — uma lacuna, na linguagem da geografia brasileira, do tamanho da distância entre Recife e Fortaleza: visualmente pequena no mapa, mas enorme para quem precisa percorrê-la a pé.
A perda de ambos não é apenas quantitativa. Mitoma, revelado pelo Brighton na Premier League, era o desequilíbrio individual que o Japão usava para romper blocos baixos — o tipo de jogador que transforma um empate em vitória nos últimos 20 minutos. Minamino, ex-Liverpool e Monaco, acumulava experiência em pressão alta e versatilidade para atuar nas três posições ofensivas. Segundo a avaliação do SportNavo, a combinação dos dois representava o eixo técnico mais sofisticado que o futebol japonês já produziu de forma simultânea.

O que o técnico japonês tem à disposição para reorganizar o ataque
A convocação não é, porém, uma lista de resignação. Takefusa Kubo, do Real Sociedad na La Liga, é o nome de maior valor de mercado do grupo e chega ao torneio como o jogador mais aguardado da seleção. Aos 23 anos, Kubo completou sua melhor temporada europeia e tem condições de assumir a função criativa que Mitoma exercia pela esquerda, ainda que com características distintas — mais combinação e menos velocidade pura. Ritsu Doan, do Eintracht Frankfurt na Bundesliga, e Daichi Kamada, do Crystal Palace na Premier League, formam um meio-campo ofensivo com experiência europeia suficiente para sustentar transições rápidas.
Daizen Maeda, do Celtic, é o centroavante titular mais provável e chega com moral depois de uma temporada sólida na Escócia. Ayase Ueda, do Feyenoord, oferece uma segunda opção de área com bom histórico na Eredivisie holandesa. A novidade pode vir de Keito Nakamura, do Stade de Reims na Ligue 1, que tem se destacado pela capacidade de criar em espaços reduzidos — exatamente o que o Japão vai precisar contra defesas organizadas.
Veteranos e retornos que reescrevem a narrativa da lista
Se as ausências dominam o noticiário, a convocação de Yūto Nagatomo merece um capítulo à parte. O lateral do FC Tokyo, com 39 anos, vai disputar sua quinta Copa do Mundo — feito que pouquíssimos jogadores asiáticos alcançaram na história do torneio. Nagatomo passou pela Inter de Milão, Galatasaray e Olympique de Marselha antes de retornar ao Japão, carregando uma bagagem de experiência que vale mais do que qualquer estatística de sprint. Sua presença no elenco tem função dupla: técnica, como opção de cobertura na esquerda, e simbólica, como referência de profissionalismo para os mais jovens.
Wataru Endo, do Liverpool na Premier League, retorna após superar problemas físicos recentes e será o motor do meio-campo. Kou Itakura, do Ajax, e Hiroki Ito, do Bayern de Munique, formam uma zaga com experiência nos maiores clubes da Europa. Takehiro Tomiyasu, também do Ajax, adiciona versatilidade defensiva. A lista revela um Japão que, mesmo machucado, mantém uma coluna vertebral europeia notável: dos 26 convocados, mais de 20 atuam fora do país, distribuídos em ligas da Inglaterra, Alemanha, Holanda, França, Bélgica, Itália e Espanha.
A estreia japonesa na Copa do Mundo e o peso do grupo
O Japão chega à Copa do Mundo 2026 — disputada nos Estados Unidos, Canadá e México — como uma das seleções asiáticas mais consistentes do ciclo. A equipe venceu as Eliminatórias Asiáticas com folga e chegou às oitavas de final nas duas últimas edições do torneio, eliminando a Alemanha em 2022 no que ficou conhecido como uma das maiores zebras da história recente do futebol mundial. A ausência de Mitoma e Minamino reduz o potencial ofensivo, mas não apaga a identidade coletiva construída pelo técnico ao longo dos últimos anos — uma equipe de alta intensidade, pressão organizada e transições verticais.
A pergunta que fica é se Kubo, Doan e companhia conseguem produzir o mesmo nível de imprevisibilidade nos momentos decisivos. Nas palavras do próprio Nagatomo, em entrevista à imprensa japonesa após o anúncio da lista,
"Temos jogadores de qualidade suficiente para superar qualquer adversidade. Esta Copa do Mundo vai mostrar a força do coletivo japonês."A estreia dos Samurai Blue está programada para 20 de junho, contra a Espanha — e até lá, o mundo saberá se o Japão encontrou as respostas que as lesões exigiram.










