Todo mundo sabe que Leonardo Neves não voltou da água no domingo, 24. O que poucos perceberam, até que alguém foi checar o celular dele, é que ele havia deixado o aviso antes de entrar: nas redes sociais, minutos antes da bateria semifinal do Tríplice Coroa de Saquarema, o surfista escreveu que "o mar estava sinistro, tenebroso e parecia uma máquina de lavar". Publicou. Pegou a prancha. Entrou.
Léo Neves tinha 40 anos, era bicampeão brasileiro pelo circuito SuperSurf em 2002 e 2003, havia disputado a divisão de acesso do circuito mundial (World Qualifying Series) por 15 anos e chegado a surfar por duas temporadas entre os melhores do planeta. Carioca radicado em Saquarema, nos últimos anos ele se dedicava à formação de jovens atletas na região — incluindo o próprio filho, Valentin Neves.
O que os outros competidores viram na Praia da Itaúna
Segundo relatos de atletas que disputavam a mesma bateria, Léo pegou uma onda, retornou para o outside — a zona além da arrebentação, onde os surfistas aguardam as séries — e simplesmente sentou na prancha. Quando um novo conjunto de ondas chegou, ele não estava mais visível. A equipe de salvamento o resgatou alguns minutos depois e o trouxe até a beira da praia, mas os procedimentos de reanimação não surtiram efeito. O atleta havia ingerido muita água, o que os socorristas identificaram como fator determinante para a irreversibilidade do quadro.
A hipótese de mal súbito — colapso cardíaco ou similar — é a que circula entre os competidores e a imprensa especializada, embora laudos oficiais ainda não tenham sido divulgados publicamente até o momento desta publicação.
Há algo perturbador no intervalo entre o post e a entrada na água. Quem já assistiu ao documentário Riding Giants (2004), de Stacy Peralta, reconhece essa tensão: surfistas de alto rendimento desenvolvem uma relação quase ritualística com o risco, em que a consciência do perigo coexiste com a compulsão de competir. Léo Neves verbalizou o perigo. Competiu mesmo assim. Isso não é imprudência — é a lógica interna de um esporte que ainda não construiu mecanismos formais para que um atleta possa, sem penalidade ou constrangimento institucional, recusar uma bateria por condições adversas.
Saquarema acumula mortes por afogamento em poucos dias
A morte de Léo não é um episódio isolado na região. Na sexta-feira, 21, o corpo de um homem aparentando cerca de 35 anos foi encontrado na Praia da Barrinha Formosa, em Saquarema, após ele ter mergulhado no local. Sua identidade permanecia desconhecida até o fechamento desta matéria. Na segunda-feira, 22, um homem morreu afogado enquanto pescava na Lagoa de Saquarema, próximo da ponte do Girau — foi socorrido com vida e encaminhado ao Hospital Municipal Phorpirio Nunes de Azeredo, em Bacaxá, mas não resistiu. E numa quarta-feira recente, um adolescente de 16 anos morreu na Praia de Barra Nova, também em Saquarema, enquanto outros quatro jovens precisaram ser resgatados no mesmo episódio.
Quatro mortes por afogamento em menos de duas semanas numa mesma região não é estatística — é padrão.
O SportNavo mapeou os casos e a concentração geográfica chama atenção: Praia da Itaúna, Praia da Barrinha Formosa, Praia de Barra Nova e Lagoa de Saquarema compõem um corredor de risco que a Região dos Lagos do Rio de Janeiro nunca tratou com a seriedade que os números exigem. A Praia da Itaúna, especificamente, é reconhecida mundialmente pela força das ondas — o que a torna um palco de elite para o surfe e, simultaneamente, um ambiente de alto risco para qualquer falha de protocolo.
O que precisa mudar nos protocolos de competições de surfe no Brasil
A questão central não é se havia guarda-vidas ou equipe de resgate na praia — havia, e eles agiram. A pergunta mais incômoda é outra: existe algum protocolo formalizado que permita interromper ou cancelar uma bateria competitiva com base em condições de saúde do atleta ou instabilidade extrema do mar? No caso de Léo, o próprio surfista sinalizou publicamente que o oceano estava em estado crítico. Essa informação chegou a algum árbitro, diretor de prova ou médico de plantão antes da bateria começar?
"O mar estava sinistro, tenebroso e parecia uma máquina de lavar." — Leonardo Neves, em post nas redes sociais minutos antes de entrar na água para a semifinal do Tríplice Coroa de Saquarema.
A Confederação Brasileira de Surf (CBS) e os organizadores do Tríplice Coroa de Saquarema ainda não divulgaram nota oficial detalhando os protocolos médicos em vigor no evento. A ausência de comunicação institucional num momento como este é, por si só, um dado relevante sobre a cultura de prestação de contas no esporte.
Léo Neves deixa o filho Valentin, que ele mesmo treinava em Saquarema, e uma comunidade do surfe que precisa transformar luto em pressão organizada por mudanças concretas. O Tríplice Coroa de Saquarema tem datas previstas para as próximas etapas — e a pergunta sobre o que será diferente desta vez precisa de resposta antes, não depois, que os atletas entrem na água.









