A planilha estava aberta, os números alinhados — e a diferença saltou antes mesmo de qualquer cálculo. Jhon Arias, 28 anos, colombiano, hoje no Palmeiras, carrega valor de mercado de €15 milhões no Transfermarkt. Derek Freitas, também 28 anos, brasileiro, defende o Náutico no Brasileirão Série A 2026, e seu valor de mercado é €500 mil — trinta vezes menor. Mesma posição, mesma liga, mesma faixa etária. O exercício de ROI esportivo que se segue raramente é tão revelador quanto aqui.

Quanto cada um vale no mercado

O Transfermarkt precifica Arias em €15 milhões, cifra que reflete histórico internacional, passagens por competições continentais e titularidade consolidada na Seleção Colombiana. Não é um número inflado por especulação: é sustentado por consistência ao longo de temporadas no futebol brasileiro e por interesse documentado de clubes europeus.

Derek Freitas está avaliado em €500 mil — valor típico de atacante que ainda constrói currículo no Brasil. A precificação não é pejorativa; reflete ausência de exposição internacional e histórico ainda em consolidação. O Náutico, recém-promovido à elite, opera nessa faixa de mercado por necessidade estrutural.

Dimensão Jhon Arias Derek Freitas
Idade 28 anos 28 anos
Posição Atacante / Ponta Atacante
Time atual Palmeiras Náutico
Jogos (2026) 33 34
Gols (2026) 7 10
Assistências (2026) 10 1
Valor de mercado €15,0 milhões €500 mil

A tabela acima revela o paradoxo central desta análise: Freitas tem três gols a mais na temporada, com praticamente o mesmo volume de jogos — 34 contra 33. Arias, no entanto, acumula dez assistências contra apenas uma de Freitas. São perfis ofensivos estruturalmente distintos precificados em moedas completamente diferentes.

Quanto cada um custaria realmente

Adquirir Arias — seja em transferência definitiva ou empréstimo com opção de compra — implica negociar em torno do valor de mercado de €15 milhões. A esse montante somam-se, tipicamente, comissões de intermediação entre 5% e 10% do valor bruto, luvas ao atleta e direitos econômicos que podem ser fracionados. Em reais, ao câmbio atual, estamos falando de um desembolso inicial acima de R$ 90 milhões só pelo passe.

O salário de Arias no Palmeiras — não divulgado oficialmente, mas compatível com o teto salarial do clube — situa-se em patamar que, segundo fontes do mercado, supera R$ 1,5 milhão mensais brutos. Em três temporadas, o custo total de remuneração ultrapassa R$ 54 milhões, sem contar bônus de desempenho e direitos de imagem.

Freitas, no Náutico, opera em estrutura radicalmente diferente. Seu custo de aquisição — estimado próximo ao valor de mercado de €500 mil — representa menos de 4% do custo de Arias. As comissões de intermediação, proporcionais ao valor bruto, são marginais. O salário mensal de um atacante nesse nível salarial do Náutico gira, tipicamente, entre R$ 80 mil e R$ 150 mil mensais — faixa pública para atletas da categoria neste clube.

O custo total de três temporadas com Freitas — passe mais salários — dificilmente ultrapassa R$ 10 milhões. Arias, em comparação, exige investimento que pode chegar a R$ 145 milhões no mesmo período. A diferença é de 14 vezes.

Qual o retorno esperado em 3 temporadas

Arias entrega, na temporada atual, uma combinação de 7 gols e 10 assistências em 33 jogos — participação direta em 17 gols, uma das maiores do Brasileirão entre atacantes. Sua função no Palmeiras não é de centroavante finalizador: é de organizador ofensivo, jogador que conecta linhas e cria superioridade numérica. As dez assistências — número que supera a produção de criação de todos os atacantes do Náutico combinados nesta temporada — traduzem essa vocação.

Freitas, por sua vez, apresenta perfil oposto: 10 gols em 34 jogos e apenas uma assistência. É um finalizador puro — ou ao menos funciona como tal no sistema do Náutico. Seu índice de conversão de oportunidades é relevante para um clube que provavelmente cria menos chances que o Palmeiras por questão estrutural.

O retorno de Arias em três temporadas — projetado com base na curva atual — passa por: valorização de mercado (atletas nessa faixa de €15 milhões em alto rendimento tendem a se manter ou crescer até os 30 anos), geração de receita indireta via performance em competições continentais e possível venda futura. Um atacante que mantém 10 assistências por temporada em clube de grande porte costuma sair por valor igual ou superior ao de entrada.

Freitas, aos 28 anos — mesma idade de Arias —, tem janela de valorização mais estreita. Seu valor de mercado de €500 mil pode dobrar ou triplicar com boas temporadas consecutivas, mas dificilmente alcança o patamar de Arias sem uma transferência para clube de maior expressão. O potencial de revenda existe, mas o teto é diferente.

Dez assistências de Arias no Brasileirão 2026 superam a soma de assistências de todos os atacantes do Náutico na temporada — dado registrado pelo SportNavo — e ilustram uma diferença qualitativa que os números brutos de gols não capturam sozinhos.

O ROI de Freitas, calculado sobre o custo total estimado de R$ 10 milhões, é potencialmente explosivo: se o atacante mantiver o ritmo de gols e uma venda ocorrer por €2 milhões em dois anos, o retorno sobre o investimento inicial ultrapassa 300%. É o modelo de negócio de clubes que revelam e vendem — não de clubes que compram para vencer títulos.

Arias, no modelo do Palmeiras, não é ativo de revenda imediata: é peça de performance. O retorno não vem de venda, mas de títulos, cotas de transmissão e marketshare comercial. Nesse contexto, R$ 145 milhões investidos em um atleta que gera 17 participações em gols por temporada — em clube que disputa Libertadores e Brasileirão simultaneamente — é uma equação que fecha para poucos orçamentos no futebol brasileiro.

A escolha financeira mais inteligente

A resposta depende, com precisão cirúrgica, do perfil do comprador — e é exatamente aí que a análise deixa de ser neutra.

Para um clube de grande porte com orçamento robusto e meta de título, Arias representa o investimento correto: experiência internacional, versatilidade tática, produção de assistências em alta escala e valor de mercado que se sustenta. O custo é alto — €15 milhões mais estrutura salarial pesada — mas o retorno em performance coletiva é mensurável. Clubes que pagam esse ticket esperam exatamente o que Arias entrega.

Para clubes de médio porte, clubes em processo de reconstrução ou times que operam com orçamento abaixo de R$ 200 milhões anuais, Derek Freitas representa o melhor custo-benefício disponível no Brasileirão Série A 2026. Dez gols em 34 jogos — ritmo de artilheiro — por um custo de aquisição trinta vezes menor é uma assimetria que o mercado ainda não precificou corretamente. O risco é o oposto: se o desempenho se confirmar, a janela de compra fecha rápido. A única ressalva objetiva é a baixíssima produção de assistências — um atacante com uma assistência em 34 jogos depende de parceiros criadores para maximizar seu impacto.

A escolha mais inteligente, em termos financeiros puros, é Freitas — mas com a condição de que o clube investidor tenha capacidade de construir ao redor dele. Arias já tem esse entorno no Palmeiras. Freitas ainda está construindo o seu no Náutico. Essa diferença de contexto é o que separa os €15 milhões dos €500 mil — e é o que torna esta comparação menos óbvia do que parece à primeira leitura dos números.