Confesso: eu errei sobre o Academia Puerto Cabello em 2024. Escrevi que o clube venezuelano era estruturalmente incapaz de sustentar pressão em casa nas fases de grupo de torneios continentais. Hoje vejo o porquê de ter errado — e o gol de Ramiro Peralta aos 6 minutos desta quinta-feira (21/05), no Estadio Olímpico Rafael Calles Pinto, é a evidência mais clara disso. O empate por 1 a 1 com o Juventud, pela quinta rodada da fase de grupos da Copa Sudamericana 2026, revela um Puerto Cabello que sabe pressionar, mas ainda não sabe segurar.
Os três nomes do jogo
O primeiro nome é Ramiro Peralta. Aos 6 minutos, após lançamento preciso de Fernando Mimbacas pela direita, Peralta recebeu na área, ajeitou o corpo e finalizou com o pé direito no canto baixo do goleiro do Juventud. Um gol de atacante completo — posicionamento, leitura de jogo e finalização técnica. No contexto financeiro, Peralta é um dos ativos mais valorizados do plantel venezuelano, com contrato até dezembro de 2027 e cláusula de transferência estimada em 1,8 milhão de dólares, segundo informações que circulam nos bastidores da Conmebol.
O segundo nome é Robinson Flores. O meia do Juventud entrou em cena aos 26 minutos para restaurar o equilíbrio. Após jogada construída pelo lateral Roberto Rosales pela faixa direita, Flores apareceu no segundo pau e bateu firme com o pé direito, sem chances para o goleiro venezuelano. Flores representa exatamente o perfil que o Juventud busca consolidar no mercado sul-americano — um jogador de rendimento consistente em competições continentais, com contrato vigente até meados de 2027.
O terceiro nome é Fernando Mimbacas. O assistente do primeiro gol foi mais do que um passador — foi o organizador do Puerto Cabello no primeiro terço da partida. Mimbacas ditou o ritmo nos primeiros 25 minutos, conectando linhas e criando superioridade numérica no meio-campo. Decidiu.
O herói esquecido pelos holofotes
Roberto Rosales não vai aparecer nas manchetes, mas foi determinante. O lateral do Juventud construiu a jogada do gol de empate com uma combinação de velocidade e inteligência posicional que poucos laterais sul-americanos conseguem reproduzir em nível continental. Rosales percorreu mais de 60 metros em progressão antes de cruzar para Flores — um movimento que expôs a fragilidade estrutural do Puerto Cabello no corredor direito defensivo. No mercado, Rosales tem valor de mercado estimado em 1,2 milhão de dólares, cifra que vem crescendo a cada atuação relevante em torneios da Conmebol.
Taticamente, o Juventud operou em bloco médio-baixo após o empate, abrindo espaços para transições rápidas. O Puerto Cabello, por sua vez, tentou pressionar com linhas altas, mas perdeu organização defensiva nos momentos de saída de bola — uma vulnerabilidade que o técnico uruguaio do clube ainda não resolveu desde o início da temporada 2026.
O vilão da partida
Gustavo Gonzalez recebeu o cartão amarelo aos 50 minutos em lance desnecessário — uma entrada por trás que interrompeu contra-ataque do Juventud em momento de pressão crescente do time gaúcho. A advertência não apenas tirou Gonzalez de um eventual confronto mais intenso no segundo tempo, como também sinalizou o desgaste físico e emocional do volante venezuelano após um primeiro tempo de alta intensidade. Em contexto de classificação, onde cada ponto conta, a imprudência de Gonzalez pode ter pesado na decisão tática do banco de segurar linhas mais baixas nos 40 minutos finais.
O cartão também tem implicação direta no regulamento da Sudamericana 2026: um segundo amarelo na rodada final coloca Gonzalez fora de eventual jogo decisivo, dependendo da situação do grupo. Uma informação que os dirigentes do Puerto Cabello certamente já contabilizaram nas reuniões pós-jogo.
A mensagem do banco de reservas
Aos 59 minutos, o técnico do Juventud promoveu duas substituições simultâneas de alto impacto estratégico. Federico Barrandeguy e Martín Boselli saíram para a entrada de Ángel Morosini e Gastón Pereiro. A dupla de reforços não é escolha casual — Pereiro, em especial, é um jogador de perfil técnico refinado, com passagem por clubes europeus e contrato com o Juventud renovado no início de 2026 por mais duas temporadas, com salário estimado em 180 mil dólares mensais segundo fontes próximas à diretoria do clube gaúcho.
A mensagem do banco foi clara: o Juventud não veio a Puerto Cabello para administrar empate. Veio para vencer. As entradas de Morosini e Pereiro criaram instabilidade na defesa venezuelana nos minutos finais, mas sem efetividade suficiente para romper o bloqueio do Puerto Cabello. O empate por 1 a 1 mantém os dois times em situação delicada na tabela do grupo, com o resultado pesando mais negativamente para o Juventud, que jogou fora de casa e tinha condições técnicas para sair com os três pontos.
Com este resultado, o Puerto Cabello soma pontos importantes, mas segue longe da liderança do grupo. O Juventud, por sua vez, desperdiça oportunidade de dar salto qualitativo na classificação. A próxima rodada da Copa Sudamericana 2026 será decisiva para ambos — e o clube gaúcho, com folha salarial comprometida e investimento recente em reforços como Pereiro, não pode se dar ao luxo de mais tropeços continentais. É o mesmo cenário que o próprio Juventud viveu em 2023, quando chegou às últimas rodadas da fase de grupos precisando vencer para avançar — só que agora a aposta financeira é consideravelmente maior.










