A última vez que o Palmeiras contratou um volante de alto custo vindo de um rival direto no mercado interno foi na janela de 2019, quando Abel Ferreira ainda nem havia chegado ao clube. Desde então, o perfil de montagem de elenco alviverde mudou radicalmente — e a declaração de Leila Pereira nesta terça-feira (26), na sede da CBF, durante o sorteio das oitavas da Copa do Brasil, é o retrato mais fiel dessa nova filosofia.

"O Danilo é um grande jogador, eu acho que não só o Palmeiras, como vários clubes querem esse atleta. Vou te falar com toda sinceridade, o meu foco hoje não é em contratação de jogadores. O meu foco hoje é em quinta-feira, eu gostaria de passar para a próxima fase, a Libertadores", declarou Leila Pereira.

O que a negativa de Leila revela sobre o Palmeiras em 2026

Há quem argumente que a recusa é uma cortina de fumaça — que presidentes negam negociações até o momento em que o contrato é assinado. O argumento tem fundamento histórico. Mas, no caso específico de Danilo, do Botafogo, a lógica operacional do Palmeiras joga contra a contratação, independentemente de qualquer declaração pública.

O volante de 23 anos é convocado pela Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026, está afastado do elenco principal do Botafogo enquanto se prepara para o torneio e, segundo o mercado, só deve ser negociado após o Mundial no Canadá, Estados Unidos e México. Isso significa que qualquer clube interessado precisaria esperar até julho ou agosto para fechar o negócio — e o Palmeiras, que disputa Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores simultaneamente, não pode planejar seu meio de campo em torno de uma incógnita.

"Minha vinda no Rio de Janeiro foi sábado, em virtude do jogo, que eu não fui ao Maracanã, mas eu estava aqui no Rio, em virtude da reunião ontem da liga, e hoje estou aqui com vocês no sorteio da Copa do Brasil. Não tem conversa nenhuma com o Botafogo", reforçou a presidente.

O Palmeiras não precisa de Danilo — e os números explicam por quê

Quando o Palmeiras vence, o faz com uma estrutura de meio-campo que depende menos de um volante de construção e mais de uma dupla de contenção com saída de bola distribuída. Abel Ferreira utilizou esse modelo em mais de 70% das partidas na temporada 2025/2026, com Aníbal Moreno como pivô defensivo e Richard Ríos como meia de ligação. Quando faz isso, o Palmeiras controla a posse e reduz a exposição defensiva. Quando perde Ríos por lesão ou suspensão, a equipe sente — o que indica que a prioridade real é ter um substituto imediato para o colombiano, não um concorrente de perfil semelhante ao dele.

Quando o Botafogo utiliza Danilo como titular, o jogador acumula médias de 7,3 duelos disputados e 89% de aproveitamento nos passes curtos por partida, segundo dados da temporada 2024 pelo Campeonato Brasileiro. Trata-se de um volante de alto rendimento, mas com perfil mais voltado à recuperação de bola do que à criação — exatamente a função que Moreno já ocupa no Palmeiras com consistência.

Quem sai ganhando com a recusa alviverde no mercado

A negativa do Palmeiras deixa o campo aberto para clubes europeus e para o próprio mercado sul-americano. Atlético de Madrid, Nottingham Forest e um clube da Saudi Pro League já foram apontados como interessados em Danilo nas últimas semanas. Com o Palmeiras fora da disputa, o Botafogo perde um potencial comprador nacional de peso, o que pode enfraquecer sua posição de negociação — os rivais europeus sabem que têm menos concorrência doméstica e tendem a pressionar o valor para baixo.

Para o Palmeiras, a janela pós-Copa do Mundo tem outros alvos no radar. A presidente mencionou que o foco institucional do clube está nas competições em curso, e fontes do mercado apontam que o clube busca um atacante de velocidade para o setor esquerdo — posição que ficou descoberta após a saída de Dudu em 2024 — e um lateral-direito com perfil mais ofensivo do que o atual titular. Essas são contratações que podem ser fechadas antes do Mundial, sem depender do calendário da Seleção.

O efeito cascata nas próximas semanas para o Botafogo

Com Danilo afastado do elenco principal e o Botafogo com 13 pontos no Brasileirão após as primeiras rodadas de 2026, o clube carioca enfrenta um dilema duplo: precisa performar sem sua principal peça de meio-campo e ainda precisa definir o futuro do jogador sem perder valor de mercado. A janela de transferências europeia abre em julho, e a pressão por uma decisão rápida aumenta a cada semana sem Danilo em campo. O Palmeiras, ao se retirar da disputa, acelerou involuntariamente esse processo.

O Verdão joga quinta-feira pela Libertadores — e Leila Pereira já deixou claro onde está a cabeça do clube agora. Danilo vai para a Copa do Mundo; o Palmeiras vai para o Allianz Parque.