— Você viu a escalação? Dois do Mengão na zaga!
— E ainda tem o Danilo e o Paquetá no banco.
— Ancelotti virou diretor de futebol do Flamengo ou quê?
A piada circulou nas mesas de bar antes mesmo das 18h30 desta domingo (31), quando a Seleção Brasileira entrou em campo no Maracanã para enfrentar o Panamá no primeiro dos dois amistosos preparatórios para a Copa do Mundo. Mas por trás do humor está um dado que merece análise séria: Léo Pereira e Alex Sandro, ambos do Flamengo, foram escalados como titulares por Carlo Ancelotti numa partida que serve de termômetro real para o Mundial.
A tese dominante — o Flamengo como celeiro natural da Seleção
A interpretação mais imediata é também a mais sedutora: o Flamengo voltou a ser o clube que mais alimenta a Seleção Brasileira, e isso reflete qualidade de elenco. Historicamente, essa leitura tem fundamento. Entre 1970 e 1982, o triângulo Zico–Júnior–Leandro garantiu ao clube carioca presença constante nas convocações. Júnior foi titular nas Copas de 1978 e 1982, enquanto Leandro era o lateral-direito titular em Espanha, onde o Brasil terminou em terceiro lugar com aproveitamento de 83,3% na fase de grupos (cinco vitórias e um empate em seis jogos). Em 2006, Ronaldinho Gaúcho era do Barcelona, mas Robinho, do Real Madrid, e Zé Roberto, do Bayern de Munique, dividiam espaço com Gilberto Silva, do Arsenal — nenhum clube brasileiro dominava a escalação. A concentração atual em torno do Flamengo, portanto, é estatisticamente atípica no futebol moderno.
Léo Pereira, 28 anos, consolidou-se como um dos zagueiros mais regulares do futebol brasileiro nos últimos dois anos. No Campeonato Brasileiro de 2025, disputou 32 partidas, sofreu apenas 27 gols quando em campo e liderou o setor defensivo do Flamengo em duelos ganhos por jogo (6,4 em média). Já Alex Sandro, 34 anos, retornou ao Brasil em 2024 após passagem de nove anos pela Juventus, onde conquistou oito Scudetti consecutivos entre 2015 e 2023. A temporada de readaptação ao futebol nacional foi irregular, mas o lateral-esquerdo reencontrou consistência física e tática ao longo de 2025, o que lhe reabriu as portas da Seleção.
A contra-leitura — titularidade por ausência, não por mérito absoluto
Há, contudo, uma leitura menos confortável para os torcedores rubro-negros. A escalação deste domingo carrega o peso de quatro desfalques relevantes: Neymar está fora por lesão na panturrilha; Marquinhos, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli disputaram a final da Champions League no último sábado (30) e foram preservados. Ou seja, o zagueiro titular do Arsenal e o capitão do PSG — os dois centrais de maior prestígio europeu no plantel — não estiveram disponíveis. Nesse contexto, a titularidade de Léo Pereira, embora merecida por desempenho doméstico, também é favorecida pela ausência dos concorrentes diretos.
O que para o argentino é uma questão de hierarquia cristalizada — Romero e Lisandro Martínez não abrem mão da titularidade independentemente do clube —, para o brasileiro é ainda uma disputa em aberto, onde o contexto da partida influencia tanto quanto o mérito individual. Ancelotti, que na Juventus e no Real Madrid sempre priorizou a estabilidade defensiva acima de qualquer narrativa clubística, não escalaria Léo Pereira por simpatia ao Flamengo. Mas tampouco se pode ignorar que, sem Marquinhos e Gabriel Magalhães, o técnico italiano teve o cardápio reduzido.
Nas palavras do próprio Ancelotti, segundo informações divulgadas antes do jogo, a ideia era usar o amistoso contra o Panamá para consolidar automatismos entre os jogadores que terão mais minutos no Mundial — o que sugere que Léo Pereira e Alex Sandro estão, de fato, no projeto, e não apenas tapando buracos pontuais.
A síntese — dois titulares reais num cenário de concorrência real
Pesar as duas leituras leva a uma conclusão mais equilibrada: Léo Pereira e Alex Sandro são titulares legítimos no atual ciclo de Ancelotti, mas operam num sistema de rodízio condicional que o próprio técnico italiano já utilizou no Real Madrid. Quando Militão e Alaba estavam disponíveis, Nacho e Vallejo raramente jogavam. Quando um dos dois caía, o substituto entrava sem perder qualidade. A Seleção parece caminhar para um modelo similar.
O banco deste domingo reforça essa tese. Danilo, também do Flamengo, e Lucas Paquetá estavam entre as opções — o que eleva para quatro o número de jogadores rubro-negros no grupo que Ancelotti considera para a Copa do Mundo. Somando os ex-flamenguistas Wesley (lateral-direito titular) e Vinicius Júnior (atacante titular), o clube carioca tem seis representantes diretos na espinha dorsal da Seleção, uma concentração que não se via desde o ciclo de 1982, quando Zico, Júnior, Leandro e Adílio formavam o núcleo da equipe de Telê Santana.
A diferença é que em 1982 o Flamengo era campeão mundial de clubes (dezembro de 1981, 3 a 0 sobre o Liverpool no Tóquio) e o melhor time do planeta naquele momento. Em 2026, o clube é o maior do Brasil em títulos recentes — três Brasileirões entre 2019 e 2023, duas Libertadores (2019 e 2022) —, mas a Seleção de Ancelotti não é construída em torno de um único clube. É construída em torno de funções táticas, e o Flamengo, por acaso ou por mérito, tem os jogadores que preenchem essas funções com mais consistência neste momento.
Após o amistoso contra o Panamá no Maracanã, o Brasil viaja para os Estados Unidos e enfrenta o Egito no próximo sábado (6 de junho) no último ensaio antes de estrear na Copa do Mundo. Será nessa partida que Ancelotti provavelmente testará combinações mais próximas do time que pretende usar no torneio — e aí saberemos se Léo Pereira e Alex Sandro entram na Copa como titulares absolutos ou como peças de rotação num sistema mais amplo. Até lá, como apurado em matéria do SportNavo, o que existe é uma convocação que confirma o Flamengo no centro do projeto, mas não necessariamente no topo da hierarquia.
Uma partitura de orquestra funciona assim: o primeiro violino lidera o naipe, mas é o maestro quem decide quando ele toca — e Ancelotti, ao longo de 40 anos de carreira, nunca deixou nenhum clube ditar o compasso.










