Terça-feira, câmera ligada, set do programa ALF Reality. Jon Jones olha para Daniel Cormier e diz, com a tranquilidade de quem está convicto: "Rivalidade acontece quando cada um venceu uma. Eu tenho dois. Não existe rivalidade. E mais: ele nem é meu adversário mais difícil." Cormier ficou em silêncio por um segundo — o tipo de silêncio que eu reconheço de ringue, o segundo antes de você decidir se vai absorver o golpe ou contra-atacar. Ele contra-atacou, mas não com punho: fez mímica de injeção no braço, na perna, no pescoço. A plateia entendeu. O mundo do MMA entendeu.
O que Jones construiu antes de apagar Cormier da memória
Para entender o peso da declaração, é preciso voltar ao que Jones viveu dentro do octógono antes de chegar a Daniel Cormier. O primeiro nome na lista de "Bones" é Alexander Gustafsson, e quem assistiu ao UFC 165, em setembro de 2013, sabe por quê. Foram cinco rounds de guerra técnica — Jones perdendo o segundo e o terceiro rounds por margem estreita nos cartões de dois dos três juízes. Gustafsson usou jab longo e movimentação lateral para neutralizar o alcance absurdo de Jones, algo que poucos lutadores conseguiram fazer com consistência. Jones sobreviveu porque conseguiu restaurar o controle de distância no quarto round, mas a luta deixou marcas reais: hematomas orbitais, costelas machucadas, ego arranhado.
O segundo nome, Dominick Reyes, é ainda mais revelador. No UFC 247, em fevereiro de 2020, Reyes dominou os três primeiros rounds com uma agressividade de pressão que Jones claramente não esperava. Existe uma métrica usada por analistas de MMA chamada significant strike accuracy differential — basicamente a diferença entre o percentual de acerto de golpes significativos dos dois lutadores. Naquela luta, Reyes teve vantagem positiva nos três primeiros rounds, algo que nenhum adversário anterior de Jones havia sustentado por tanto tempo consecutivo. Jones virou no quarto e no quinto, mas dois dos três juízes deram a ele por margem mínima. Foi a luta em que o mundo mais perto chegou de ver Jones perder o cinturão sem doping envolvido.
O terceiro nome é Thiago Santos, e aqui a história ganha uma camada que vai além da técnica. "Marreta" entrou no UFC 239, em julho de 2019, com ligamentos do joelho já comprometidos — lesão que só foi diagnosticada completamente depois da luta. Mesmo assim, derrubou Jones duas vezes e foi ao quinto round. Dois dos três juízes deram a Jones, mas por margem tão apertada que até os árbitros pareciam inseguros. Santos lutou com estrutura física fragmentada e quase tirou o cinturão de um Jones saudável. É o tipo de coragem que você não consegue medir em estatística nenhuma.
Por que Cormier ficou de fora e o que isso revela sobre Jones
A ausência de Cormier no top 3 de Jones não é acidente nem esquecimento. É uma declaração calculada. Quem passou tempo suficiente em competição de alto nível sabe que a narrativa que um atleta constrói sobre si mesmo é parte da performance — às vezes tão importante quanto o treinamento. Jones está dizendo, em público, que Cormier nunca o testou da forma que Gustafsson, Reyes e Santos testaram.
Do ponto de vista técnico, há algum argumento para isso. Cormier é um lutador greco-romano de elite, com controle de clinch e takedown entre os melhores que o MMA já produziu. Mas Jones neutralizou esse jogo com consistência nos dois encontros — especialmente no primeiro, no UFC 182, em janeiro de 2015, onde controlou a distância com tesoura e cotoveladas do clinch de forma que Cormier nunca encontrou resposta. A segunda luta, no UFC 214 em julho de 2017, Jones venceu por nocaute técnico no terceiro round, mas o resultado foi anulado depois que ele testou positivo para turinabol, um esteroide anabolizante. O confronto virou no contest oficialmente.
E aí está o nó. Jones conta "dois" na cabeça. O regulamento conta "um" no papel e um resultado anulado. Cormier conta diferente: conta uma derrota limpa, uma luta roubada por substância proibida, e uma carreira inteira marcada pelo fantasma de um rival que, na visão de "DC", nunca competiu completamente limpo. Quando Jones diz "tenho dois", Cormier faz mímica de seringa. Não é retórica. É a acusação mais direta que existe no esporte de combate.
"Posso ser o terceiro, mas sou o único", disse Cormier antes de simular injeções pelo corpo inteiro.
A frase tem camadas. "O único" não é sobre dificuldade de luta — é sobre legitimidade. Cormier está dizendo que os outros três testaram Jones de forma justa, e que ele próprio nunca teve essa chance de verdade. É uma acusação disfarçada de ironia, e funciona exatamente por isso.
A resposta de Cormier e o que a rivalidade ainda produz
Quando perguntado diretamente se odeia Jon Jones, Cormier não hesitou:
"Sim. É muito fácil. É uma resposta de uma palavra. Você não precisa pensar: sim."Não tem análise psicológica que explique melhor o estado dessa relação do que essa resposta. Dez anos depois da primeira luta, a ferida está aberta da mesma forma.
O UFC está produzindo um programa especial no canal A&E sobre as maiores rivalidades da história da organização, e Jones-Cormier vai aparecer — inevitavelmente. O material do ALF Reality já está circulando no YouTube do canal ALF Global, e cada novo clipe alimenta o ciclo: Jones provoca, Cormier responde com a questão do doping, e o público divide opiniões com a intensidade de quem tem lado tomado há anos.
Do lado de Jones, a lógica é simples: venci quando contou, e os lutadores que mais me fizeram sofrer tecnicamente foram outros três. Do lado de Cormier, a lógica é igualmente simples: uma das duas vitórias foi construída com substância proibida no corpo do adversário, então o placar real é discutível. Nenhum dos dois está completamente errado. Nenhum dos dois vai ceder. E o programa da A&E, quando estrear, vai colocar os dois no mesmo espaço narrativo de novo — câmeras ligadas, velhas feridas, e a certeza de que essa história ainda não tem ponto final escrito. Jones entra no programa convicto de que dominou. Cormier entra convicto de que foi roubado — e os dois têm razão suficiente para sustentar a própria versão por mais uma década.










