Diz-se que zagueiro que chega à Copa do Mundo com 32 anos já passou do seu melhor momento — que o palco maior da modalidade pertence aos jovens em ascensão. Na verdade, não é bem assim, e a trajetória de Lee Myung-Jae é um argumento concreto contra essa premissa.
O número que define a temporada
Uma partida. É o que Coreia do Sul registra para Lee Myung-Jae na Copa do Mundo até aqui — e esse único jogo carrega mais peso do que parece. Para um zagueiro que estreou pela seleção principal apenas em março de 2024, chegar ao torneio mais assistido do planeta em menos de dois anos e meio representa uma compressão de trajetória que poucos defensores sul-coreanos conseguiram.
Não é um número de gols que define Lee Myung-Jae nesta Copa — é o simples fato de estar lá. Aos 32 anos e com apenas alguns meses de seleção principal nas costas, o defensor de 181 cm representa um perfil que o futebol europeu dos anos 90 conhecia bem: o especialista tardio, aquele que chega ao topo depois de construir uma base sólida por anos longe dos holofotes.
Como ele chegou aqui
A história começa com humildade geográfica. Lee Myung-Jae passou anos no Daejeon Citizen, clube de médio porte da K League, antes de encontrar sua melhor versão no Ulsan Hyundai FC. Foi lá que o defensor se transformou em peça de elite: três títulos consecutivos da K League 1 — 2022, 2023 e 2024 — numa sequência de hegemonia que lembra, guardadas as proporções, o domínio do Lyon na Ligue 1 entre 2002 e 2008, quando a consistência coletiva elevava carreiras individuais que o mercado europeu demorava a notar.
Em 2021, antes dessa sequência, Lee também foi campeão da K League 2 pelo Gimcheon Sangmu — o clube ligado ao serviço militar sul-coreano, passagem obrigatória para muitos jogadores do país. Esse período, que poderia ter interrompido uma carreira, funcionou como laboratório: o defensor saiu de lá mais completo, e os números posteriores confirmaram isso. Nas temporadas de 2023 e 2024 pelo Ulsan, acumulou contribuições ofensivas notáveis para um zagueiro, com cinco assistências apenas em 2023 na K League 1.

A virada para o futebol inglês veio com o Birmingham City, onde Lee foi campeão da EFL League One em 2024-25 — divisão equivalente ao terceiro nível do futebol inglês. É uma conquista modesta em termos absolutos, mas que representa algo importante: a capacidade de se adaptar a um futebol de ritmo diferente, mais físico e direto, sem perder a consistência defensiva que lhe rendeu duas inclusões consecutivas na Melhor XI da K League 1, em 2024 e 2025.
O que o faz diferente dos pares
Zagueiros sul-coreanos de geração anterior — Kim Young-Gwon, Hong Jeong-Ho — chegaram à Copa do Mundo como pilares de defesas consolidadas, com anos de Europa nas costas. Lee Myung-Jae chega por outro caminho: pela excelência doméstica e por uma estreia internacional que foi diretamente ao ponto. Em outubro de 2024, nas eliminatórias contra o Iraque, ele não apenas cumpriu papel defensivo — engodou a marcação e cruzou para o gol de cabeça de Lee Jae-seong. Um zagueiro que cria jogadas de gol nas eliminatórias da Copa do Mundo não é um perfil comum.
Esse dado remete a uma categoria de defensor que o futebol italiano dos anos 90 ajudou a definir: o libero moderno, capaz de sair com a bola e participar da construção. Maldini nunca foi apenas um destruidor; Baresi ditava o ritmo do jogo. Lee Myung-Jae não está nessa prateleira de lendas, mas o instinto de participar do ataque — mesmo sendo convocado há menos de dois anos — sugere uma leitura de jogo acima da média para alguém que passou a maior parte da carreira longe do radar europeu.
Sua versatilidade entre zagueiro central e lateral-esquerdo também é um ativo real. No futebol de Copa do Mundo, onde lesões e suspensões redefinem escalações em 48 horas, um jogador que ocupa duas posições com competência é um recurso estratégico — não um curinga de emergência.
Os limites a vencer
A brevidade da experiência internacional é o ponto de tensão mais honesto da análise. Estrear pela seleção principal aos 30 anos — em março de 2024, contra a Tailândia — significa que Lee Myung-Jae chegou à Copa do Mundo com um histórico de seleção ainda em construção. Ao longo de sua carreira completa, acumula 120 jogos e 14 assistências, números que revelam consistência, mas a maior parte foi construída longe da pressão que um torneio desta magnitude impõe.
Há também a questão da idade. Aos 32 anos, Lee está no intervalo em que zagueiros costumam atingir o pico de leitura tática — Cannavaro ergueu a Copa do Mundo aos 32, em 2006 — mas também o intervalo em que o físico começa a cobrar pedágio em torneios com jogos a cada quatro ou cinco dias. A Copa do Mundo 2026, com seu formato expandido de 48 seleções, exige mais partidas do que qualquer edição anterior. Para um defensor que chegou ao torneio com apenas uma partida registrada nesta competição, o desafio físico e mental é real.
A passagem pelo Birmingham, clube em reconstrução no terceiro nível inglês, não forneceu o tipo de pressão que prepara um defensor para grandes palcos. Foram apenas três jogos na League One em 2024, antes da convocação para a seleção ganhar protagonismo. O salto de ritmo é considerável.
Se a Coreia do Sul avançar para as fases eliminatórias — e o grupo sul-coreano tem capacidade para isso — Lee Myung-Jae será testado contra atacantes de nível que a K League e a terceira divisão inglesa simplesmente não oferecem. Será que um jogo de Copa do Mundo é suficiente para sabermos se ele está pronto para ser titular absoluto quando o torneio entrar em sua fase decisiva?













