O ginásio estava cheio, os sparrings eram variados, os treinadores eram reconhecidos mundialmente — e mesmo assim, algo faltava. Quem viveu isso foi Jaqueline Amorim, faixa-preta de jiu-jitsu e peso-palha do UFC, que passou mais de dois anos na American Top Team antes de concluir que um ambiente menor poderia entregá-la mais. A decisão, tomada ao fim da última temporada, não nasceu de crise nem de conflito — nasceu de autoconhecimento.

Dois anos na ATT e a percepção que mudou tudo

Fundada em Coconut Creek, na Flórida, a American Top Team é uma das academias mais premiadas do circuito mundial de MMA. Nomes como Dustin Poirier, Amanda Nunes e Joanna Jędrzejczyk passaram por lá. Para uma atleta em ascensão, o endereço funciona como credencial automática. Jaqueline chegou à ATT no início de sua trajetória no UFC e reconhece que a passagem foi decisiva para moldar sua base técnica.

UFC x WWE - Delivered!
"Passei um pouco mais de dois anos na ATT. Evoluí muito no início da carreira lá, porque tinha muita gente diferente para treinar, vários treinadores. Então me ajudou bastante."

O problema não era a qualidade — era a proporção. Numa academia com dezenas de lutadores de alto nível disputando atenção técnica, o olhar individual se dilui. E quando uma atleta chega ao patamar em que Jaqueline se encontra, com a carreira em curva ascendente no ranking dos 52 kg, cada detalhe de execução começa a pesar mais do que volume de treino.

A MMA Science e a lógica do olhar individual

A solução encontrada por Jaqueline foi migrar para a MMA Science, academia também baseada na Flórida, mas com estrutura de menor quórum. O nome pode não carregar o mesmo peso midiático da ATT, mas a proposta é diferente por design — um ambiente voltado a preparações personalizadas, com atenção concentrada em cada atleta.

"Cheguei a um período da minha carreira que eu precisava de uma coisa mais focada em mim, um time menor, uma coisa que fosse me evoluir mais. Parece até meio egoísta, só 'Eu, eu, eu'. Mas quando você está lutando no mais alto nível, você tem que ser mais egoísta."

Há uma cena em Whiplash — o filme de Damien Chazelle sobre obsessão e perfeccionismo — em que o protagonista percebe que o método brutal do maestro Fletcher, embora eficaz num primeiro estágio, começa a destruir o que deveria construir. A lógica de Jaqueline segue a direção oposta, mas o princípio é parecido: o método que serve para um ciclo não necessariamente serve para o seguinte. Reconhecer isso antes de entrar em colapso é um sinal de maturidade atlética.

Loma Lookboonmee no UFC China e a prova do novo camp

O primeiro campo de treinamento inteiramente sob a nova casa será testado neste sábado, 30 de maio, na luta de abertura do UFC China. A adversária é Loma Lookboonmee, tailandesa com vasta experiência em muay thai — um estilo que ela pratica desde criança, segundo o histórico da lutadora. Nas casas de apostas, a disputa é anunciada como duelo de especialidades opostas, com Loma favorita leve no striking e Jaqueline apontada como favorita no grappling.

A brasileira é objetiva ao mapear o confronto:

"Onde ela oferece mais perigo é, realmente, na luta em pé. E eu tenho mais a vantagem, com certeza, no jiu-jitsu. Porque é minha especialidade e acredito que seja o ponto mais fraco dela. Se eu impor meu jogo, ela vai ter mais dificuldades no grappling."

O card do UFC China, conforme registrado pelo SportNavo, tem peso simbólico para a franquia: o evento marca a retomada da organização no mercado asiático após longa ausência. Uma vitória de Jaqueline na abertura do show, especialmente via finalização, reforçaria seu posicionamento no ranking dos peso-palha — divisão em que a brasileira busca avançar em direção ao top 15 global. A luta começa antes mesmo do primeiro toque de luvas: começa no método escolhido, no camp construído e na clareza sobre o que precisa evoluir.