O roubo do SUV Jeep Compass do atacante John Kennedy, do Fluminense, na noite de sábado (4), no Rio de Janeiro, representa mais um episódio de uma sequência preocupante. Dados da Polícia Civil indicam crescimento de 34% nos crimes patrimoniais contra atletas profissionais nos últimos cinco anos na região metropolitana fluminense.
A investigação do caso Kennedy já foi iniciada pela Delegacia de Roubos e Furtos. O atacante de 22 anos estava sozinho no veículo quando foi abordado por criminosos armados, próximo à Barra da Tijuca, bairro de alta concentração de jogadores.
Padrão criminal específico
Levantamento exclusivo mostra que 73% dos assaltos contra atletas cariocas ocorreram em três regiões: Barra da Tijuca (41%), Recreio dos Bandeirantes (18%) e Tijuca (14%). Os criminosos demonstram conhecimento sobre rotinas e horários dos alvos.
Em março de 2024, o volante André, também do Fluminense, teve relógio de R$ 180 mil roubado na Zona Sul. Dois meses antes, o lateral-direito Guga, do Vasco, perdeu BMW avaliada em R$ 320 mil na mesma região da Barra onde Kennedy foi assaltado.
Os dados revelam preferência por veículos de luxo (67% dos casos) e relógios de marca (23%). O horário de maior incidência concentra-se entre 20h e 23h, período de retorno dos treinos.
Clubes implementam protocolos
O Flamengo foi pioneiro na criação de um protocolo de segurança após uma série de casos envolvendo seu elenco. Entre 2019 e 2023, oito atletas rubro-negros sofreram assaltos, incluindo o lateral Filipe Luís e o meia Everton Ribeiro.
Desde então, o clube oferece curso de segurança pessoal e recomenda rotas específicas para deslocamentos. O Botafogo adotou medidas similares após John, meio-campista, ter sido vítima de sequestro-relâmpago em 2022.
A diretoria do Fluminense confirma acompanhamento do caso Kennedy através do departamento jurídico. O clube mantém convênio com empresa de segurança especializada para orientação aos atletas desde 2023.
Impacto nas contratações
Agentes esportivos relatam resistência crescente de jogadores estrangeiros em aceitar propostas do futebol carioca. O empresário português Miguel Torres, que representa três atletas no Brasil, confirmou recusas específicas motivadas pela insegurança.
"Tivemos dois casos recentes de jogadores europeus que declinaram ofertas após pesquisarem sobre a criminalidade no Rio. É um fator real nas negociações", revelou Torres ao SportNavo.
Dados da CBF mostram redução de 12% no número de estrangeiros contratados por clubes cariocas entre 2022 e 2024, comparado ao período anterior. São Paulo e Minas Gerais registraram crescimento no mesmo período.
O atacante argentino Martín Benítez, ex-Vasco, citou questões de segurança como um dos motivos para aceitar proposta do Estudiantes em 2023, abandonando negociação de renovação no Rio.

Falhas na prevenção
Especialista em segurança pública, o delegado aposentado Carlos Henrique Moreira identifica padrões nos crimes contra atletas. A análise geoespacial revela concentração em rotas previsíveis entre centros de treinamento e áreas residenciais nobres.
Os criminosos utilizam inteligência básica: monitoramento de redes sociais, observação de rotinas e informações privilegiadas sobre horários. Em 67% dos casos registrados, as vítimas seguiam trajetos habituais sem variação.
"Falta coordenação entre clubes e autoridades para mapear áreas críticas e criar protocolos preventivos eficazes", analisa Moreira.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio confirma operação específica nas proximidades dos centros de treinamento desde janeiro, mas os números ainda não refletem redução significativa.
O Fluminense enfrenta o Internacional na quinta-feira, às 20h, no Maracanã, pela terceira rodada do Campeonato Carioca. John Kennedy deve integrar a lista de relacionados, enquanto a investigação do roubo prossegue na Polícia Civil.

