Três elementos: um músico de 84 anos, um movimento cultural dos anos 1960 e uma votação que não foi unânime. Tudo se explica a partir daí.
Na reunião do Conselho Deliberativo do Flamengo realizada nesta segunda-feira, 11 de maio, os conselheiros aprovaram os três uniformes que o clube vestirá na temporada de 2027. A terceira camisa — predominantemente preta com detalhes em rosa, azul e amarelo — homenageia Jorge Ben Jor, torcedor símbolo do clube e uma das vozes centrais do movimento Tropicália, surgido no Brasil na segunda metade da década de 1960. A informação foi divulgada inicialmente pela ESPN e confirmada por outros veículos especializados.
O placar da votação que o Flamengo preferia não revelar
Dos três modelos apresentados, a terceira camisa foi o que gerou mais resistência interna. Enquanto o uniforme principal e o segundo modelo foram aprovados com aproximadamente 90% dos votos favoráveis, a peça inspirada em Jorge Ben Jor passou com 72% — margem confortável para uma aprovação, mas significativamente abaixo das outras duas. Clubes da magnitude do Flamengo costumam tratar uniformes como ativos financeiros: contratos com fornecedores esportivos de grande porte giram na casa de dezenas de milhões de reais por temporada, e a aceitação interna do produto influencia diretamente as projeções de venda e licenciamento. Uma aprovação de 72% em um conselho deliberativo não é um sinal de crise, mas tampouco é consenso — e esse número, sozinho, já conta uma história sobre o conservadorismo de parte dos votantes diante de uma proposta estética fora do padrão.
O SportNavo apurou que a divisão reflete menos uma rejeição ao nome de Jorge Ben Jor e mais uma discussão sobre o risco comercial de uma paleta cromática tão distante das cores tradicionais do clube — o preto como base, com rosa, azul e amarelo como elementos decorativos, é uma ruptura estética considerável para uma instituição que tem no vermelho e no preto sua identidade visual mais rentável.
O que cada uniforme carrega por dentro do design
A camisa principal de 2027 aposta em listras mais finas e mangas vermelhas, numa referência direta ao modelo utilizado pelo clube na temporada de 2018 — ano em que o Flamengo venceu o Campeonato Brasileiro com Rudinei como técnico interino após a saída de Reinaldo Rueda. A retomada de elementos de um uniforme específico não é aleatória: o de 2018 tem alto valor afetivo para parte da torcida, e reconstruí-lo com ajustes contemporâneos é uma estratégia recorrente de fornecedores para maximizar o apelo nostálgico sem abrir mão da modernidade.
O segundo uniforme branco com detalhes em cinza, vermelho e preto homenageia a Taça Salutaris, conquistada pelo Flamengo em 1927 — torneio que, segundo registros históricos, escolhia o "clube mais Symphatico" do Brasil. A data não é trivial: 2027 marca exatamente o centenário dessa conquista, o que confere à peça um significado institucional preciso e justifica a aprovação de 90% com mais facilidade do que a terceira camisa.
Já a terceira camisa é a peça de maior ousadia estética. A combinação de preto com rosa, azul e amarelo ecoa as capas dos álbuns de Jorge Ben Jor dos anos 1970 e a paleta visual do movimento Tropicália, que tinha em Caetano Veloso e Gilberto Gil seus protagonistas musicais, mas absorvia figuras como Jorge Ben como satélites importantes de uma mesma constelação cultural.
Por que a homenagem a Jorge Ben Jor é maior do que parece
Jorge Ben Jor é flamenguista declarado há décadas. Músicas como "Fio Maravilha", composta em 1972 em homenagem ao atacante Dario, são parte do folclore do futebol brasileiro — e do Flamengo em particular. Transformar essa relação em produto de vestuário é uma operação que vai além do marketing: é a formalização institucional de um vínculo cultural que existe há mais de 50 anos.
O movimento Tropicália, por sua vez, nasceu em 1967-1968 como uma ruptura estética e política, misturando bossa nova, rock psicodélico, pop e referências visuais do Brasil profundo. Incorporar essa identidade visual a um uniforme de futebol é uma aposta de posicionamento cultural que poucos clubes brasileiros fizeram de forma tão explícita. O Flamengo, com sua base de torcedores que extrapola qualquer recorte regional ou de classe, tem a escala para transformar essa homenagem em fenômeno de vendas — mas a votação de 72% indica que nem todos dentro do clube estão convencidos de que o risco vale o retorno.
Quantos clubes no Brasil teriam a coragem institucional de colocar rosa em um uniforme e chamar de homenagem cultural — e não de erro de design?
A resposta está no DNA do próprio Flamengo: a maior base de torcedores do país, estimada em mais de 40 milhões de pessoas segundo pesquisas recentes, permite experimentações que seriam suicídio comercial para clubes menores. Uma terceira camisa com paleta tropicalista pode ser exatamente o tipo de produto que esgota em pré-venda antes de chegar às prateleiras — ou o que fica encalhado nas lojas oficiais. O conselho votou. Agora é o mercado que decide.
Os três modelos aprovados nesta segunda serão lançados comercialmente ao longo de 2026, antes do início da temporada 2027. O Flamengo volta a campo na quarta-feira, dia 14 de maio, contra o Bahia, pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã. Até dezembro de 2026, as vendas do uniforme tropicalista já terão dado a resposta definitiva sobre o acerto da aposta.








