Perdeu. Kalidou Koulibaly saiu de campo no MetLife Stadium, em Nova Jersey, com a derrota por 3 a 1 para a França no Grupo I impressa no placar — mas foi na zona mista que o capitão senegalês fez sua declaração mais contundente da noite de 16 de junho. Não sobre futebol. Sobre a ausência do seu povo nas arquibancadas.
O que Koulibaly disse e o que isso representa para Senegal
Em entrevista ao portal The Athletic, Koulibaly reconheceu que a federação senegalesa mobilizou esforços para garantir a presença de pais e familiares próximos dos atletas em solo americano. O problema é que o esforço não chegou ao torcedor comum.
"A federação fez o possível para que nossos pais ou familiares próximos pudessem estar conosco, mas é verdade que alguns torcedores não puderam viajar para os Estados Unidos", disse o zagueiro, camisa 3 dos Leões da Teranga.
A frase seguinte resume o peso político do momento, mesmo que Koulibaly tenha declarado não querer "falar sobre política":
"Acho que todas as seleções podem ter seus representantes, então eu não entendo porque a África não pode ter seu povo nos Estados Unidos."

A afirmação carrega uma precisão sociológica que vai além da frustração esportiva. Koulibaly não fala de um indivíduo barrado. Fala de uma coletividade silenciada nas arquibancadas de um torneio que, segundo dados da Copa do Mundo, movimenta bilhões de dólares em receita de hospitalidade e turismo — receita que agora flui de forma desigual, beneficiando países sem restrições.
A proclamação de Trump e os quatro países da Copa afetados pelo veto
Em dezembro de 2025, o presidente Donald Trump assinou uma proclamação que estabeleceu veto total ou suspensão fracionada de viagem para um conjunto de nações. Entre os países participantes da Copa do Mundo, quatro foram diretamente atingidos: Senegal, Costa do Marfim, Irã e Haiti. A medida usa como argumento central o risco de imigração ilegal por meio de vistos B1/B2 — exatamente o tipo de visto necessário para acompanhar o torneio como torcedor.
A lógica da proclamação previu isenções para atletas, equipes de apoio e familiares diretos dos envolvidos na competição — um recorte que protege o espetáculo sem abrir as portas para o público. A distinção é reveladora: o atleta tem valor de mercado imediato para a Fifa e para as emissoras de televisão; o torcedor, não. Conforme registrado pelo SportNavo em acompanhamento ao torneio, a lista completa de países com veto de viagem vai além das quatro seleções classificadas, incluindo Afeganistão, Mianmar, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial e Eritreia, entre outros.
A Costa do Marfim, assim como o Senegal, enfrenta restrições parciais — o que na prática significa que o processo de emissão de vistos se torna imprevisível e, para muitos torcedores, inviável. O Irã e o Haiti, por sua vez, estão sob veto mais rígido, o que praticamente eliminou a possibilidade de presença de suas torcidas organizadas.
O impacto estrutural na atmosfera do torneio e na imagem dos EUA como anfitrião
Copas do Mundo constroem sua identidade visual e emocional a partir da diversidade das torcidas. A ausência de grupos nacionais específicos nas arquibancadas não é apenas um dado de gestão de público — é uma ruptura no argumento de universalidade que a Fifa vende aos patrocinadores. Empresas como Adidas, Coca-Cola e Visa investem centenas de milhões de dólares em associações com o torneio exatamente porque ele representa alcance global. Torcidas barradas fragilizam esse argumento.
Há ainda uma dimensão de política internacional que transcende o esporte. Os EUA co-sediam a Copa do Mundo com Canadá e México — nações com políticas de imigração distintas das americanas. O fato de que torcedores senegaleses ou marfinenses podem, em tese, cruzar a fronteira terrestre para assistir a jogos realizados no Canadá enquanto estão impedidos de entrar nos EUA cria uma assimetria institucional que expõe as contradições do acordo de co-sede.
A pergunta que fica sem resposta oficial é sobre o papel da Fifa nesse processo. A entidade encaixou os EUA como sede principal do torneio em 2026 sabendo das políticas migratórias de Trump — o veto de viagem começou a ser implementado em julho de 2025, meses antes da proclamação de dezembro. A Fifa não tem, até agora, mecanismo público de compensação ou pressão formal sobre o governo americano em relação à exclusão de torcedores.
Senegal ainda tem dois jogos pela frente no Grupo I: enfrenta a Noruega na segunda-feira, dia 22 de junho, às 21h (horário de Brasília), e o Iraque no dia 26, às 16h. Koulibaly e seus companheiros jogarão, como o próprio capitão disse, "pelo seu povo" — um povo que, em grande parte, assiste de casa — a Copa está nas telas, mas o estádio ficou fechado.












