A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, jogou uma bomba no tabuleiro político do futebol brasileiro na última sexta-feira (1º de maio): ela quer retirar o clube da Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e aguarda a consolidação da liga organizada pela CBF para definir os próximos passos. A declaração foi dada ao Palmeiras Cast e representa a ruptura mais explícita de um grande clube com o bloco desde sua fundação.

A decepção de quem acreditou no projeto

A Libra nasceu em 2022 de uma reunião em São Paulo entre dirigentes dos principais clubes do país, com a proposta ambiciosa de estruturar uma liga autônoma para gerir o Campeonato Brasileiro. O Palmeiras foi um dos signatários entusiastas daquele encontro. Quatro anos depois, a avaliação de Leila é de que o projeto desandou.

"O objetivo do Palmeiras é sair da Libra. Não é que o Palmeiras vá migrar para a FFU. Eu vou aguardar os próximos passos da futura liga organizada pela CBF. Porque, hoje, a Libra perdeu completamente o seu objetivo e a sua essência."

A dirigente também não poupou ironia ao lembrar as expectativas iniciais: "Achei que conseguiríamos organizar um campeonato juntos. Doce engano, doce ilusão." A frase resume bem o estado de espírito de quem participou de dezenas de reuniões que, segundo ela própria, raramente resultaram em decisões concretas.

O travamento de R$ 77 milhões e o colapso interno

Um episódio específico aprofundou as rachaduras dentro da Libra: em setembro de 2025, uma decisão judicial bloqueou o repasse de R$ 77 milhões referentes ao contrato de direitos de transmissão com a TV Globo — acordo que cobre o período de 2025 a 2029 e é considerado o principal ativo concreto negociado pelo bloco. O congelamento do valor gerou desconforto generalizado entre os clubes associados e expôs a fragilidade jurídica das estruturas criadas.

A decepção de quem acreditou no projeto Leila Pereira quer tirar Palmeiras da Li
A decepção de quem acreditou no projeto Leila Pereira quer tirar Palmeiras da Li

A apuração do SportNavo indica que, desde então, o clima nas reuniões da Libra deteriorou de forma acelerada. Leila confirmou que parou de frequentar os encontros: "Não suporto reunião em que não se decide absolutamente nada." A ausência da presidente de um dos clubes mais valiosos do Brasil — o Palmeiras foi avaliado em mais de R$ 3 bilhões em levantamentos recentes — equivale a um voto de desconfiança público e ruidoso.

Dois blocos, egos inflados e a CBF no centro do tabuleiro

O futebol brasileiro vive hoje a divisão entre dois grupos: a própria Libra, que reúne boa parte dos grandes clubes, e a FFU (Força do Futebol Unido), bloco rival. A possibilidade de reunificação foi descartada por Leila com frieza cirúrgica.

"É impossível, do jeito que está, os dois blocos se unirem novamente para organizar juntos um campeonato."

A presidente disparou ainda contra o comportamento de certos clubes nas negociações, sem citar nomes: "Tem clube se achando o Real Madrid das Américas." A frase, de alto teor político, funcionou como código para dirigentes que acompanham os bastidores — a disputa por fatias maiores dos contratos de TV é a principal fonte de atrito. Para Leila, a solução passa obrigatoriamente pela CBF. "Sem ela, não vai sair. Precisa da CBF, porque cada clube quer uma coisa diferente", avaliou.

O que esperar da liga da CBF e o prazo que o Palmeiras monitora

A entidade presidida por Ednaldo Rodrigues tem circulado, nos últimos meses, um modelo de liga nacional que prevê a participação tanto de clubes da Libra quanto da FFU sob um único guarda-chuva institucional. As negociações incluem discussões sobre distribuição de receitas, mecanismo de solidariedade para divisões inferiores e prazo de implementação — com 2027 apontado como horizonte mais realista para a estreia do novo formato. Conforme levantamento do SportNavo, o Palmeiras monitora atentamente esse calendário e só formalizará sua saída da Libra quando tiver garantias contratuais da nova estrutura, evitando o risco de ficar fora de qualquer bloco durante uma janela de negociação de direitos.

O Palmeiras joga no próximo domingo (4 de maio) contra o Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro 2026, no Allianz Parque — uma vitória manteria o clube na cola dos líderes da Série A. Mas fora de campo, o jogo político que Leila Pereira escolheu jogar tem consequências que vão muito além de três pontos: a posição do alviverde pode determinar o ritmo e o formato da nova liga que o futebol brasileiro tentará construir até o final deste ano.