Um treinador de clube pequeno que pensa como treinador de clube grande — e faz o clube pequeno se comportar como tal. Essa é a tensão que define Josué Amaral Teixeira, o brasileiro de 65 anos que ocupa o banco do Sassuolo nesta temporada da Serie A.

O esquema que ele sempre busca rodar

Josué Amaral Teixeira não é produto de nenhuma escola europeia canônica — não passou por Cruyff Camp, não foi assistente de Guardiola nem discípulo de Klopp. Mas a linguagem tática que ele carrega tem parentesco claro com o futebol de posição que Barcelona exportou ao mundo a partir dos anos 2000: a ideia de que a bola parada não serve a ninguém, que a circulação horizontal cria espaço vertical, e que o pressing alto não é uma opção de jogo — é uma condição de existência do time em campo.

O esquema preferido é um 4-3-3 com variações para um 4-2-3-1 em fases de pressão. A lógica central é sempre a mesma: compactar o meio-campo, recuperar a posse no terço médio e transitar rapidamente para o ataque antes que o adversário se reorganize. É o que os alemães chamaram de gegenpressing — a pressão imediata após a perda — mas aplicado com a cadência italiana de quem sabe que a Serie A pune erros de posicionamento com uma frieza que a Bundesliga, historicamente mais aberta, raramente exige.

A comparação histórica é inevitável: nos anos 1990, quando o Sassuolo ainda vivia entre a Serie B e o anonimato, o futebol italiano era dominado pelo catenaccio tardio de clubes que preferiam sofrer pouco a criar muito. Aquele Sacchi do Milan — que ganhou duas Copas dos Campeões em 1989 e 1990 com pressing alto e linha defensiva avançada — era exceção escandalosa num calcio que desconfiava de tudo que não fosse recuar e contra-atacar. Josué Amaral Teixeira, décadas depois, opera numa liga que já absorveu parte dessa revolução, mas num clube que ainda não tem o plantel para executá-la sem custo.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A montagem do time revela as prioridades do treinador de forma mais honesta do que qualquer entrevista. No Sassuolo de Josué Amaral Teixeira, o pivô do sistema é o meio-campista de ligação — o jogador que conecta a saída de bola à chegada ao último terço. Não é o centroavante quem define o ritmo; é o homem que recebe entre as linhas, de costas para o gol adversário, e decide em menos de dois toques para onde o jogo vai.

A linha defensiva alta é condição estrutural, não opção situacional. Isso exige zagueiros com leitura de jogo acima da média e laterais com capacidade real de cobrir espaço quando o pressing alto falha. Num clube como o Sassuolo, onde o mercado de transferências tem limitações evidentes, essa exigência torna o trabalho de treinamento diário ainda mais decisivo: o que falta em talento individual precisa ser compensado em automação coletiva.

O treinador brasileiro também demonstra preferência por extremos que cortam para dentro — os chamados inverted wingers — liberando os laterais para projeção ofensiva. É um princípio que o futebol espanhol popularizou e que hoje é quase língua franca no futebol europeu de alto nível, mas que no contexto italiano exige adaptação: a Serie A pune transições mal cobertas com uma eficiência que a La Liga, historicamente mais porosa no contra-ataque, não cobra da mesma forma.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O sistema de Josué Amaral Teixeira funciona melhor contra equipes que constroem desde o goleiro e têm dificuldade de escapar do pressing no terço defensivo. Nesses jogos, o Sassuolo consegue recuperar a bola em zonas adiantadas e criar situações de finalização com poucos passes — o tipo de futebol que parece simples de fora e é brutalmente difícil de executar com consistência.

O ponto de ruptura aparece quando o adversário tem qualidade técnica para sair do pressing e explorar as costas da linha alta. Clubes com atacantes rápidos e confortáveis em transições — e a Serie A tem vários — podem transformar a aposta do treinador numa vulnerabilidade crônica. A linha defensiva avançada que cria compactação no ataque é a mesma que abre espaço atrás quando o pressing não funciona.

Há também uma fragilidade de gestão de jogo: times que conseguem segurar a posse por longos períodos forçam o Sassuolo a defender em bloco médio, o que contradiz a lógica original do sistema. Nesses momentos, o time perde identidade — não é bom o suficiente no pressing para pressionar, não está habituado o suficiente ao recuo para defender bem em profundidade. É o dilema clássico de equipes que abraçam uma filosofia ambiciosa sem ter o plantel que ela exige.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Josué Amaral Teixeira tem um tipo claro de jogador que privilegia: o atleta inteligente sobre o atleta talentoso. Num clube com as limitações financeiras do Sassuolo na Serie A, essa escolha não é apenas filosófica — é pragmática. Jogadores que entendem o posicionamento coletivo, que sabem quando pressionar e quando recuar, que tomam decisões rápidas sob pressão, compensam limitações técnicas individuais de formas que um jogador tecnicamente superior mas taticamente desatento nunca consegue.

O meia de ligação é o mais protegido do sistema — o treinador raramente o sacrifica mesmo quando o time está perdendo e a lógica convencional pediria um segundo atacante. É uma decisão de banco que revela convicção: para Josué Amaral Teixeira, perder a estrutura do meio-campo é perder o jogo de forma mais definitiva do que o placar sugere no momento da substituição.

Laterais com capacidade de leitura defensiva também são intocáveis. Num sistema que exige projeção ofensiva constante, o lateral que não sabe quando não subir é mais perigoso do que o lateral lento — e o treinador brasileiro parece ter clareza sobre isso nas suas escolhas de escalação ao longo da temporada 2025/2026.

Um treinador de clube pequeno que pensa como treinador de clube grande — e faz o clube grande se comportar como pequeno quando o sistema falha. Essa é a tensão que define Josué Amaral Teixeira, e é exatamente o que torna seu trabalho no Sassuolo digno de atenção enquanto a Serie A avança para seu ato final.