Cresceu. Não em linha reta, não sem atrito — cresceu como crescem os jogadores que precisam cruzar fronteiras antes de entender o próprio tamanho. Dejan Kulusevski, 26 anos, camisa 21 do Tottenham, está vivendo nesta temporada 2025/2026 o capítulo mais denso da sua carreira: 36 jogos, 8 gols e 3 assistências numa campanha que colocou os Spurs de volta nas noites da Champions League — e colocou o sueco no centro de uma conversa que o futebol europeu ainda não terminou de ter.

Onde ele está no jogo global

Londres não é Estocolmo. Não é Bergamo, não é Turin. Londres é barulho constante, pressão de imprensa sete dias por semana e a exigência de ser relevante toda rodada. Kulusevski chegou ao Tottenham em janeiro de 2022, emprestado pela Juventus por €10 milhões, com uma opção de compra que se tornaria obrigatória — €35 milhões adicionais — caso certas condições fossem cumpridas. Foram. O sueco ficou. E ficou porque, desde a primeira temporada, entregou o que poucos meias da Premier League conseguem: consistência técnica aliada a presença física. Com 186 centímetros e 80 quilos, ele não é um meia que some quando o jogo fica físico.

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Nesta temporada, operando na Premier League e nas noites europeias, Kulusevski soma números que o colocam entre os meias mais produtivos do elenco londrino. Oito gols em 36 jogos, com três assistências, é uma linha de contribuição direta que poucos jogadores da sua posição no campeonato inglês superam com regularidade. O SportNavo mapeou que, entre os meias ofensivos que atuam em clubes da Premier League na Champions, a média de participações em gols por jogo dele está acima da maioria dos seus pares diretos nesta temporada.

O que os números dizem na comparação

Comparar meias europeus é sempre um exercício de contexto. O que para o argentino é o dez clássico de toque e visão — o Riquelme, o Aimar, a fantasia ao serviço da pausa —, para o sueco de ascendência macedônia é outra coisa: é velocidade de transição, é verticalidade, é a capacidade de jogar entre linhas sem perder o fôlego físico. Kulusevski não é um meia de posse. É um meia de ruptura. E isso muda tudo na hora de comparar.

Na temporada atual, com 8 gols em 36 partidas, ele marca um gol a cada 4,5 jogos em média — ritmo que rivaliza com meias ofensivos de clubes que disputam as mesmas fases europeias. Para efeito de comparação interna, sua primeira temporada completa pelo Tottenham já havia indicado esse potencial: cinco gols e contribuições defensivas que fizeram Antonio Conte transformar o empréstimo em compra definitiva. A trajetória de evolução, portanto, não é acidente — é padrão.

Onde ele se distingue dos rivais

A diferença de Kulusevski não está só no número final. Está no tipo de gol que ele marca. Está na frieza aos quatro minutos de partida — como no dia 19 de fevereiro de 2022, quando abriu o placar contra o Manchester City numa vitória por 3 a 2. Está na disposição de pressionar, de ir ao chão, de fazer o trabalho sujo que meias ofensivos de perfil mais técnico muitas vezes recusam.

Onde ele está no jogo global Kulusevski e os 8 gols que fazem o Totte
Onde ele está no jogo global Kulusevski e os 8 gols que fazem o Totte

Ele começou no IF Brommapojkarna aos seis anos, foi para a Atalanta aos 17, foi emprestado ao Parma e marcou seu primeiro gol na Serie A numa vitória por 3 a 2 contra o Torino. Depois veio a Juventus, a Supercopa da Itália em 2020, a Copa da Itália em 2020-21. Cada passo foi num ambiente diferente, com demandas táticas diferentes. Esse currículo de adaptação é o que o separa de rivais que passaram a carreira inteira num único estilo de jogo. Kulusevski sabe jogar em mais de um idioma tático — e isso, no futebol moderno de alta intensidade, é moeda rara.

A trajetória que aponta o teto

Nasceu em Estocolmo em 25 de abril de 2000, filho de família com raízes macedônias. Cresceu numa cidade onde o futebol não é religião nacional como no Brasil ou na Argentina — é escolha consciente, é projeto individual. Talvez seja isso que explique a seriedade com que Kulusevski trata cada fase da carreira: não há rede de apoio cultural enorme, não há país inteiro torcendo desde o berço. Há trabalho, há deslocamento, há a pressão silenciosa de quem sabe que errar caro não tem segunda chance garantida.

Aos 26 anos, ele está no ponto mais alto da curva de maturação para um meia ofensivo. Fisicamente completo, taticamente versátil, com passagem por três dos campeonatos mais exigentes da Europa — Serie A, Premier League e agora a Champions League em curso. O que os próximos doze meses reservam depende da ambição do clube, da continuidade do treinador e da saúde de um atleta que, até aqui nesta temporada, mostrou disponibilidade para 36 partidas. Se o Tottenham avançar nas fases eliminatórias da Champions, Kulusevski será peça central — não coadjuvante.

Há jogadores que o futebol demora a entender. Kulusevski foi um deles por algum tempo. Agora, a conta está aberta e os números falam. 26 anos. 36 jogos. 8 gols. Uma Champions League em aberto. O teto ainda não apareceu.