"Fizemos a estratégia correta, e ela nos deu condições de estar na frente no placar e fazer até o 3 a 1." A frase é de Rogério Ceni, dita na coletiva pós-jogo no Mangueirão, em Belém, após o Bahia ser eliminado pelo Remo por 2 a 1 na quinta fase da Copa do Brasil. Quem perdeu para um clube paraense acostumado a brigar pela Série C, não para a elite do futebol nacional, dificilmente defende uma estratégia como correta — mas Ceni defendeu, com convicção e sem hesitar.
A eliminação que não veio do nada
O resultado de 2 a 1 no Estádio Mangueirão não foi surpresa para quem acompanhou a curva descendente do Bahia nas semanas anteriores. Desde uma derrota na Fonte Nova que já havia acendido o sinal de alerta, o clube baiano não conseguiu apresentar reação consistente. O Remo, time com histórico recente fora da Série A, precisou de pouco mais do que organização mínima para avançar. O Bahia criou, desperdiçou e cedeu gols de maneira que o próprio treinador classificou como "fácil" — e esse adjetivo, saindo da boca de quem escalou a equipe, é revelador.
A torcida tricolor reagiu nas redes sociais com pedidos de demissão imediata. Não se trata de reação emocional isolada: o padrão de jogo apresentado em Belém representou a síntese de um problema que o SportNavo tem monitorado ao longo da temporada — um elenco mal aproveitado, com escolhas táticas que contradizem o perfil dos atletas disponíveis.
Luciano Juba na zaga e o Frankenstein tático de Ceni
O epicentro das críticas foi a escalação de Luciano Juba como terceiro zagueiro. Artilheiro do Bahia na temporada com 8 gols, Juba havia balançado a rede em três jogos consecutivos antes da partida contra o Remo. Além disso, o lateral-esquerdo integrava a lista dos 55 pré-convocados da Seleção Brasileira — um indicativo de que seu valor está longe da função de marcador posicionado na linha defensiva.
Ceni justificou a decisão afirmando que os gols de Juba são majoritariamente de bola parada e que a opção visava fortalecer a construção ofensiva na saída de bola.
"O Juba é, de fato, o artilheiro, mas os gols que ele faz são de pênalti, faltas e bolas paradas; a maioria dos seus gols é feita nessas situações. A opção por Juba na construção foi para tentar competir com o setor ofensivo deles", explicou o treinador.O argumento ignora um ponto central: mesmo que os gols de Juba venham de bola parada, retirá-lo da área adversária elimina exatamente a ameaça que ele representa nessas situações.
O resultado prático foi desastroso. Juba jogou 80 minutos recuado, enquanto o meio-campo ficou inoperante com Jean Lucas e Everton Ribeiro apagados. O lateral Iago Borduchi, contratação do Grupo City questionada desde o início, atuou como ala pela esquerda e completou apenas 12 ações com a bola no primeiro tempo — quase todas passes horizontais. Os zagueiros David Duarte e Marcos Victor tentaram atuar como armadores. A estrutura de jogo colapsou.
O histórico de Ceni e um padrão que se repete
Rogério Ceni acumula passagens como técnico por Fortaleza, Flamengo, São Paulo e agora Bahia. A demissão do São Paulo aconteceu em julho de 2023, após resultados ruins no Brasileirão. Na saída, o treinador publicou um comunicado público com um pedido de desculpas à torcida:
"Desculpem-me se falhei, mas o que me moveu nesse projeto foram os riscos para conquistar a glória", escreveu Ceni à época. A frase carrega uma lógica que o treinador repete em Belém: a estratégia era ousada, o risco era calculado, os resultados não vieram.
O problema é que a repetição desse padrão — arriscar, falhar, justificar — começa a definir a identidade do treinador. No Bahia, Ceni chegou com capital político alto após as campanhas do Fortaleza e a passagem pelo Flamengo, onde conquistou o Brasileirão de 2020. Mas o material humano que recebeu em 2026 é reconhecidamente limitado em profundidade de elenco, e as escolhas táticas têm amplificado as deficiências em vez de compensá-las.
O que vem pela frente e a pressão que não para
Com a eliminação na Copa do Brasil, o Bahia perde uma fonte relevante de receita e exposição. A competição distribui premiações progressivas por fase — a saída na quinta fase representa um impacto financeiro direto para um clube cujo orçamento é administrado pelo Grupo City, que também é alvo de críticas da torcida pelas contratações desta janela, com destaque negativo para Iago Borduchi e Kike Olivera.

A pressão sobre Ceni é real e tem endereço: a diretoria do Bahia precisa decidir se mantém o treinador para o restante do Brasileirão 2026 ou se uma troca agora ainda permite tempo hábil para recuperação na tabela. O clube baiano volta a campo pelo Campeonato Brasileiro no próximo fim de semana, e uma eventual derrota deve tornar insustentável a permanência do técnico. A definição sobre o futuro de Rogério Ceni no Bahia deve ser tomada até o final de maio de 2026.









