Voltou. E voltou com 26s92 na eliminatória dos 50 metros peito — tempo suficiente para garantir vaga no Pan-Americano Pacífico. João Gomes Júnior, 40 anos, passou um ano inteiro como secretário municipal de esportes em Limeira, interior de São Paulo, antes de trocar o gabinete pela beira da piscina. O retorno não foi motivado por saudade: foi motivado por uma decisão do Comitê Olímpico Internacional.
A inclusão dos 50 metros peito, borboleta e costas no programa olímpico de Los Angeles 2028 funcionou como um sinal de largada tardio para três atletas que já ensaiavam a despedida das piscinas. João Gomes Júnior, Nicholas Santos (46 anos) e Etiene Medeiros (35) reaparecem no circuito nacional em 2026 com marcas que não são apenas nostálgicas — são competitivas.
O que aconteceu nos bastidores antes do Troféu Maria Lenk
Nicholas Santos estava oficialmente aposentado desde 2022. Tetracampeão mundial dos 50 metros borboleta, o paulista de Ribeirão Preto havia migrado para o empreendedorismo e para o mercado de palestras motivacionais. Quatro anos fora d'água, por escolha própria. Quando a IOC anunciou as novas provas de 50 metros para os Jogos de 2028, Santos tinha 45 anos e, nas contas que ele mesmo fez, ainda dois anos de janela competitiva.
O Troféu Maria Lenk de 2026 foi o palco do reencontro dos três com a elite nacional. Nicholas Santos dividiu a piscina com Guilherme Caribé, que tem exatamente metade da sua idade — 23 anos. Esse dado numérico diz muito sobre a singularidade do momento: raramente o circuito brasileiro testemunha uma diferença geracional de 23 anos entre competidores da mesma prova em nível de alto rendimento.
"Para mim, é uma satisfação enorme poder estar retornando às piscinas. Eu estava em processo de destreino para começar a pensar em uma aposentadoria e, com a entrada da prova de 50m (peito) nos Jogos Olímpicos, começou a mexer um pouco com a cabeça. Aquela sensação de: 'Poxa, eu acho que ainda dá para tentar um pouquinho'.", disse João Gomes Júnior.
Etiene Medeiros, especialista nos 50 metros costas, também se enquadra no perfil de atleta que a nova grade olímpica ressuscitou. Aos 35 anos, a nadadora já acumulou títulos em Mundiais de piscina curta e manteve treinamento regular mesmo fora do calendário competitivo de alto nível. A diferença entre ela e os outros dois é que o seu afastamento foi menos prolongado — o que, do ponto de vista de desempenho por fundamento, pode representar uma vantagem técnica no processo de readaptação às cargas de treinamento olímpico.
Os números de 2026 e o que eles dizem sobre LA 2028
Quem acompanhou apenas os marcadores de tempo dos 50 metros peito no Troféu Maria Lenk de 2026 sem saber a idade dos competidores provavelmente não identificaria um "quarentão" entre os finalistas. João Gomes Júnior registrou 26s92 na eliminatória — marca que, comparada aos tempos mínimos exigidos para finais em Mundiais recentes, coloca o capixaba dentro da zona de competitividade internacional, ainda que longe do pódio absoluto neste momento da temporada.
Nicholas Santos carrega no currículo quatro títulos mundiais nos 50 metros borboleta e participações em Pequim 2008 e Londres 2012. Seria injusto chamar de era o que ele construiu nessa prova — mas é uma era em escala doméstica, com um domínio que atravessou pelo menos três gerações de nadadores brasileiros. A questão técnica para 2028 é objetiva: quanto da potência de saída e da eficiência de braçada ele consegue recuperar após quatro anos sem competição de alto nível?
Do ponto de vista biomecânico, provas de 50 metros são as que mais dependem de explosão neuromuscular e de tempo de reação na largada — variáveis que se degradam com a idade, mas que também respondem bem a ciclos específicos de treinamento. A janela até julho de 2028 é de aproximadamente 25 meses a partir do segundo semestre de 2026, tempo suficiente para dois ciclos completos de preparação de pico.
"O meu legado passa por tudo que eu construí dentro da natação, pelos títulos mundiais, por ter sido um dos...", iniciou Nicholas Santos em declaração sobre seu retorno, sinalizando que enxerga a tentativa olímpica como extensão de uma construção maior para a natação brasileira.
A decisão institucional que muda o mapa da natação brasileira até 2028
A inserção das três provas de 50 metros no programa olímpico não é trivial do ponto de vista estratégico para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. O Brasil historicamente não tem nadadores de fundo capazes de disputar pódio olímpico com regularidade — as medalhas vieram de César Cielo nos 50 e 100 metros livre, de Thiago Pereira nas provas individuais mediadas e, esporadicamente, de atletas de provas curtas como os próprios Santos e Gomes Júnior.
A nova grade de LA 2028 amplia o mapa de possibilidades para o país justamente nas distâncias onde o Brasil tem histórico de competitividade. Isso significa que a CBDA precisa calibrar sua política de seleção para acomodar veteranos com marcas válidas ao lado de jovens em ascensão — uma equação que o Troféu Maria Lenk de 2026 já começou a testar na prática.
Guilherme Caribé, que venceu a prova de 50 metros borboleta no mesmo evento em que Nicholas Santos competiu, representa exatamente essa nova geração. Caribé tem apontado para recordes mundiais nos 50 metros livre e demonstrado versatilidade em múltiplas provas curtas — o que coloca a natação brasileira em posição de ter tanto a experiência dos veteranos quanto a explosão dos jovens dentro do mesmo ciclo olímpico.
O próximo termômetro real para o trio será o Pan-Americano Pacífico, onde João Gomes Júnior já garantiu presença com a marca de 26s92. O desempenho nessa competição definirá se a CBDA inclui os três em um plano estruturado de preparação para os Seletivos Olímpicos de 2027 e 2028 — os eventos que, na prática, distribuirão as vagas brasileiras para Los Angeles.










