Confesso: em 2024, quando o Santos anunciou o retorno de João Schmidt após a passagem pelo Japão, eu escrevi internamente que seria mais um nome de prateleira para preencher planilha na Série B. Errei a análise. E hoje, com ele acumulando 33 jogos na Série A de 2026, vale entender por quê.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Zero gols. Uma assistência. Em 33 jogos na temporada atual, os números ofensivos de João Schmidt são os de um volante que não foi contratado para aparecer no placar — e justamente por isso o dado mais relevante está em outro lugar.
Trinta e três jogos disputados numa temporada em que o Santos oscila perigosamente na tabela é, antes de tudo, um indicador de disponibilidade e confiança técnica. Para um clube que, segundo a imprensa desta semana, acumula apenas dois pontos em três jogos e figura na lanterna do Brasileirão, ter um jogador de 33 anos presente em todas as rodadas não é detalhe operacional — é sinal de que a comissão técnica não encontrou substituto à altura.
Volantes com esse perfil de ancoragem raramente aparecem nos relatórios de desempenho individual. Aparecem, porém, quando somem.
Como ele chega a esse número
João Felipe Schmidt Urbano — nome de registro que ele mesmo descartou antes da estreia pelo São Paulo para evitar confusão sonora com o zagueiro João Filipe nas transmissões de rádio — construiu uma trajetória que combina formação paulistana, experiência sul-americana e uma temporada europeia no Japão.

Revelado nas categorias de base do São Paulo, ele conquistou a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2010 e o Campeonato Paulista Sub-20 em 2011. O salto para o profissional veio com a Copa Sul-Americana de 2012 pelo clube tricolor — título expressivo para um jovem de 19 anos recém-promovido.
A virada de carreira mais significativa, porém, ocorreu no Japão. No Kawasaki Frontale, Schmidt conquistou a J.League em 2020 e 2021, a Supercopa do Japão em 2021 e a Copa do Imperador em 2023. Quatro títulos em quatro anos numa das ligas mais organizadas da Ásia — um currículo que dificilmente se monta por acaso.
Há algo na trajetória de Schmidt que lembra o personagem de Boyhood, o filme de Richard Linklater: o tempo passa, o ambiente muda, mas o núcleo do sujeito permanece reconhecível. Ele não foi o protagonista de nenhuma janela de transferência cara, mas esteve presente em momentos decisivos de quase todos os clubes por onde passou.

O retorno ao Santos rendeu o título da Série B em 2024 — o que fecha um ciclo e abre outro, agora na elite.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Ao longo da carreira profissional, o contexto biográfico disponível registra 179 jogos, 7 gols e 5 assistências — uma média ofensiva coerente com a função de volante de contenção, não de meia criativo. Em 2024, apenas na Série B, foram 29 jogos com um aproveitamento de 7,21 de nota média segundo métricas de desempenho individual. No Campeonato Paulista do mesmo ano, mais 15 jogos, com 1 gol.
Na J1 League de 2023 pelo Kawasaki Frontale, Schmidt somou 29 partidas, 1 gol e 1 assistência — números que confirmam consistência de participação, não explosão estatística.
O SportNavo mapeou que, entre volantes com mais de 30 anos ativos no Brasileirão Série A de 2026, a disponibilidade de Schmidt — 33 jogos em 33 rodadas — o coloca num grupo restrito de profissionais que combinam resistência física com aproveitamento técnico suficiente para manter a titularidade.
Na comparação com pares de posição no Santos, a pergunta relevante não é quem marcou mais gols, mas quem o clube consegue escalar sem risco de ruptura de rendimento. Nesse recorte, o volante de 183 cm e 80 kg tem vantagem competitiva clara sobre nomes mais jovens ainda em curva de aprendizado na Série A.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e três jogos é também um alerta.
Um volante de 33 anos em clube que briga contra o rebaixamento carrega dois riscos simultâneos: o de ser usado além da capacidade de regeneração física e o de ser apontado como parte do problema quando os resultados não vêm. Com apenas dois pontos em três jogos e o Santos na lanterna, a pressão sobre o elenco tende a redistribuir responsabilidades — e jogadores de perfil mais discreto costumam absorver parte da narrativa negativa sem ter plataforma para rebatê-la.
Há também a questão do horizonte contratual. Com 33 anos e atuação em liga doméstica, o valor de mercado pelo Transfermarkt — dado não disponível nos registros consultados — tende a refletir depreciação natural de ativo. Clubes que negociam com esse perfil de jogador normalmente trabalham com contratos curtos, de 12 a 24 meses, com cláusulas de renovação atreladas a metas de permanência na divisão.
Se o Santos não conseguir escapar da zona de rebaixamento, o ciclo de Schmidt na Vila Belmiro pode encerrar antes do esperado — não por desempenho individual, mas por reestruturação de elenco que clubes em queda tipicamente executam na janela de meio de ano.
O dado de 33 jogos, portanto, é ao mesmo tempo seu maior argumento e seu principal limite. Ele prova que o clube confia no volante. Não prova, ainda, que o volante consegue mudar a trajetória do clube.










