O silêncio que tomou o vestiário tcheco após o apito final em Guadalajara — 3 a 0 para o México, na noite de quarta-feira (24) — não era de surpresa. Era de reconhecimento. Aquela mesma sensação de inevitabilidade que já havia pousado sobre Hamburgo, em 22 de junho de 2006, quando a República Tcheca encerrava outra Copa do Mundo sem sair da fase de grupos. Vinte anos depois, o roteiro é perturbadoramente idêntico: dois gols marcados no torneio inteiro, um ponto conquistado, última colocada no grupo. O futebol tcheco voltou ao mesmo lugar de onde nunca saiu.
O que os números da campanha revelam sobre o colapso tcheco
A Copa do Mundo 2026 foi, para a República Tcheca, um exercício de mediocridade documentada. Três partidas no Grupo A: derrota para a Coreia do Sul, empate com a África do Sul — arrancado pelos africanos com pênalti nos acréscimos — e a goleada de 3 a 0 sofrida diante do México na rodada decisiva. O saldo de gols ficou negativo, e o único ponto veio de um empate que o próprio técnico Miroslav Koubek, de 74 anos, admitiu que não deveria ter acontecido da forma como aconteceu.
"Deveríamos ter conquistado mais pontos. Estávamos perto disso. O empate com a África do Sul foi decisivo, deixamos a vitória escapar com um pênalti infeliz. Isso acabou sendo crucial, o fato de termos apenas um ponto", lamentou Koubek.
Para contextualizar a dimensão do problema, basta recuar à Copa de 2006, na Alemanha — a última participação tcheca antes de 2026. Naquela edição, o time comandado por Karel Brückner tinha nomes de peso indiscutível: Petr Čech no gol, Pavel Nedvěd na meia e Jan Koller no ataque. Mesmo assim, caiu na fase de grupos com três pontos — melhor desempenho que o atual, diga-se — após empate com os Estados Unidos (3 a 0 a favor dos tchecos na estreia contra Gana, depois derrotas). A geração de 2026 não tem nenhum desses nomes, e o rendimento foi ainda pior. Vinte anos, zero evolução mensurável.
A classificação para o torneio já havia sido um sinal de alerta. Os tchecos só garantiram a vaga na repescagem europeia, após vencerem a Irlanda e a Dinamarca na disputa por pênaltis — modalidade que esconde limitações técnicas sob o verniz do drama. Quem chega a uma Copa pendurado em duas séries de cobranças raramente chega pronto para competir de igual para igual, conforme registrado pelo SportNavo durante o processo classificatório.
O que diz Koubek e o que os dados contradizem
Koubek assumiu o cargo apenas no final de 2025, disputou a repescagem, dois amistosos e a Copa — uma janela curtíssima para diagnosticar e corrigir um problema que é, na verdade, estrutural. Seu contrato vai até meados de 2028, período que inclui a próxima Eurocopa, e ele foi categórico ao descartar a saída: "Tenho um contrato. Nunca desisto de nada, não fujo de nenhuma luta". A postura é admirável em termos de caráter, mas o futebol cobra resultados, não persistência.
"Essa Copa mostrou que precisamos melhorar e contar com atletas mais competitivos, que saibam apresentar um bom desempenho nesse alto nível de uma Copa. Estou convencido que, depois de algumas mudanças, vamos melhorar nas próximas competições. Vou convocar jogadores melhores", afirmou o treinador.
A promessa de "convocar melhores" é, convenhamos, uma confissão disfarçada de plano. Koubek admite que os convocados para 2026 não tinham o nível exigido — o que levanta a pergunta óbvia: por que foram convocados? Há um ditado que se aplica aqui com precisão cirúrgica: quem não tem cão caça com gato. O problema tcheco não é de método de convocação, mas de escassez de talentos de alto nível nas gerações formadas nos últimos 15 anos. A liga doméstica, a Fortuna Liga, não exporta mais os perfis de Nedvěd ou Čech com a mesma frequência que nos anos 1990 e início dos 2000. Os jogadores que disputaram esta Copa atuam majoritariamente em ligas de médio porte europeu — Bélgica, Holanda, Turquia — sem o verniz de Champions League que os diferenciaria num torneio de alto nível.
O caminho para 2030 passa por reformas que Koubek não controla
O técnico tem razão em uma coisa: o processo importa. Mas processo sem matéria-prima é retórica. Para que a República Tcheca chegue ao ciclo de 2030 com alguma perspectiva real, três frentes precisam avançar simultaneamente. A primeira é a renovação geracional nas categorias de base — o país tem uma federação (FAČR) que investe em metodologia, mas os resultados nas competições sub-21 europeias dos últimos cinco anos não indicam uma safra de talentos à altura dos predecessores históricos. A segunda frente é a inserção dos jovens talentos em clubes de maior exigência competitiva — o modelo que funcionou com Čech no Chelsea ou Nedvěd na Juventus precisa se repetir com a nova geração. A terceira, e mais difícil, é cultural: a seleção tcheca perdeu o status de potência respeitada que tinha entre 1996 e 2006, quando chegou à final da Eurocopa de 1996 e às quartas de final de 2004.
Koubek terá pela frente, no segundo semestre de 2026, a Liga das Nações — competição que, por seu formato de promoção e rebaixamento entre divisões, oferece tanto o risco do vexame quanto a oportunidade de reconstrução de identidade. Será o primeiro termômetro real de quanto a promessa de renovação do elenco se traduz em resultado. O treinador ainda manifestou esperança de disputar a Copa de 2030: "Espero disputar mais uma Copa", disse. Para isso acontecer, a República Tcheca precisará atravessar uma Eurocopa 2028 competitiva — e a janela de qualificação começa já em março de 2027.
Para o torcedor tcheco e para quem acompanha o futebol europeu com atenção histórica, a agenda da Liga das Nações no segundo semestre de 2026 é o momento de verificar se Koubek realmente muda o perfil do elenco ou se repete as mesmas escolhas com um discurso diferente. Vale acompanhar de perto.








