Não, o problema não é o Flamengo reclamar de arbitragem por hábito ou costume de clube grande que perdeu pontos. O que Leonardo Jardim expôs na Arena da Baixada na noite de domingo (17) foi algo diferente e mais grave: um padrão de agressividade física contra seus jogadores que acumula traumatismos sem que a disciplina arbitral acompanhe a gravidade das entradas. E para tornar o argumento concreto, o clube foi às redes sociais com um vídeo que mostrava a canela de Lucas Paquetá aberta, resultado de uma dividida com Felipinho do Athletico que, segundo o próprio Flamengo, por pouco não causou uma fratura. O árbitro Rafael Rodrigo Klein, do Rio Grande do Sul, entendeu que a situação merecia apenas cartão amarelo.
A entrada em Paquetá e o que o Flamengo registrou nas redes
O lance ocorreu quando Felipinho atingiu Paquetá na canela e no tornozelo da perna esquerda durante uma dividida. A equipe médica do Rubro-Negro registrou o corte e o clube não demorou para publicizar a imagem. A nota oficial foi direta:
"A imagem da canela de Lucas Paquetá mostra a gravidade de uma entrada violenta que, por pouco, não causou uma fratura, enquanto Alex Sandro também sofreu com o excesso de força física durante a partida. Somente no lance com Paquetá, a arbitragem aplicou apenas cartão amarelo."
Alex Sandro foi vítima de uma solada de Aguirre no tornozelo — mais um caso que, segundo o clube, passou sem punição adequada. A equipe de Klein contou ainda com os assistentes Eduardo Gonçalves da Cruz (MS) e Michael Stanislau (RS) e o árbitro de vídeo Emerson de Almeida Ferreira (MG). O VAR não interferiu em nenhum dos lances citados pelo Flamengo.
Jardim na coletiva e o inventário de traumatismos
Em entrevista coletiva após o empate de 1 a 1, Jardim foi além do lance isolado e apresentou um histórico que, nas suas palavras, revela uma tendência dos adversários de explorar a permissividade arbitral. O técnico português citou nomes, jogos e situações específicas:
"Eu comparo uma tesoura que o Carrascal fez, tivemos duas ou três, não aconteceu nada na Libertadores. O Evertton (Araújo) foi expulso no Corinthians com uma situação que, hoje, se fosse a mesma regra, teriam sido expulsos dois jogadores do adversário."
O comandante enumerou ainda Plata com pancada no joelho, Erick Pulgar, Arrascaeta e outros jogadores com traumatismos acumulados — todos lesões de impacto, não musculares, o que reforça a tese de contato físico excessivo. Jardim encerrou o raciocínio com uma frase que resume bem a denúncia:
"Se queremos ver um bom futebol, não podemos deixar tanto baterem acima da lei, dentro da lei está tudo certo."
Quando Jorge Jesus fez o mesmo discurso em 2019
Quem acompanha a história recente do clube percebe que Jardim não é o primeiro técnico português a sentar na mesma cadeira e fazer o mesmo discurso depois de um jogo contra o Athletico-PR. Em 2019, ainda na campanha do tricampeonato Brasileiro e da Copa Libertadores, Jorge Jesus também reclamou publicamente da agressividade dos rivais e do volume de lesões no elenco — coincidência ou não, também após um confronto contra o Furacão. Naquele ciclo, o Flamengo encerrou a temporada com 38 vitórias em 48 partidas, mas Jesus relatava a dificuldade de manter o elenco íntegro diante da intensidade física que os adversários impunham.
A comparação entre as duas eras não é apenas retórica. No futebol brasileiro dos anos 1990, a proteção ao jogador habilidoso era notoriamente precária — basta lembrar que Romário, ao retornar ao Brasil pelo Vasco em 1997, reclamava sistematicamente da marcação dura e da falta de proteção arbitral, chegando a declarar publicamente que árbitros brasileiros não sabiam proteger craques. Três décadas depois, o debate não mudou de endereço. O SportNavo já mapeou ao longo desta temporada de 2026 que o Flamengo acumula o maior número de lesões por impacto físico entre os clubes da Série A — e o padrão descrito por Jardim encontra respaldo nos dados.
A ausência de Nicolás De La Cruz nos últimos dois jogos tem motivação tática, segundo o próprio Jardim — o uruguaio não se adapta bem a adversários que jogam no lançamento direto, como Athletico e Vitória. Mas a lista de indisponíveis por traumatismo aponta para uma fragilidade estrutural que vai além de escolhas de escalação. Com Paquetá machucado, Pulgar e Arrascaeta em recuperação, o Flamengo chega à quinta rodada do Grupo A da Copa Libertadores com o elenco castigado justamente quando a competição exige o máximo.
O próximo compromisso do clube é na quarta-feira (20), no Maracanã, diante do Estudiantes (ARG), a partir das 21h30 — horário de Brasília, com transmissão pela Globo, ESPN e Disney+. Antes de qualquer debate sobre arbitragem ou estratégia, Jardim precisará saber se Paquetá tem condições físicas de entrar em campo. A canela machucada responderá antes de qualquer coletiva.












