O fantasma das lesões volta a assombrar a Seleção Brasileira às vésperas de uma Copa do Mundo. Com apenas quatro meses separando o Brasil da estreia na Copa de 2026, Carlo Ancelotti se vê obrigado a reformular seu esquema tático após os contratempos envolvendo Éder Militão e Estêvão, dois pilares fundamentais em seu projeto inicial para o torneio nos Estados Unidos, México e Canadá.

A situação evoca memórias amargas de competições anteriores. Em 1998, Romário foi cortado véspera da Copa da França por lesão no bíceps femoral - o Brasil perdeu a final para a França por 3 a 0. Quatro anos depois, em 2002, Emerson sofreu luxação no ombro direito poucos dias antes da estreia, mas a conquista do pentacampeonato amenizou o impacto. Já em 2014, a ausência de Neymar nas semifinais e final, após fratura na terceira vértebra lombar contra a Colômbia, coincidiu com o vexame do 7 a 1 diante da Alemanha.

O dilema defensivo de Militão

Éder Militão, que havia retornado recentemente de uma grave lesão no bíceps femoral da perna esquerda que o afastou por quatro meses, sofreu novo incômodo muscular durante a vitória do Real Madrid sobre o Alavés por 2 a 1. Felizmente, os exames descartaram lesão grave, classificando o problema como muscular na mesma região anteriormente afetada.

O zagueiro de 27 anos representa peça-chave no esquema defensivo planejado por Ancelotti. Desde 2019, quando foi convocado pela primeira vez por Tite, Militão disputou 38 partidas pela Seleção, marcando 3 gols. Sua presença se tornou ainda mais valiosa após a aposentadoria de Thiago Silva da Seleção, deixando uma lacuna de liderança na defesa que poucos conseguem preencher com a mesma autoridade.

Segundo apuração do SportNavo, a comissão técnica monitora de perto a evolução do quadro clínico do defensor, que vinha ganhando sequência no Real Madrid após meses de recuperação. Antes do susto contra o Alavés, Militão havia atuado como titular em três partidas consecutivas, incluindo os 90 minutos na eliminação diante do Bayern de Munique na Champions League.

Estêvão e o ataque em xeque

A situação de Estêvão apresenta contornos mais preocupantes. O atacante do Chelsea, de apenas 18 anos, sofreu lesão muscular de grau 4 na coxa direita durante o clássico contra o Manchester United, problema que pode exigir intervenção cirúrgica. Com ruptura quase completa no músculo, o jovem prodígio dificilmente teria tempo hábil para se recuperar antes dos primeiros jogos da fase de grupos.

A potencial ausência de Estêvão representa golpe significativo no planejamento ofensivo de Ancelotti. O atacante vinha sendo observado como uma das principais apostas para o futuro da Seleção, combinando velocidade, dribles e finalização que lembravam os grandes pontas-direitas da história brasileira. Sua versatilidade tática - podendo atuar tanto pela direita quanto como segundo atacante - oferecia ao técnico italiano múltiplas opções de formação.

"Ancelotti ressaltou nos últimos meses a busca por jogadores que estejam '100%' para defender a seleção brasileira"

O cenário se torna ainda mais delicado considerando que Rodrygo já foi cortado anteriormente devido à lesão ligamentar no joelho, tendo inclusive passado por cirurgia no último mês. Com dois atacantes fundamentais fora de combate, Ancelotti precisa revisar completamente suas opções ofensivas para a Copa.

Reformulação tática necessária

Historicamente, mudanças forçadas de última hora raramente beneficiaram a Seleção em Copas do Mundo. Em 1982, a contusão de Sócrates nas vésperas da Copa da Espanha obrigou Telê Santana a improvisar no meio-campo, contribuindo para a eliminação ainda na segunda fase. Quatro décadas depois, Ancelotti enfrenta dilema similar, mas com menos tempo para adaptações.

Na defesa, as alternativas incluem Marquinhos como zagueiro central, Gabriel Magalhães do Arsenal e Murilo do Nottingham Forest como possíveis substitutos. No ataque, a ausência de Estêvão pode abrir espaço para Raphinha do Barcelona - que também vem lidando com problemas físicos recentes - ou forçar mudança de sistema tático, priorizando um meio-campo mais povoado.

A experiência de Ancelotti em grandes competições oferece esperança. O técnico italiano conquistou cinco Champions League como treinador, conhece a pressão de decisões de última hora. Contudo, a Copa do Mundo apresenta particularidades únicas: tempo limitado de preparação, pressão da imprensa e expectativa de 220 milhões de brasileiros que sonham com o hexacampeonato.

A convocação final será anunciada em 18 de maio, deixando pouco mais de três meses para definir substitutos e ajustar automatismos. O Brasil estreia na Copa em 12 de junho, enfrentando adversário ainda a ser definido no sorteio, mas já sabendo que precisará superar não apenas os rivais em campo, mas também o histórico fantasma das lesões que persegue a Seleção nas grandes competições.