Se você pedisse a Jorge Jesus para escolher entre os dois Flamengos, a resposta viria antes de você terminar a pergunta. O técnico português de 71 anos, que hoje tenta dar a Cristiano Ronaldo o primeiro título do Campeonato Saudita pelo Al-Nassr, foi categórico quando questionado sobre o time de Filipe Luís: "Não", o atual não supera o de 2019. Mas os números que sustentam essa afirmação revelam uma comparação muito mais complexa do que parece à primeira vista.
A resposta de Jesus veio depois que o Flamengo chegou à final do Mundial de Clubes contra o Paris Saint-Germain — feito que o próprio treinador acompanhou com atenção.
"Acompanhei a final, acompanho os jogos todos do Flamengo. Continuam sendo os melhores. Muitas felicidades para a Nação", afirmou Jesus, em entrevista ao Canal GOAT.O elogio veio junto com a ressalva: o ciclo de 2019 permanece, na cabeça do treinador, como o patamar máximo da era moderna do clube.
O que os 29 jogos sem derrota de 2019 escondem sobre aquele elenco
A sequência que Jesus evoca com orgulho — 29 jogos sem derrota entre 10 de agosto e 5 de dezembro de 2019, com 24 vitórias e cinco empates — é real e impressionante. Mas há um dado que o próprio técnico reconhecia na época e que relativiza parte do feito: o onze considerado ideal, formado por Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Willian Arão, Gerson, Everton Ribeiro e Arrascaeta; Bruno Henrique e Gabigol, jogou junto apenas oito vezes em 39 partidas sob seu comando.
Oito jogos. Em 39.
Isso significa que a sequência histórica foi construída com um elenco que tinha lacunas evidentes entre titulares e reservas — algo que o próprio Jesus apontava publicamente.
"Vamos contratar mais seis, sete jogadores para fazer o elenco mais forte. O grande adversário vai ser o Flamengo", declarou o treinador ao canal português CMTV ainda em 2019.A diretoria respondeu contratando Pedro Rocha, Gustavo Henrique, Thiago Maia e Michael, além de negociar o atacante Pedro junto à Fiorentina. O problema da profundidade, portanto, era reconhecido internamente como o principal ponto fraco daquele time histórico.
Filipe Luís e a construção de um elenco sem dependência de onze fixo
O contexto em que Filipe Luís assumiu o comando é estruturalmente diferente. O Flamengo de 2026 acumulou quatro títulos no ciclo recente — incluindo a Libertadores, a Recopa Sul-Americana contra o Lanús, a Supercopa do Brasil diante do Corinthians e a Copa do Brasil de 2024 — e chegou à final do Mundial de Clubes. Esses resultados foram construídos com uma gestão de elenco que priorizou justamente o que faltou em 2019: alternativas reais de alto nível para cada posição.
A diferença não é só de títulos conquistados, mas de como foram conquistados. Enquanto Jesus operava com um grupo em que a ausência de Arrascaeta ou Gabigol representava queda visível de nível, Filipe Luís trabalhou com um plantel em que rotações não significam rebaixamento de qualidade — reflexo direto dos investimentos que o clube fez nos últimos anos para suprir exatamente o gap que o técnico português identificou em 2019, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da temporada.
Quatro taças e uma final mundial colocam o debate em perspectiva
Jesus argumentou que em 2019 foram "34 vitórias consecutivas" — na prática, 24 vitórias e cinco empates em 29 jogos invictos, números que ele mesmo infla na memória afetiva, o que é compreensível dado o impacto emocional daquele título da Libertadores em Lima. O Brasileirão daquele ano foi conquistado com 90 pontos, recorde histórico da competição. São marcos que qualquer análise honesta precisa respeitar.
Mas a campanha de Filipe Luís tem sua própria grandeza mensurável. Uma final de Mundial de Clubes contra o PSG coloca o Flamengo em patamar de elite global — algo que o time de 2019 não alcançou, já que caiu para o Liverpool por 1 a 0 na semifinal daquele torneio. Os quatro títulos do ciclo atual incluem competições de alto nível de exigência, e a consistência ao longo de uma temporada com calendário cada vez mais denso exige profundidade de elenco que 2019 simplesmente não tinha.
Com o contrato de Filipe Luís encerrado em 31 de dezembro e negociações em andamento para a renovação, o Flamengo estreia o Campeonato Carioca em 14 de janeiro contra o Bangu. Se Filipe Luís permanecer e o clube mantiver o nível de investimento em elenco que diferencia este ciclo do anterior, qual será o argumento de Jesus quando o Flamengo conquistar seu segundo Mundial de Clubes?










