Confesso: quando Harry Kane completou a temporada 2024/25 com 36 gols pela Bundesliga, pensei que o teto havia sido encontrado. Trinta e seis é um número extraordinário — coloca qualquer centroavante no panteão da competição — mas ainda ficava cinco gols aquém do recorde de Robert Lewandowski, os 41 tentos marcados em 2020/21. Errei o diagnóstico. O começo de 2025/26 me obrigou a revisar a análise com certa urgência.
Em apenas quatro rodadas, Kane já soma 5 gols — incluindo um hat-trick devastador contra o Hoffenheim na Rhein Neckar Arena, onde marcou de cabeça aos 43 minutos do primeiro tempo, converteu dois pênaltis e conduziu o Bayern a uma goleada de 4 a 1. O Bayern mantém 100% de aproveitamento na liga, 12 pontos em quatro jogos, liderança isolada. Não é um sprint de pré-temporada; é declaração de intenções.
A aritmética impiedosa de Müller e Lewandowski
Para entender o que Kane persegue, convém olhar os dois marcos que definem a história da artilharia na Bundesliga. Gerd Müller — o Bomber der Nation, como os alemães ainda chamam com reverência — marcou 40 gols na temporada 1971/72, um número que resistiu por quase meio século como símbolo de uma era em que o futebol alemão dominava o continente. Lewandowski, em 2020/21, superou esse recorde com 41 tentos, quebrando o que parecia uma barreira psicológica e histórica da competição. Reparemos no detalhe que torna esses números ainda mais impressionantes: Lewandowski precisou de apenas 29 partidas para chegar aos 41, uma média de 1,41 gols por jogo.
Kane terminou a temporada passada com 36 gols — melhor marca da sua carreira até então — numa cadência de aproximadamente 1,06 gols por partida. Para alcançar Lewandowski em 2025/26, o inglês precisaria sustentar algo próximo a 1,2 gols por jogo ao longo de toda a temporada. Com 5 gols em 4 partidas, a média atual está em 1,25. Matematicamente, o cenário existe. A questão é se o corpo e o calendário cooperam.
O que está em jogo nas próximas semanas para Kane
O Bayern segue invicto e Kane parece ter encontrado uma cumplicidade tática ainda mais refinada com o elenco bávaro. Contra o Cologne, por exemplo, marcou após um rebote criado por Eric Maxim Choupo-Moting — o tipo de gol que exige posicionamento quase instintivo, aquele striker's instinct que os ingleses descrevem como inato. O próprio Kane foi direto após a vitória por 1 a 0:
"Foi um jogo realmente bom para nós. Algumas pessoas olham o resultado e podem ter esperado um pouco mais. Mas foi uma performance fantástica de todos. Poderíamos ter marcado três gols só no primeiro tempo."
A fala revela algo além do óbvio: Kane enxerga margem de crescimento mesmo numa vitória sem sobressaltos. Esse tipo de autocrítica produtiva — característica dos grandes strikers de elite europeia, de Ronaldo Fenômeno a Thierry Henry — é o que diferencia um artilheiro consistente de um que se satisfaz com o suficiente. Na avaliação do SportNavo, essa mentalidade é precisamente o que torna a corrida pelo recorde mais crível do que parece à primeira vista.
Fatores que podem definir a corrida pelo recorde histórico
Há obstáculos reais. O calendário europeu de outubro e novembro é implacável para o Bayern — Champions League, Bundesliga e DFB-Pokal se acumulam em janelas comprimidas, e a gestão de carga física de um centroavante de 32 anos passa a ser variável crítica. Lewandowski, quando bateu o recorde em 2020/21, tinha 32 anos e operava num Bayern de Hansi Flick que funcionava como uma máquina de pressing alto, criando oportunidades em série a cada partida. O Bayern atual, sob orientação técnica renovada, apresenta um gegenpressing menos vertical, mas compensa com posse qualificada e triangulações no terço final — o que, para um finalizador da estirpe de Kane, pode ser igualmente produtivo.
Há também a questão das lesões. Kane chegou ao Bayern em 2023 com um histórico relativamente limpo, mas o desgaste acumulado de anos no Tottenham — clube que raramente poupou seus jogadores-chave — é um dado que qualquer análise séria precisa incorporar. Trinta e seis gols na temporada passada foram construídos sem interrupções significativas; manter esse nível físico por mais uma temporada completa representa o verdadeiro teste.
O que torna essa disputa fascinante, para quem viveu os estádios europeus de perto, é a dimensão histórica que ela carrega. Müller pertence a uma geração do futebol alemão que moldou o jogo moderno; Lewandowski é o produto mais refinado de uma escola polonesa de centroavantes que remonta ao socialismo real e às ligas do Leste Europeu. Kane, inglês formado nas academias do Tottenham, representa uma terceira tradição — mais física, mais direta, mas com uma inteligência posicional que o aproxima dos grandes number nines do continente. Três gerações, três estilos, um mesmo recorde.
O próximo grande teste para Kane e o Bayern chega já na sequência da Bundesliga, com o clube bávaro na liderança com 12 pontos e 100% de aproveitamento. Quem quiser acompanhar de perto a evolução dessa corrida ao recorde — e a disputa pelo topo da tabela com o Hoffenheim ainda na perseguição — vale marcar os jogos das próximas três rodadas no calendário: é nesse período que a consistência de Kane será medida contra adversários de maior porte.









