Se alguém pedisse hoje para desenhar o perfil do zagueiro brasileiro que o mercado vai disputar nos próximos anos, João Pedro Chermont caberia razoavelmente bem no esboço — 20 anos, 181 cm, camisa 44 do Coritiba, e uma temporada de 2026 que já acumula 30 jogos, 2 gols e 4 assistências no Brasileirão Série A. Mas esboços enganam. O que está se construindo em Curitiba é mais complexo do que qualquer rascunho de mercado consegue capturar.

Onde ele pode estar em 2027

Projetar um zagueiro de 20 anos no Brasil de 2026 exige honestidade sobre o que os números dizem e sobre o que eles ainda não dizem. O que os dados desta temporada revelam é consistência rara para a posição: 30 partidas disputadas, 2 gols marcados e 4 assistências distribuídas. Para um defensor, esse volume de participação direta em jogadas ofensivas — 6 contribuições em gols — não é detalhe estatístico, é argumento tático. É o tipo de número que faz olheiros europeus abrirem planilhas e técnicos de seleção de base anotarem nomes.

Podría ver este gol todo el día 🇺🇾🤩

Em doze meses, Chermont pode estar em três cenários distintos.

No primeiro, e mais provável se o Coritiba mantiver a sequência de resultados, ele encerra 2026 como um dos zagueiros mais regulares da Série A entre jogadores sub-21 — e entra em 2027 com proposta concreta de clube europeu ou de grande do eixo Rio-São Paulo. No segundo cenário, uma janela de transferências agitada o leva ainda neste segundo semestre para um time de maior projeção nacional, acelerando o ciclo. No terceiro — o mais conservador — permanece no Coxa, consolida mais uma temporada completa e chega a 2027 com maturidade suficiente para liderar uma defesa inteira. Qualquer um dos três é plausível. Nenhum é garantido.

O que precisa acontecer até lá

A aritmética da carreira de um zagueiro jovem no Brasil costuma ser crua: regularidade vence talento bruto na maioria das vezes. Chermont já tem a regularidade — 30 jogos em uma única temporada, aos 20 anos, é um volume que muitos defensores levam três anos para alcançar na Série A. O que ainda precisa ser construído é a narrativa de grandes momentos, aquelas partidas-referência que ficam no imaginário da torcida e no currículo do atleta.

Dois gols em 30 jogos.

Esse número, para um zagueiro, não é pequeno — é expressivo. Mas o que vai definir o salto de patamar é a qualidade dos adversários enfrentados e a capacidade de manter o nível em jogos de pressão máxima. O Brasileirão de 2026 oferece esse laboratório semana a semana, contra ataques de times como Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro. Cada uma dessas partidas é um exame sem curva de correção.

Há também a questão física. Com 181 cm e 73 kg, Chermont tem a estrutura de um zagueiro moderno — mais veloz e técnico do que imponente no jogo aéreo. Esse perfil funciona bem no futebol de pressão alta que os times brasileiros mais organizados praticam, mas exige que o atleta compense com posicionamento o que eventualmente perde em duelos físicos contra centroavantes mais pesados. Desenvolver essa leitura de jogo é o trabalho dos próximos doze meses.

O que já aconteceu na trajetória

Nascido em 18 de janeiro de 2006, João Pedro Chermont chegou ao futebol profissional em um momento em que o Brasil começava a repensar como forma seus zagueiros. A reportagem publicada em abril de 2026 sobre a base do Corinthians — que superou Santos e Fluminense na promoção de jovens talentos — jogou luz sobre um ecossistema inteiro de revelações que o país estava produzindo silenciosamente. Chermont é parte desse fenômeno geracional, mesmo que seu caminho tenha passado pelo Coritiba e não pelo Parque São Jorge.

Aos 20 anos, ele já carrega o número 44 nas costas — uma camisa que não é de titular óbvio em termos de numeração tradicional, mas que no futebol contemporâneo diz mais sobre identidade do que sobre hierarquia. E a identidade que essa temporada está construindo é a de um defensor que não se limita à destruição: 4 assistências em 30 jogos colocam Chermont em uma categoria específica de zagueiros que participam da construção ofensiva com regularidade, não por acidente.

Os obstáculos no caminho

O maior risco para um jogador do perfil de Chermont não é a falta de talento — é a pressa. O mercado brasileiro tem o hábito de transformar revelações em promessas antes que elas tenham tempo de virar realidade. Um zagueiro de 20 anos com 30 jogos e 6 contribuições diretas em gols atrai atenção rapidamente, e atenção prematura pode ser tão danosa quanto ausência de oportunidades.

Há também o contexto do próprio Coritiba. O clube paranaense tem história e estrutura, mas operar no Brasileirão Série A exige investimento contínuo em elenco e comissão técnica — e qualquer instabilidade institucional repercute diretamente no desenvolvimento dos atletas mais jovens. Se o ambiente ao redor de Chermont se mantiver estável, a trajetória tem todos os elementos para continuar ascendente. Se não, o talento pode se perder em meio a trocas de comando e oscilações de resultado que o futebol brasileiro conhece bem demais.

Por fim, existe a comparação inevitável com outros jovens zagueiros brasileiros que chegaram com estatísticas similares e depois encontraram um teto que ninguém havia previsto. O futebol é generoso em exemplos de potencial que não se converteu. Chermont ainda está escrevendo sua resposta a essa questão — e tem 30 jogos de argumento a seu favor.

Um zagueiro de 20 anos com 4 assistências em uma temporada de Série A não é promessa — é dado.