Diz-se que o Atlético de Madrid de Simeone sempre soube usar brasileiros no meio-campo. Na verdade, não soube — e o histórico recente deixa isso bem claro. Almada, Cunha, Renan Lodi: talentos que passaram pelo Metropolitano sem nunca capturar a essência do que o técnico argentino exige de um volante. João Gomes, por 45 milhões de euros, chega para mudar essa narrativa.
O Wolverhampton afundou, mas João Gomes emergiu
A Premier League 2025/26 foi cruel com o Wolverhampton. O clube terminou na lanterna e voltará à Championship na próxima temporada — um colapso coletivo que, paradoxalmente, não manchou a reputação do volante brasileiro. Mesmo com o time em crise, Gomes liderou o elenco em desarmes e duelos no chão ganhos nas três temporadas completas que disputou na Inglaterra, segundo o SofaScore, mantendo esse patamar até no pior momento do clube.
Isso não é detalhe. É dado. Um meio-campista que performa individualmente em alto nível dentro de um sistema disfuncional — isso tem valor de mercado e, mais importante, tem valor tático para um técnico que constrói times de dentro para fora, do esforço coletivo para a qualidade individual.
O que os números de João Gomes dizem sobre o seu encaixe no sistema Colchonero
Para entender por que esse negócio faz sentido, vale olhar para três métricas que definem o estilo Simeone:
- PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva) — mede a intensidade da pressão sem bola. Quanto menor o número, mais agressivo é o time na marcação. O Atlético de Madrid historicamente opera com um dos menores PPDAs da La Liga, e Gomes é exatamente o tipo de volante que contribui para baixar essa métrica: ele persegue, pressiona e recupera.
- Defensive Actions por 90 minutos — inclui desarmes, interceptações e pressões bem-sucedidas. Gomes figurou entre os líderes dessa categoria na Premier League nas últimas temporadas, um número que se traduz diretamente no vocabulário de Simeone.
- Progressive Passes — aqui está o ponto de evolução. O brasileiro não é só destruidor; ele tem melhorado consistentemente sua capacidade de iniciar jogadas depois de recuperar a bola, o que o diferencia de um volante puramente reativo.
Para ter uma referência histórica concreta: o Atlético de Madrid que chegou à final da Champions League em 2014 — aquele time que quase desbancou o Real Madrid no Estádio da Luz — tinha Gabi Fernández como o arquétipo do volante Simeone. Gabi acumulava em média 7,2 ações defensivas por 90 minutos naquela campanha, segundo dados do Opta. João Gomes, na temporada 2025/26 da Premier League, operou em patamar comparável mesmo em um time que não pressionava coletivamente. A diferença é que Gomes tem 25 anos e Gabi era o capitão de um time já consolidado.
O DNA de Gomes vem do Flamengo de 2022
A formação do jogador não aconteceu na academia do Wolverhampton. Ela foi construída no Flamengo — especificamente no time que venceu a Copa do Brasil e a Libertadores em 2022, sob o comando de Dorival Júnior. Naquele 4-3-1-2, Gomes atuava à esquerda do meio-campo, com Thiago Maia como pivô defensivo e Everton Ribeiro à direita. Arrascaeta, Pedro e Gabigol completavam o setor ofensivo.
O detalhe tático que define Gomes vem daí: com quatro jogadores altamente técnicos e pouco comprometidos defensivamente à sua frente, ele precisava cobrir o campo inteiro — recompor, pressionar, ganhar duelos — para que o sistema funcionasse. Era um papel ingrato e invisível nos momentos de brilho coletivo, mas absolutamente estrutural. Quando ele saiu do Flamengo em 2023, o clube nunca mais conseguiu encaixar Pedro, Arrascaeta, Gabigol e Everton Ribeiro juntos com a mesma eficiência.

"João Gomes tem esse verdadeiro espírito de equipe, gosta de ajudar, de estar presente, de correr, de entregar tudo", elogiou o técnico Vítor Pereira durante sua passagem pelo Wolverhampton.
Essa frase — dita por um treinador português acostumado a exigir intensidade — descreve exatamente o que Simeone desenha no quadro-negro antes de cada jogo.
O que Simeone ganha e o que Gomes ainda precisa provar
O Atlético de Madrid — Simeone em particular — não compra jogadores para transformá-los. Ele compra jogadores que já chegam prontos para o sistema. E o sistema exige um volante que entenda que xG e xA não são as métricas que definem seu valor: o que importa é quantas vezes ele recuperou a bola antes que o adversário construísse uma chance.

Gomes entrega isso. O ponto de atenção é a progressão com bola — os progressive passes — num contexto onde o Atlético eventualmente precisa sair jogando contra blocos baixos na La Liga. O Manchester United havia sondado o jogador antes do rebaixamento do Wolves, e o Napoli tentou a contratação na temporada passada, o que mostra que o mercado reconhece essa qualidade técnica além da marcação.
A transferência deve ser oficializada ao fim da temporada europeia 2025/26. Se confirmada por 45 milhões de euros, João Gomes se tornará o volante brasileiro mais caro da história do Atlético de Madrid — e terá a missão de provar que, desta vez, o clube acertou na escolha do perfil brasileiro para o meio-campo de Simeone.









