O que teria acontecido com a Seleção Brasileira se Jorge Jesus tivesse dito sim em janeiro de 2025? A pergunta não é retórica vazia — ela tem data, contexto e um protagonista que, pela primeira vez, admitiu ter ficado próximo de aceitar o cargo mais cobiçado do futebol nacional.
A revelação veio numa coluna publicada pelo treinador no Jornal Record de Portugal, com o título sugestivo de 'Um pé na Arábia e outro no Brasil'. Jesus confirmou que recebeu contatos da CBF ainda na gestão de Ednaldo Rodrigues — conversas que se intensificaram após a demissão de Dorival Júnior, no segundo semestre de 2024, depois de uma Copa América que terminou com o Brasil eliminado nas quartas de final pela Uruguai nos pênaltis.
O momento em que a história quase mudou de rumo
Janeiro de 2025 foi o ponto crítico. Jesus estava no comando do Al-Hilal, clube saudita que se preparava para disputar o Mundial de Clubes da FIFA, e recebeu a proposta de forma direta. Segundo o próprio treinador, a hesitação existiu — mas a decisão foi manter o compromisso com o clube de Riade.
"Podia ter dito sim ao Brasil em janeiro de 2025? Podia, mas naquele momento considerei que não devia abandonar os desafios que tinha em mãos com o Al-Hilal", escreveu Jesus em sua coluna.
A lógica do técnico era compreensível do ponto de vista profissional: abandonar um clube às vésperas de uma competição mundial teria comprometido sua reputação de homem de palavra — traço que ele cultivou ao longo de mais de duas décadas de carreira, passando por Benfica, Sporting, Besiktas e, claro, pelo Flamengo, onde conquistou a Copa Libertadores de 2019 com placar de 2 a 1 sobre o River Plate numa final épica no Monumental de Núñez.
Houve, conforme Jesus relatou, até uma segunda tentativa de aproximação após a realização do Mundial de Clubes. Uma reunião foi marcada com o objetivo de viabilizar a contratação, mas as negociações não avançaram. O motivo: a saída de Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF esvaziou o projeto. Sem o interlocutor original, o acordo morreu antes de ser assinado.
O timing cruel que a CBF não conseguiu controlar
Há uma ironia dolorosa na cronologia dos fatos. Jesus deixou o Al-Hilal em maio de 2025 — exatamente o período em que a CBF estava sem um técnico definido e com o novo comando ainda se estabelecendo. Em julho do mesmo ano, o português acertou com o Al-Nassr, clube de Riade que conta com Cristiano Ronaldo no elenco, e encerrou definitivamente qualquer possibilidade de assumir o Brasil naquele ciclo.
A avaliação do SportNavo é que a CBF perdeu uma janela histórica por falta de coordenação institucional. A troca de comando na confederação, que envolveu a queda de Ednaldo Rodrigues em meio a disputas jurídicas e políticas, interrompeu uma negociação que já tinha substância — algo raro quando se trata de atrair um treinador de alto nível para o futebol brasileiro.
Para entender o tamanho do que estava em jogo, basta recorrer à história. Quando a CBF contratou Telê Santana para o segundo ciclo, em 1982, o Brasil jogou o melhor futebol de sua geração sem conquistar o título — mas criou um legado técnico que influencia gerações. Zico, Sócrates, Falcão e Eder formaram um time que venceu 11 dos 14 jogos nas Copas de 1982 e 1986 combinadas, com aproveitamento superior a 78%. A grandeza de um ciclo não se mede apenas pelo troféu, mas pela identidade construída. Era exatamente esse tipo de projeto que o nome de Jesus evocava.
O que o legado de 2019 dizia sobre o futuro que não veio
A passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo entre 2019 e 2020 permanece como referência obrigatória no debate sobre o futebol brasileiro. Foram 36 vitórias em 52 jogos, com aproveitamento de aproximadamente 69%, além do título do Brasileirão de 2019 com 90 pontos — recorde da era dos pontos corridos — e o Campeonato Carioca de 2020. Esses números explicam por que torcedores de Vasco, Corinthians e São Paulo, rivais históricos do Flamengo, chegaram a pedir o nome do técnico português para a Seleção.
Jesus chegou ao Flamengo em junho de 2019 e transformou um elenco que já tinha qualidade individual em uma máquina coletiva, com pressing alto e transições velozes. A pergunta que os especialistas fazem desde então é se esse modelo poderia ser replicado numa seleção que, por natureza, tem tempo de trabalho reduzido. Ele mesmo nunca fechou essa porta.
"Ainda houve uma reunião para que ele fosse para a seleção após a realização do Mundial, porém o negócio não foi fechado", confirmou Jesus, descrevendo a segunda tentativa frustrada de concretizar o acordo com a CBF.
Hoje, com 71 anos, Jorge Jesus segue no Al-Nassr enquanto o Brasil se prepara para a Copa do Mundo de 2026 sob o comando de Carlo Ancelotti. A história com a CBF ficou em 71 palavras numa coluna de jornal e num número que resume tudo: zero — as vezes em que o acordo chegou perto o suficiente de ser assinado antes que a política interna da confederação desfizesse o caminho.









