Confesso: eu errei em 2024 quando escrevi que a CBF havia finalmente aprendido a planejar ciclos de Copa. Os números que emergem agora, após a eliminação nas oitavas de final para a Noruega, provam o contrário — e Jorginho, tetracampeão em 1994, disse em voz alta o que muitos analistas evitaram dizer por anos.

O que Jorginho disse sobre os jogadores e a dor que não apareceu

Em entrevista ao Globo Esporte, o ex-lateral foi direto ao ponto sobre o comportamento dos atletas nos dias seguintes à derrota. A crítica não foi sobre futebol, foi sobre atitude.

"Tivemos muitos jogadores focados, que choraram, mas ainda sinto falta deles sentirem a dor da derrota. Não que não sintam, mas expressar isso com atitude... Parece que nada aconteceu. Três dias depois, alguns jogadores como se nada tivesse acontecido. O cara tem direito a férias. Tem que aproveitar, mas não precisa postar bosta nenhuma, não tem que postar nada. Porque está todo mundo injuriado, todo mundo chateado. Não tem nem como sorrir num momento desse. E parece que não dói. Isso revolta a minha geração, revolta bastante a gente."

A declaração reacende um debate que o futebol brasileiro arrasta há pelo menos duas gerações: a distância entre o peso institucional de uma Copa do Mundo e a percepção individual de parte dos atletas sobre o que significa essa derrota. Jorginho, que disputou os Mundiais de 1990 e 1994, sabe o que é carregar esse fardo — e cobra que os atuais jogadores demonstrem o mesmo.

A falência dos laterais brasileiros e o que os dados revelam

Além da postura comportamental, o ex-jogador apontou uma lacuna técnica específica: a falta de laterais com vocação ofensiva. Elogiou a solidez defensiva de Douglas e Danilo, mas registrou que os dois criaram muito pouco ao longo da campanha.

"Espero de coração que apareçam grandes laterais, porque a forma como os nossos laterais jogaram... O Douglas muito seguro, o Danilo também muito seguro na marcação. Mas, infelizmente eles criaram muito pouco."

O diagnóstico tem respaldo estatístico. Nas últimas três edições da Copa do Mundo — 2018, 2022 e 2026 — os laterais brasileiros somaram coletivamente menos assistências do que os laterais da Espanha e da França em cada torneio individual. Em 2026, Douglas e Danilo registraram juntos zero assistências em quatro partidas disputadas pela Seleção. Para efeito de comparação, Cafu e Roberto Carlos somaram seis assistências diretas nas edições de 1994 e 2002 combinadas. A regressão é estrutural, não conjuntural.

Jorginho ainda mencionou Wesley como o lateral com perfil mais próximo da tradição brasileira na posição — mais dinâmico, com tendência ao ataque —, mas o jovem foi cortado por lesão antes do início do torneio. A ausência de Wesley não é apenas uma perda pontual: ela expõe a fragilidade de um sistema de formação que não gerou alternativas equivalentes.

O ciclo 2022-2026 da CBF e a conta que não fechou

Para Jorginho, a raiz do problema não está no gramado — está na gestão. O ex-lateral atribuiu a campanha decepcionante à instabilidade institucional da CBF e ao mau planejamento do ciclo entre as Copas de 2022 e 2026. Foram quatro anos marcados por trocas de comissão técnica, disputas internas por poder e ausência de uma metodologia clara de desenvolvimento de base conectada à Seleção principal.

O Brasil entrou na Copa de 2026 sem ter disputado uma semifinal de Copa do Mundo desde 2002 — 24 anos de jejum nas rodadas decisivas. Nos últimos três Mundiais, a Seleção caiu nas quartas em 2018, nas quartas em 2022 e agora nas oitavas em 2026, configurando uma curva de regressão objetiva. Nenhum outro país entre os dez mais bem ranqueados pela FIFA apresentou trajetória descendente tão consistente no mesmo período.

A defesa de Neymar para a Copa de 2030 também fez parte da análise de Jorginho, mas com condicionantes claros. O tetracampeão argumentou que o atacante ainda pode contribuir no próximo ciclo, desde que priorize a preparação física e evite distrações — citando, nominalmente, o Carnaval como exemplo do tipo de agenda incompatível com a exigência de um atleta de alto rendimento em ano de Copa. Em 2030, Neymar terá 38 anos, a mesma idade com que Romário disputou sua última Copa do Mundo, em 1998.

O debate sobre o próximo ciclo começa agora, com a CBF precisando definir até o fim de 2026 o novo comando técnico e a linha metodológica para as categorias de base. A Copa de 2030 está a 1.278 dias de distância.