O maior artilheiro da Era Scaloni chegou ao Mundial de 2022 sem marcar um gol sequer no torneio. Lautaro Martínez, o mesmo que havia sido o principal goleador da Argentina nos anos que antecederam o Catar, saiu do Qatar sem balançar a rede em nenhuma das partidas da fase eliminatória — enquanto Julián Álvarez colecionava quatro gols e roubava o holofote. O paradoxo está resolvido agora: o homem que deveria ser o centroavante titular da campeã mundial foi, na verdade, o homem que aprendeu a esperar. E, quando voltou, voltou diferente.
O peso de uma Copa inteira em branco
O calor de Doha ainda queimava quando Lautaro deixou o gramado pela última vez no Catar. Ele havia convertido o pênalti decisivo contra a Holanda nas quartas de final — aquele chute rasteiro que fez a torcida argentina explodir — mas nos 90 minutos de jogo, em campo aberto, o gol não vinha. Scaloni percebeu a queda de rendimento já na segunda rodada da fase de grupos e foi gradualmente transferindo a responsabilidade ofensiva para Álvarez. O jovem de Calchín respondeu com quatro gols, incluindo dois na semifinal contra a Croácia — jogo do qual Lautaro nem sequer participou. A Argentina levantou a taça. Lautaro sorriu para a foto. Mas a ferida estava aberta.
Reparemos no detalhe: Lautaro chegou ao Catar como artilheiro absoluto da Era Scaloni, o nome que a Albiceleste havia construído durante anos como referência do ataque. Perder a titularidade não foi apenas uma decisão tática — foi uma declaração pública de que alguém havia chegado para disputar o trono. E Álvarez não apenas disputou. Ele venceu, pelo menos naquele torneio.
A Copa América 2024 como laboratório de reconstrução
Miami, junho de 2024. O Hard Rock Stadium recebia a Argentina numa Copa América que Lautaro encarou como missão pessoal. Ele próprio não escondeu o peso daquele momento. Após a vitória por 2 a 0 sobre o Peru, com dois gols seus, o atacante da Inter de Milão foi direto ao ponto no canal argentino TyC Sports:
"Estou feliz, porque pude marcar nos três jogos da fase de grupos e porque pude ajudar o time, que é o que importa. Fiz uma grande temporada no meu clube e me sentia pronto para me redimir do que foi a Copa do Mundo. Para mim isso era importante, me preparar bem para a Copa América e estou demonstrando isso."
A palavra "redimir" não foi escolhida por acaso. Lautaro terminou a Copa América 2024 como artilheiro do torneio, com quatro gols — o mesmo número que Álvarez havia marcado no Catar. A simetria era quase cirúrgica. Ele havia marcado no 2 a 0 sobre o Canadá, no 1 a 0 sobre o Chile e duas vezes contra o Peru. A confiança, que havia desaparecido sob as luzes do Oriente Médio, voltou sob o sol da Flórida.
A lesão de Álvarez e a chance que Lautaro não desperdiçou
A Copa do Mundo de 2026 começou com um capítulo de suspense. Julián Álvarez chegou ao torneio em fase de recuperação de uma lesão muscular, e Scaloni não teve escolha — ou melhor, não precisou fazer escolha nenhuma. Lautaro entrou como titular nos dois primeiros jogos do Grupo J, contra Argélia e Áustria, e passou em branco nas duas partidas. O fantasma do Catar parecia rondar o vestiário.
Mas na terceira rodada, no sábado 27 de junho, contra a Jordânia, o roteiro mudou. Uma cobrança de pênalti. Lautaro na marca. O goleiro adversário deslocado para o lado errado. A bola no fundo da rede. Primeiro gol em Copas do Mundo — depois de nove partidas disputadas entre os dois torneios. Com esse gol, o camisa 22 chegou a 38 tentos com a camisa da Argentina, se aproximando de Kun Agüero, que marcou 41 vezes e é o terceiro maior goleador da história da Albiceleste.
Quem perde, quem ganha e o que vem pela frente
O gol contra a Jordânia não é apenas estatística. Ele reorganiza a hierarquia ofensiva da Argentina num momento em que Álvarez ainda tenta recuperar o ritmo físico. Scaloni agora tem um problema bom: dois centroavantes de alto nível disputando uma vaga, e o que estava em desvantagem acabou de mostrar que não perdeu o faro de gol — perdeu apenas o timing, e o timing voltou.
Para a Jordânia, a derrota encerra a participação no torneio sem maiores surpresas. Para a Argentina, a vitória garante a classificação para o mata-mata com o moral reforçado por um detalhe que vai além dos três pontos: Lautaro Martínez está de volta ao lugar onde sempre deveria estar. A próxima fase revelará se ele consegue manter esse nível quando o adversário não se chama Jordânia — e as oitavas de final serão o teste real. Vale gravar o próximo jogo da Argentina.










