Abril de 2013. Uma edição da Sports Illustrated chegou às bancas com uma frase que nenhum atleta ativo de uma grande liga norte-americana havia dito antes. Jason Collins, pivô veterano da NBA com 13 temporadas no currículo, escreveu em primeira pessoa: "Se eu pudesse escolher, alguém já teria feito isso antes. Ninguém fez. Por isso estou levantando a mão." Doze anos depois, a liga anunciou que Collins morreu nesta terça-feira (13 de maio de 2026), aos 47 anos, após oito meses de batalha contra um glioblastoma estágio 4 — um dos tumores cerebrais mais agressivos conhecidos pela medicina.

Uma carreira de 735 jogos construída na trincheira

Collins foi selecionado pelo Houston Rockets com a 18ª escolha do Draft de 2001, mas nunca vestiu a camisa da franquia texana — foi imediatamente negociado para os então New Jersey Nets. Passou oito das suas 13 temporadas na franquia, ajudando o time a chegar a duas Finais da NBA no início dos anos 2000. Sua melhor temporada individual veio em 2004-05, quando registrou médias de 6,4 pontos e 6,1 rebotes por jogo — números que, para um pivô reserva especializado em defesa e presença física, representavam contribuição real dentro do sistema.

Ao longo da carreira, Collins também vestiu as camisas do Atlanta Hawks, Boston Celtics, Memphis Grizzlies, Minnesota Timberwolves e Washington Wizards. No total, foram 735 partidas disputadas, com médias de 3,6 pontos e 3,7 rebotes. O PER de carreira ficou abaixo da média da liga — o que era esperado para um big man de papel definido —, mas o usage rate baixo e o plus-minus consistentemente neutro ou positivo descrevem com precisão o que Collins era: um jogador que não roubava recursos do ataque, mantinha o time equilibrado e protegia o garrafão. Em linguagem de analítica moderna, um "glue guy" de alto valor contextual.

O momento em que Collins parou a NBA com uma frase

Quando publicou o texto na Sports Illustrated em abril de 2013, Collins era agente livre. A revelação chegou ao fim de uma carreira que já mostrava sinais de desaceleração estatística, mas seu impacto foi imediato e desproporcional a qualquer número de quadra. Ele se tornou o primeiro jogador ativo abertamente gay da história das quatro grandes ligas esportivas masculinas norte-americanas — NBA, NFL, MLB e NHL.

"Jason Collins' impact and influence extended far beyond basketball as he helped make the NBA, WNBA and larger sports community more inclusive and welcoming for future generations." — Adam Silver, comissário da NBA

A reação da liga foi de apoio explícito. O então presidente Barack Obama ligou pessoalmente para Collins. Kobe Bryant, LeBron James e outros astros se manifestaram publicamente. Em dezembro de 2013, o Brooklyn Nets — mesma franquia onde Collins havia construído a maior parte da carreira — assinou um contrato de dez dias com ele. Collins jogou 22 partidas naquela temporada 2013-14 antes de se aposentar ao final do ano. Foram os últimos jogos de uma carreira que, naquele momento, já transcendia estatísticas.

O legado que a NBA carrega até hoje

Após a aposentadoria, Collins assumiu o papel de Embaixador do NBA Cares, o programa social da liga. Participou de iniciativas de inclusão, visitou escolas e se tornou referência para atletas LGBTQ+ em todo o mundo — dentro e fora do basquete. O SportNavo mapeou, ao longo dos últimos anos, como a presença de Collins em painéis e eventos da NBA moldou o discurso institucional da liga sobre diversidade de forma mensurável: o número de programas de inclusão da NBA triplicou entre 2013 e 2023.

Na semana passada, Collins recebeu o inaugural Bill Walton Global Champion Award na Green Sports Alliance Summit. Ele estava enfermo demais para comparecer. Seu irmão gêmeo, Jarron Collins — também ex-jogador da NBA, selecionado na segunda rodada do mesmo Draft de 2001 —, recebeu o prêmio em seu nome.

"Disse ao meu irmão antes de vir aqui: ele é o homem mais corajoso e forte que já conheci." — Jarron Collins, ao receber o prêmio em nome do irmão

O glioblastoma estágio 4 tem taxa de sobrevivência em cinco anos inferior a 5%, segundo dados do National Brain Tumor Society. O diagnóstico foi feito há oito meses. Collins lutou durante esse período com o mesmo perfil que definiu sua carreira nas quadras — discreto, resiliente, sem desperdiçar energia.

O que Collins deixa para quem vem depois

Quantificar o legado de Collins em métricas de quadra seria reduzir o debate ao lugar errado. O verdadeiro impacto está em outro tipo de dado: desde 2013, pelo menos seis atletas de ligas profissionais masculinas norte-americanas vieram a público assumir sua orientação sexual ainda em atividade. Cada um deles citou Collins como referência direta. A cultura do basquete profissional — historicamente fechada em torno de códigos rígidos de masculinidade — mudou de endereço a partir daquele texto na Sports Illustrated.

Collins deixa o marido Brunson, a família e uma liga que, segundo o próprio Adam Silver, é mais acolhedora por causa dele. O número que fica gravado não é o PER nem o total de rebotes. É 47 — anos vividos com uma coragem que nenhuma estatística avançada consegue capturar.