A sala estava cheia de dirigentes da CBF, câmeras ligadas e microfones abertos. Foi nesse ambiente que Leila Pereira escolheu disparar. A dona da Crefisa e conselheira do Palmeiras não apenas defendeu Alexandre Mattos — ela transformou o patrocínio em moeda de pressão política dentro do próprio clube.
A narrativa que circulava no conselho do Palmeiras
Nos bastidores do Verdão, conselheiros ligados à velha guarda — entre eles nomes do entorno de Mustafá Contursi, padrinho político da própria Leila — vinham questionando a gestão de Mattos. O argumento era direto: erros de planejamento, poucos resultados em 2017 e gastos crescentes na profissionalização do futebol sem retorno imediato na tabela. Após cinco rodadas do Brasileirão, o time de Cuca acumulava apenas uma vitória.
A pressão interna ganhou tração justamente porque Mattos chegou ao Palmeiras em 2015 com currículo robusto: dois títulos brasileiros na bagagem, ambos conquistados pelo Cruzeiro — em 2013 e 2014. No Verdão, o vice do Paulistão e o título da Copa do Brasil não foram suficientes para silenciar os críticos quando o Brasileirão começou mal.
O peso financeiro por trás da defesa de Leila
A resposta de Leila não foi uma nota de apoio. Foi uma ameaça com valor de mercado embutido.
"Confio tanto nele, no presidente, na capacidade dele, que se ele sair do Palmeiras vou rever todo esse investimento que eu faço na aquisição de novos jogadores", declarou Leila ao canal Esporte Interativo.
Os números tornam a declaração concreta. A Crefisa pagou R$ 72 milhões em patrocínio ao Palmeiras em 2017 e R$ 78 milhões em 2018. Além do valor fixo de naming rights no uniforme, a instituição financiou operações de contratação naquela temporada: Alejandro Guerra, Miguel Borja, Fabiano, Juninho e Luan, mais a compra dos 50% restantes dos direitos econômicos de Dudu. Retirar esse suporte não seria apenas simbólico — seria um buraco de dezenas de milhões no orçamento do futebol alviverde.
"Acho um absurdo, uma falta de ética fazer estes comentários para desestabilizar. É uma injustiça monumental. O Mattos veio com dois títulos brasileiros na bagagem. Ele entrou, fomos vice do Paulista, ganhamos a Copa do Brasil. Depois vencemos o Brasileiro", completou Leila.
A referência ao Brasileirão de 2016 — primeiro título do Palmeiras na competição em 22 anos — é o argumento central de Leila. Mattos renovou contrato com o clube até o fim de 2018, coincidindo com o término do mandato do presidente Maurício Galiotte.
Leila cobra futebol e contradiz Abel Ferreira sobre arbitragem
A defesa de Mattos não foi a única declaração relevante da semana. No mesmo evento da CBF, Leila discordou publicamente do discurso de Abel Ferreira, que atribuiu o afastamento do Palmeiras na briga pelo título brasileiro a erros de arbitragem após derrota para o Grêmio.
Para o comentarista Rodrigo Mattos, do UOL, a fala da presidente foi uma cobrança direta por desempenho dentro de campo. "Ela fala: não foi arbitragem, então a gente precisa apresentar mais. Não apresentamos, deixamos esse campeonato meio que escapar das nossas mãos porque não estamos jogando bola", analisou o jornalista, que avaliou ser provável que Leila tenha conversado com Abel antes de fazer a declaração pública.
Walter Casagrande, também no UOL News Esporte, destacou a postura de Leila como diferenciada justamente por separar o apoio ao técnico da discordância com a narrativa que ele tentava construir.
"Ao mesmo tempo que ela fala que quer o Abel, ela discorda do Abel numa situação que ela tem total razão. O Abel tá tentando criar uma narrativa falsa", afirmou Casagrande.
Arnaldo Ribeiro reforçou o histórico de cobrança da presidente. Ao fim de 2016, Leila já havia sinalizado insatisfação com os resultados e aberto a carteira para reforços — avião, contratações de alto nível e estrutura profissionalizada. A frustração de 2017 segue o mesmo padrão: investimento feito, resultado abaixo do esperado, cobrança pública.
O contrato de Mattos vai até dezembro de 2018. A Crefisa mantém, por ora, R$ 78 milhões comprometidos com o uniforme alviverde nesta temporada. Qualquer movimento do conselho contra o diretor passa, agora, pela mesa de Leila Pereira — e ela deixou claro o preço da conta.








